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Capitulo Quatro - A Dor que Alguém Escolheu Chamar de Amor...

Heitor havia viajado com a família. Ninguém avisou por quanto tempo. Ninguém explicou. O carro preto deixou de aparecer, e o mundo de Helena voltou a ser só lixo, silêncio e sobrevivência.

O cheiro era insuportável.

Um misto de plástico queimado, comida apodrecida, roupas molhadas e carniça esquecida pelo tempo — como se o próprio ar estivesse doente ali. Moscas se acumulavam sobre as latas abertas, ratos corriam entre sacolas rasgadas, e um líquido espesso e escuro escorria por entre os montes como um rio envenenado.

Era ali que Helena garimpava o que podia.

Com uma vara de ferro mais alta que ela, revirava montanhas de lixo como quem busca ouro — mas tudo o que queria era qualquer coisa que pudesse ser mastigada. Cada saco aberto era uma roleta russa: podia vir um pedaço de pão mofado ou uma agulha enferrujada. Ela não tinha escolha. A fome não esperava.

— Juliano! Achei um pedaço de pão! — gritou, a voz embargada e alegre, como se tivesse encontrado um tesouro escondido sob a lama.

Juliano correu. Magro, os joelhos machucados, as costelas saltando por baixo da camiseta suja — mas os olhos brilhavam de expectativa.

— Tá duro... mas dá pra molhar com água quente — disse, animado, pegando o pão com as duas mãos sujas.

— A gente não tem gás — lembrou Keven, coçando a cabeça com os dedos encardidos. — Só a água da chuva.

Helena deu de ombros e fingiu que não se importava. Rasgou o pão com esforço — estava duro como pedra — e o dividiu em cinco partes irregulares. Uma para cada um.

— Come, Lara. Come, Keven. A mana já comeu.

Mentiu. E ninguém notou.

Os irmãos devoraram seus pedaços com a pressa de quem sabe que talvez aquilo seja tudo por hoje. Mastigavam devagar, mesmo com fome, saboreando o gosto quase inexistente como se fosse banquete. Helena só os observava — os olhos cheios de amor e de vazio ao mesmo tempo.

Quando terminou de distribuir tudo, se afastou em silêncio. Caminhou até a carcaça de um carro velho, portas arrancadas, assento coberto de lodo, onde costumava se esconder para respirar.

Sentou-se no chão frio e deixou o ferro cair ao lado.

O estômago roncava.

Cada contração era como uma mão apertando as entranhas. Mas ela não chorava por isso. Chorava porque não podia fazer mais. Porque seu corpo de menina não bastava para sustentar quatro vidas. Porque a promessa de uma casa bonita parecia, naquele momento, invenção de outro mundo.

As lágrimas desciam devagar, silenciosas, traçando caminhos pela poeira do rosto.

Tapou a boca com a mão para não soluçar alto. Lá fora, os irmãos riam entre si, dividindo migalhas, brincando de esconder pedras como se fossem brinquedos. O som da inocência era uma faca cortando o peito dela.

Ficar sem comer doía.

Mas ver os irmãos comendo, mesmo com tão pouco, doía mais bonito.

Porque era amor. Cru, impuro, desesperado. Mas amor.

Ali, entre ratos e ferrugem, Helena entendeu que sobreviver não era um ato de sorte.

Era um ato de coragem.

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