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Capítulo 2 — O anel e o acaso cruel

A manhã seguinte começou silenciosa demais. O apartamento estava tomado por malas abertas, roupas espalhadas e caixas empilhadas. Parecia que a vida de Ashiley tinha sido desmontada peça por peça durante a madrugada.

Ela sentou no chão, dobrando camisetas que nem lembrava que tinha. Tudo parecia estranho — como se estivesse arrumando a vida de outra pessoa.

Então encontrou algo que tirou seu ar por um segundo:

o moletom cinza de Pietro.

Ela o encarou. Não tinha cheiro nenhum, nem lembrança boa. Só carregava o peso de tudo que ela aceitou enquanto merecia mais. Sem hesitar, jogou no fundo da sacola de doação.

Nada dele iria com ela. Nada mesmo.

Quando estava prestes a fechar a mala principal, o celular vibrou.

Gustavo Martins.

Ela respirou fundo antes de atender.

— Alô?

— Ashiley — a voz dele era firme, objetiva —, a reunião com as famílias está marcada. O casamento seguirá o cronograma.

Ela revirou os olhos. Gustavo falava como se estivesse combinando uma reunião de negócios, não um casamento.

— Romance passa longe disso, né? — ela ironizou.

Mas Gustavo não se abalou.

— Preciso que você vá à joalheria Monteverdi. Seu anel de noivado está pronto. Só falta escolher o modelo final.

— E se eu não quiser escolher nada? — rebateu.

— Não é opcional. Faz parte do protocolo.

Ashiley riu de leve, cansada.

— Ótimo. Mais um protocolo.

E desligou.

A Monteverdi era exatamente como ela lembrava: paredes de vidro, atendentes alinhadas como modelos de vitrine e luzes que faziam qualquer joia parecer um pedaço de sol.

A recepcionista abriu um sorriso ensaiado.

— Senhorita Monteiro, que bom revê-la.

Ashiley devolveu apenas um aceno.

— Quero ver os anéis.

Enquanto esperava, se distraiu olhando a vitrine. Joias perfeitas, caras, brilhantes. Todas com aquela mensagem silenciosa: “Você pertence a um mundo que consome beleza como obrigação.”

Foi então que a atendente voltou com uma bandeja repleta de opções.

— Estes são os modelos indicados para o seu perfil.

Ela observou cada um. Todos lindos… e totalmente impessoais. Não representavam nada — o que talvez fosse exatamente o que ela precisava agora.

Escolheu o mais simples: ouro claro, discreto, elegante sem querer chamar atenção.

Foi quando ouviu uma voz atrás dela.

Uma voz que ela reconheceria mesmo em outra vida.

— Pietro, olha esse colar. Acho que combina comigo.

O mundo dela congelou por meio segundo.

Ela virou o rosto só o suficiente para ver:

Laura segurando um colar caro, rindo.

Pietro ao lado, sério, desconfortável, mas ali. Com ela.

Ashiley não sabia se o que sentiu foi raiva, decepção ou apenas a confirmação do que já sabia.

Pietro ergueu o olhar e a viu.

E por um instante, ele pareceu esquecer o próprio nome.

— Ashiley…

Ela abriu um sorriso frio.

— Que coincidência — disse, com o tom leve demais para ser verdadeiro. — Vejo que continuam… amigos.

Laura não perdeu tempo.

— Pietro e eu sempre tivemos uma boa conexão — ela disse, com aquele sorriso doce que escondia intenção.

Ashiley deu de ombros.

— Bom para vocês.

E saiu antes que alguém pudesse criar drama.

A porta automática da joalheria se abriu e ela respirou fundo, como se só ali pudesse voltar a ser dona de si.

O celular vibrou imediatamente.

Gustavo:

Assim que pegar o anel, me avise. O motorista te busca às 7h. Não atrase.

Ashiley digitou:

Tudo certo.

E guardou o telefone.

Naquela noite, a despedida do apartamento foi estranha. Não havia choro, nem nostalgia. Só um silêncio pesado, como se ela tivesse esperado muito tempo para ir embora dali.

Jogou fora papéis velhos, apagou fotos do celular, guardou livros e lembranças. Cada movimento parecia cortar um fio que a prendia à vida que ela viveu sem perceber que estava vivendo errado.

No fundo da gaveta, encontrou algo que não lembrava ter guardado:

uma caixinha de madeira.

Dentro, cartas que ela nunca enviou para Pietro.

E um pingente em forma de estrela — o primeiro presente que ele deu.

Ashiley segurou o pingente por alguns segundos.

E então, sem drama, soltou-o dentro do lixo.

Tudo dele estava ficando ali.

Tudo.

Às 6h50, o interfone tocou.

— O motorista está esperando — anunciou o porteiro.

Ela pegou as malas, respirou fundo e fechou a porta do apartamento como quem fecha um capítulo importante.

Na calçada, o motorista — um senhor sério, bem arrumado — abriu o porta-malas.

— Bom dia, senhorita Monteiro.

— Bom dia.

Vizinhos curiosos espiavam pelas janelas. A dona da quitinete ao lado perguntou:

— Vai viajar, Ash?

Ela sorriu com mistério.

— Indo para onde deveria estar.

Entrou no carro. Não olhou para trás.

O sedã desceu a avenida, cruzando a cidade que ela usou por anos como esconderijo. Cada rua parecia um eco de quem ela foi. Cada esquina, uma versão dela que não existe mais.

O motorista ligou o rádio. Uma música lenta encheu o carro.

Ashiley encostou a testa no vidro da janela.

O coração não doía por Pietro.

Não mais.

O que batia ali era outra coisa: foco.

Do outro lado da viagem, ela sabia o que a esperava:

Gustavo.

A mansão Monteiro.

O casamento arranjado.

As famílias.

Os olhos sobre ela.

Os contratos.

A imprensa.

As aparências.

Mas ela não sentia medo.

Sentia preparo.

Como se finalmente tivesse aprendido a sobreviver sem se diminuir.

— Tudo certo com o horário? — ela perguntou ao motorista.

— Chegaremos cedo — ele respondeu.

Cedo.

Exatamente como ela precisava.

Ashiley fechou os olhos, respirou fundo e deixou o futuro se aproximar.

Não com leveza, mas com força.

Porque agora, mais do que nunca, ela sabia:

não tinha mais volta.

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