Mundo de ficçãoIniciar sessãoAbandonada pela própria mãe ainda criança, Helena precisou crescer rápido. Com apenas dez anos, tornou-se a guardiã dos seus três irmãos em um lixão esquecido pela cidade. Foi lá, entre escombros e esperanças, que conheceu Heitor, um menino rico de coração generoso, que lhe prometeu amor eterno. Anos depois, com um grave acidente e a vida pedindo sacrifícios, Helena se vê forçada a entrar no mundo da prostituição. Sob o nome artístico de Angel, ela brilha nos palcos de um cabaré, chamando a atenção de homens poderosos — entre eles, Gael, um jovem influente e sedutor, noivo da elegante Alice. O que ela não imaginava é que Gael fosse irmão de Heitor… e que seu passado e presente estariam prestes a colidir de forma explosiva. Heitor retorna à sua vida como um homem misterioso, disposto a protegê-la e amá-la a qualquer custo — inclusive, por meio de um casamento por contrato. Mas Helena carrega cicatrizes, segredos… e um amor dividido entre dois irmãos.
Ler maisO ar era pesado, denso como um lamento preso na garganta. Perfume barato, cigarro e suor se misturavam nas paredes descascadas, grudando na pele de Helena como uma segunda pele indesejada. No palco estreito e mal iluminado, ela surgiu — envolta num vestido de cetim vermelho que parecia menos uma roupa e mais uma armadilha.
Os holofotes opacos mal atravessavam a névoa de fumaça, mas ainda assim delineavam cada curva do seu corpo, exposto aos olhos famintos da plateia. E como devoravam. Olhares como facas, cortando o pouco de dignidade que ela ainda tentava preservar. Entre os sussurros sujos, havia um silêncio — o silêncio de predadores observando a presa se contorcer antes do bote. Ela dançava. Não porque queria. Porque precisava. Cada movimento era forçado, como se o corpo lutasse contra a alma para obedecer. O samba arrastado que gemia das caixas enferrujadas do andar de baixo fazia o chão vibrar sob seus pés descalços. Era como se o inferno tivesse ritmo, e ela estivesse condenada a dançar ali, noite após noite. — Olha só pra isso, parece uma virgem se fingindo de santa! — gargalhou um homem de camisa aberta, já bêbado, jogando uma nota amassada de cinquenta aos pés dela. — Rebola mais, Cristal! Mostra o que eu vou comprar hoje! — gritou outro, dente de ouro reluzente, olhos vermelhos de álcool. A risada dele ecoou como uma sirene de escárnio pelo salão. Helena não piscou. Apenas girou, o vestido subindo mais do que gostaria. Não havia escolha. O dinheiro pagaria o remédio do irmão. Os cabelos negros e lisos contrastavam com a palidez quase fantasmagórica do rosto, maquiado para esconder a dor. O batom vermelho tremia nos lábios como um sorriso falso no rosto de uma boneca quebrada. — Parece de porcelana... será que quebra se a gente apertar? — murmurou um homem à frente, a mão estendida tentando alcançar sua coxa enquanto ela girava. Ela recuou de leve — um movimento sutil, treinado. Mas sentiu o nojo subir pela garganta. Outro se levantou da cadeira, aproximando-se do palco com a ousadia de quem se acha dono de tudo. — Desce daí, linda... vem ganhar um extra no camarim — a voz pastosa, o hálito de conhaque invadindo o ar como uma agressão. Ela não respondeu. Nunca respondia. Se respondesse, apanharia depois. Os olhos claros, quase transparentes, não olhavam para ninguém. Não podiam. Se olhasse, veria o desejo cru, a avidez de homens que a queriam por minutos, sem imaginar o peso da alma que aquele corpo carregava. Mas eles não viam Helena. Viam Cristal. A boneca de vitrine. A ilusão vendida em carne viva. Um corpo alugado pela noite. Cada aplauso soava como um tapa. Cada assobio, como a lembrança de que seu corpo não lhe pertencia mais. Ela girava devagar, os cabelos acompanhando o movimento, mas os olhos continuavam duros, distantes — mergulhados num passado de abandono, fome e perda. A meia-noite se aproximava. E enquanto lá embaixo as vozes se elevavam e o vinho barato escorria em gargantas sujas, no palco Helena era um retrato vivo da tristeza — vendida em pedaços para quem tivesse trocados no bolso e a consciência morta no peito.O salão do Veludo Escarlate ainda respirava perfume doce e música abafada quando Dona Pérola chamou Helena até sua sala reservada, nos fundos da casa. Um espaço silencioso, paredes vermelhas, cortinas pesadas e móveis antigos — onde decisões importantes eram tomadas.Helena entrou apreensiva, os pés ainda doendo da noite anterior. Cabelos soltos, a maquiagem parcialmente desfeita. Pérola, sentada numa poltrona de veludo, gesticulava devagar com uma taça de vinho na mão.