Mundo ficciónIniciar sesiónTraída pelo marido e expulsa de sua própria alcatéia, Lyara perdeu tudo; seu título, sua honra e seu futuro. Mas em vez de se curvar ao destino, ela se ergue das cinzas, determinada a recuperar o que lhe foi tirado. Anos depois, uma oportunidade inesperada a leva ao castelo do temido Rei Alfa Kael, um líder implacável, cuja simples presença faz seu lobo estremecer. Desde o primeiro olhar, Kael a deseja e a reivindica como sua Luna. Nele, Lyara encontra tudo o que jamais teve: força, respeito e um desejo tão intenso quanto perigoso. Mas quando descobre que Kael é o pai biológico de seu ex-marido, a verdade ameaça destruí-la. Presa entre um amor proibido e a sede de vingança, Lyara precisa decidir se seguirá seu coração ou esmagará aqueles que a traíram.
Leer másO perfume de jasmim e sândalo que eu havia espalhado pelo quarto parecia agora o cheiro de um velório. Cada partícula da fragrância, que antes eu julgava sedutora e acolhedora, agora sufocava meus pulmões como se fosse fumaça saindo de uma pira funerária. Eu segurava em minhas mãos uma pequena caixa de veludo azul-noite, um presente de aniversário de casamento que eu havia levado meses para conseguir comprar.
Ironicamente, eu sou a herdeira de uma fortuna que a maioria das alcateias não ousaria sonhar. O nome Jones carrega consigo bilhões em ativos, terras e influência que remontam a gerações de reis e rainhas. No entanto, para eu conseguir aquele relógio de platina para Eros, precisei economizar cada centavo de uma mesada humilhante, vendendo joias pessoais escondida. Eros não me permitia gastar. Ele dizia que o controle financeiro era necessário para a "segurança da família", que uma Luna que não conseguia sequer invocar sua loba não tinha discernimento para gerir recursos tão vastos.
E meu tio, Gael Jones, o homem que me criou após a tragédia que levou meus pais, sempre balançava a cabeça em concordância. "O marido tem liberdade para agir em nome do clã, Lyara", ele dizia com sua voz aveludada e protetora. "É para o seu próprio bem, querida. Eros está apenas protegendo você da sua própria vulnerabilidade."
Eu acreditei. Durante três anos, eu vivi na sombra, pedindo permissão para existir, acreditando que o meu silêncio era o preço da minha segurança.
Meu coração batia em um ritmo tolo, esperançoso, batendo contra as costelas como um pássaro ferido em uma gaiola de ouro. Eu acreditava, com a ingenuidade patética dos desesperados, que aquela noite mudaria o gelo que havia se instalado entre mim e Eros. Que o presente e o jantar que eu mesma preparei — já que ele dispensara os servos para "termos privacidade" — seriam a ponte para o homem que um dia jurou me amar apesar da minha loba adormecida.
Mas o silêncio do corredor da ala sul foi quebrado por um som que rasgou minha alma antes mesmo que meus olhos vissem a cena.
Um gemido. Agudo, familiar, carregado de uma luxúria que não conhecia barreiras. Logo depois, um riso baixo, rouco, uma nota de satisfação masculina que Eros não compartilhava comigo há anos.
Minha mão tremeu na maçaneta de bronze frio. Como uma loba sem faro, eu me sentia cega para o perigo. No mundo dos metamorfos, os sentidos são tudo; a audição capta a traição a quilômetros, o olfato detecta a mentira no suor. Mas eu... eu era um erro. Uma loba que nunca sentiu o estiramento dos ossos na transformação, que nunca ouviu o rosnado da própria alma. Minha intuição — aquela parte de mim que o meu tio Gael sempre dizia estar "quebrada" ou "subdesenvolvida" devido ao trauma da infância — gritava para eu dar meia volta. Minhas entranhas se reviraram em um aviso ancestral.
Eu não dei ouvidos. Empurrei a porta.
Quando a madeira pesada cedeu, o mundo que eu conhecia, o castelo de cartas que eu chamei de vida, desmoronou em uma pilha de escombros sem valor.
