Mundo ficciónIniciar sesiónO calor era sufocante. Um calor pegajoso, sujo, que subia do chão do lixão como se viesse do próprio inferno. E ainda assim, Helena tremia.
Deitada sobre o cobertor fino, manchado de barro e suor, seu corpo magro parecia se dissolver aos poucos. A pele pálida, os lábios rachados, os olhos semicerrados não escondiam o quanto a febre a consumia. O suor encharcava os cabelos, escorria pelas têmporas, molhava o travesseiro improvisado. Cada respiração era uma luta. Murmurava palavras sem sentido, mergulhada num mundo onde a dor e o delírio se confundiam. Lara, encolhida ao lado dela, chorava baixinho. — Ela não fala mais, Juliano... Juliano se ajoelhou, segurando um pano encharcado com a água que haviam recolhido da chuva. Passou na testa de Helena com cuidado, tentando não tremer. — Tá tudo bem, mana... você vai melhorar — disse, tentando sorrir. Mas por dentro sabia que não. Helena estava mal. Mal como nunca estivera antes. O jeito que o corpo dela se dobrava, a respiração falha, os gemidos baixos — aquilo não era só um resfriado. Era mais. Muito mais. — A gente precisa de remédio, Keven. Vai chamar a Marina! Rápido! Keven saiu correndo, tropeçando na lama, gritando por socorro. A voz fina ecoou pelos barracos, se misturando ao latido distante dos cães e às vozes das crianças. Helena se remexeu. Os olhos, mesmo fechados, estavam úmidos. — Não deixem... ninguém... tocar vocês... — murmurava, em delírio. Lara a abraçou com força, tentando protegê-la do que nem sabia nomear. O medo de perdê-la era maior que qualquer fome já sentida. Ela não conhecia o mundo sem Helena. Nenhum deles conhecia. No outro extremo da cidade, onde o céu era outro e o chão era firme, Heitor olhava pela janela do quarto da mãe. O quarto estava vazio desde que ela falecera meses antes, mas ele sempre voltava ali. Talvez por saudade. Talvez por culpa. Na estante, encontrou um livro infantil de capa azul, desgastada nas bordas. Era o mesmo que costumava levar ao lixão. A mesma história que lia com Helena, Lara deitada no colo dela, Juliano fazendo perguntas entre uma página e outra. Sentou-se na poltrona e segurou o livro com as duas mãos, os dedos percorrendo a capa com delicadeza. — Será que ela ainda tá lá? A pergunta ficou no ar, solta, sem resposta. Desde que o pai decidira mudar de cidade, Heitor sentia uma inquietação que crescia a cada noite. Helena voltava aos seus sonhos — não como uma lembrança, mas como um chamado. O tipo de coisa que não se esquece. Fechou os olhos. E lembrou. Era noite no lixão. O fogo de um barril ardia ao longe, lançando sombras tremeluzentes nas lonas e latas. O calor se misturava ao cheiro forte do lixo, mas naquele momento Heitor estava mais interessado na companhia dos amigos do que no ambiente ao redor. Passara o dia todo ali, brincando com Juliano, ajudando Keven a construir uma "casa" de caixas de papelão, ouvindo Lara cantarolar uma música inventada. Cada risada, cada brincadeira, era um escape do lugar que chamavam de lar. Agora estava deitado ao lado de Helena, sobre uma pilha de panos velhos. Ela olhava para o céu, e ele também. O céu noturno era um grande pano cinza, sem estrelas. A lua mal se mostrava, como se tivesse medo de iluminar o que havia ali. — Você já viu o céu de verdade? — ele perguntou, virando o rosto para ela.