— Sente-se, Angel. Ou melhor... Helena. Hoje vamos falar como mulheres. Não como dançarina e patroa.Helena se sentou sem dizer nada.Pérola suspirou fundo antes de começar.— Eu vejo o jeito como você volta pra casa todas as manhãs. E vejo também os olhos que você procura nos cantos da rua. Você não deixou o lixão. Nem por um segundo.Helena engoliu em seco. Não conseguia fingir.— Eles estão lá. Me esperando. Lara chora quando eu saio. Juliano tenta ser forte. Keven... já nem pergunta mais onde eu vou.Pérola se incl
Do fundo do salão, Torres observava.O segurança da casa. O braço direito de Pérola. Sempre calado, sempre rígido, como uma escultura viva. O cabelo cortado rente, os olhos azuis-acinzentados varrendo o ambiente como radares. Os músculos evidentes, delineados onde a camisa se abria levemente, revelando um peitoral trincado.Ele nunca se permitia desvios ou distrações — a vida dele era regida por um foco implacável. Mas ao olhar para Helena, uma pequena fissura se formou naquele muro sólido. Um canto dos lábios se curvou num sorriso quase imperceptível, como se ele mesmo estivesse surpreso por sentir algo fora da rotina.Marina viu.De onde estava, viu tudo.O estômago revirou. O café da tarde que tinham compartilhado naquele mesmo dia, as risadas, os conselhos — tudo pareceu evaporar no instante em que aquele olhar foi lançado para Helena, e não para ela.Abriu as mãos contra a saia e forçou um sorriso.— Angel... tá linda — Marina sussurrou ao encontrar Helena nos bastidores, o tom c
O espelho estava embaçado pelo vapor do banho quente. Helena — agora Angel, nome escolhido por Dona Pérola — estava parada diante dele, uma toalha enrolada no corpo e os cabelos ainda úmidos escorrendo pelas costas. Sentia-se outra. Sentia-se ninguém. Sentia-se... tudo ao mesmo tempo. O reflexo no espelho não era só dela, mas de um novo começo, um recomeço cheio de esperanças e dúvidas. As mãos de Marina trançavam seus cabelos com delicadeza, enquanto uma das costureiras passava um delineador nos olhos dela, realçando o azul profundo que contrastava com os fios escuros. — Não precisa sorrir, Angel. Só olhe. E você já hipnotiza — disse a maquiadora, impressionada com a beleza que emergia. O vestido estava sobre a cadeira: um modelo longo de veludo preto, com uma fenda que ia até a coxa e um decote profundo no busto, com renda. Sensual, mas elegante. Uma roupa que não dizia "venda". Dizia "mistério". Helena vestiu-se com cuidado, os dedos trêmulos. Girou lentamente, admirando o ves
Horas depois, Helena caminhou sozinha pelas ruas estreitas até uma casa de fachada vermelha e cortinas de veludo. As luzes da varanda tremeluziam, e o cheiro de perfume doce invadia o ar. Era ali. A casa que Dona Pérola administrava. A cada passo, o coração batia mais rápido. A expectativa, misturada a um certo temor, a impulsionava em direção a uma porta que prometia um novo começo.Parou em frente à porta, respirou fundo e bateu de leve. O eco da mão ressoou nas paredes silenciosas. A porta se abriu devagar, revelando uma mulher de postura ereta, cabelos platinados perfeitamente presos, batom vermelho e olhos afiados como lâminas. Dona Pérola a estudou com um olhar penetrante.— Você é a menina do lixão? — disse.Helena assentiu, sem coragem de dizer mais. Pérola a analisou por longos segundos, dos pés descalços ao rosto marcado de poeira. E mesmo assim ficou fascinada.— Meu Deus... quanta beleza enterrada na lama. Parece uma flor crescendo no meio do entulho — a voz de Pérola era
Último capítulo