Ali, na nossa cama, sob os lençóis de seda que eu escolhi, Eros não estava sozinho. Ele envolvia o corpo de Mirella. Minha prima. A mulher que cresceu dividindo as bonecas e os segredos comigo, que usava minhas roupas velhas e chorava no meu ombro quando tinha pesadelos. A "irmã" que o meu tio Gael acolhera sob o mesmo teto, tratando-a com a mesma benevolência que tratava a mim.
O suor brilhava na pele deles sob a luz prateada do luar que entrava pelas janelas altas. O cheiro de sexo e traição era tão espesso que eu podia quase mastigá-lo. O que vi nos olhos de Eros quando ele percebeu minha presença, paralisada na soleira como uma estátua de sal, não foi culpa. Não foi horror.
Foi tédio. Um cansaço profundo, como se minha dor fosse uma interrupção inconveniente em sua agenda.
— Lyara? — Mirella disse. Sua voz fingia surpresa, um tom agudo de falsa inocência, mas seus dedos longos e unhas bem feitas se enterraram no braço de Eros, reivindicando-o, puxando o lençol apenas o suficiente para mostrar que ela pertencia àquele lugar mais do que eu. — Você não deveria estar na cerimônia de oração com seu tio?
— Saiam... — Minha voz saiu como um sussurro seco, as cordas vocais parecendo cobertas de vidro moído.
Eu queria rugir. Por um segundo, senti uma pressão no fundo da minha espinha, um calor sufocante que queria explodir. Eu queria que minha loba saltasse de dentro de mim, que suas garras rasgassem a tapeçaria daquela parede e a garganta daqueles dois. Mas, como sempre, não havia nada. O vazio que me acompanhava desde o nascimento, o abismo silencioso onde deveria estar minha fera, apenas ecoou minha própria agonia. Eu era uma humana em pele de lobo, desarmada e patética.
Eros se sentou, sem qualquer pressa de se cobrir ou de explicar o inexplicável. Ele me olhou de cima a baixo, um olhar que avaliava uma mercadoria estragada, um investimento que não deu retorno.
— Não faça uma cena, Lyara. Você sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. — Ele disse, e cada palavra era uma pedra de gelo lançada contra o meu rosto. — Uma alcateia desta magnitude precisa de uma Luna que produza herdeiros. O conselho está cobrando. O povo está cobrando.
— Você é meu marido, Eros — eu disse, a caixa de veludo caindo da minha mão, o relógio caro rolando pelo tapete, ignorado. — Nós fizemos votos diante da Lua.
— Votos são para lobos completos, Lyara. — Ele se levantou, a nudez sendo usada como uma arma de poder, mostrando sua superioridade física. — Mirella está carregando o meu filho. Ela provou em uma noite o que você, com seu ventre amaldiçoado e sua loba morta, nunca será capaz de fazer em três anos.
O choque me atingiu como um impacto físico, um soco no estômago que me tirou o ar. Estéril. Era a palavra que ele usava agora como uma faca de caça, retalhando o pouco que sobrava da minha dignidade. Eu não conseguia me transformar, eu era "defeituosa" para lutar, e agora, ele me dizia que eu nem sequer podia cumprir o único papel biológico que a sociedade dos lobos ainda me permitia.
— Você prometeu que cuidaríamos disso juntos... que o tempo curaria meu bloqueio... — eu comecei, as lágrimas finalmente transbordando, quentes e amargas.
Mirella interrompeu-me com um sorriso cruel, levando a mão ao ventre ainda perfeitamente plano, um gesto de triunfo absoluto.
— Promessas não constroem linhagens, Lyara. O destino da alcateia é mais importante que seus sentimentos infantis. — Ela se inclinou para frente, a luz do luar revelando a malícia em seu rosto que eu nunca quis enxergar. — Você teve sua chance. Foi uma Luna de enfeite por tempo demais. Mas agora o herdeiro é real. Ele é meu.
Eros caminhou até mim. Ele não me tocou para consolar; ele apenas parou perto o suficiente para que eu sentisse o calor de seu corpo que não era mais meu.
— Agora vá. O seu tio Gael está nos esperando no salão nobre para anunciar a sucessão e os novos planos para a segurança do território. — Ele passou por mim, pegando um roupão de seda. — Você não passa de um erro, Lyara. Um erro que estamos prestes a corrigir.
Eu recuei, tropeçando nos meus próprios pés. O corredor parecia ter quilômetros de extensão. Onde estava meu tio? Ele me protegeria. Ele puniria Eros por essa desonra. Ele sempre disse que eu era o tesouro da família Jones, a última lembrança de seu irmão amado.
Eu corri. Corri pelas sombras do castelo que eu acreditava ser meu lar, sentindo o peso dos bilhões de dólares da minha herança como correntes de ferro que não compravam um pingo de respeito. Meus pulmões ardiam. Eu precisava de Gael. Precisava do único homem que, em meio àquela selva de dentes e garras, sempre me olhou com "piedade" e "amor".
Eu não sabia, enquanto atravessava as portas duplas do salão nobre com o rosto banhado em lágrimas, que o abraço que eu procurava era, na verdade, o abraço da própria morte que vinha me espreitando desde o berço.
O silêncio no salão era absoluto. E, no trono de carvalho, meu tio Gael me esperava. Não com guardas para me defender, mas com o olhar de um carrasco que finalmente se cansou de esperar a vítima se ajoelhar por vontade própria.
O som que me trouxe de volta da inconsciência não foi o dos tambores, mas o do meu próprio sangue borbulhando na ferida da clavícula. A visão era uma névoa espessa, recortada pelas frestas de luz alaranjada dos incêndios que consumiam o nível inferior do baluarte. O teto desabado criara um túmulo de granito e poeira rúnica, onde o ar tinha gosto de cal e morte.Tentei mover meu braço esquerdo. A dor foi um chicote em brasa que disparou da palma da minha mão rasgada diretamente para o peito, paralisando meus músculos. Minha respiração vinha aos espasmos, curta, fria.A três passos de mim, a silhueta monumental de Kael parecia uma estátua caída. A espada curta de Eros continuava enterrada em seu flanco, e a poça de sangue escuro ao redor dele já começava a esfriar no chão de pedra. Seus olhos azuis estavam semiabertos, fitando o vazio com uma opacidade terrível. O Rei de Ferro, o Alfa que me possuíra com a força de um furacão poucas horas antes, estava sucumbindo ao próprio sangue.Um s
O mundo reduziu-se a uma sinfonia de estilhaços e terra cozida. O aviso de Tristan ecoou tarde demais; o céu sobre o Baluarte do Ferro não se pintou com o azul das flechas rúnicas, mas com o clarão ofuscante de três blocos de basalto maciço fundidos em fogo negro. Quando a primeira rocha atingiu a base de sustentação da muralha leste, o granito ancestral de Silverthorne não apenas rachou — ele liquefez-se.O impacto arremessou-me contra o parapeito de pedra com uma força que estalou minhas costelas. O gládio rústico escapou dos meus dedos, caindo no abismo externo. O ar desapareceu dos meus pulmões, substituído pelo gosto sufocante de poeira rúnica e fuligem. Ao meu redor, os gritos dos guardas de elite misturavam-se ao som metálico das armaduras colidindo contra o chão que desabava.Através da cortina de fumaça cinzenta, vi Tristan ser soterrado até a cintura por um bloco de cantaria; ele tentava erguer o gládio com o braço esquerdo ensanguentado, os olhos cinzentos injetados de pura
A ala oeste da Cidadela de Ferro ruiu com o som apocalíptico de um mundo sendo partido ao meio. O impacto não decorreu de uma conspiração de bastidores engendrada pela Intendente Gerda ou pelos juízes rúnicos, mas de um decreto vindo diretamente dos céus cinzentos do norte. Uma imensa rocha de basalto, extraída das entranhas do Deserto de Cinzas e impregnada com o fogo azul das runas de Crimson Moon, perfurou o monumental teto de vidro e ferro da galeria dos retratos ancestrais.O impacto cataclísmico lançou uma tempestade de estilhaços cristalinos, pesadas vigas de carvalho em chamas e uma nuvem asfixiante de pó de mármore e gesso sobre as nossas cabeças. O corredor que levava ao salão do conselho foi instantaneamente sepultado sob toneladas de escombros fumegantes, obstruindo qualquer possibilidade de uma resolução política ou diplomática.Tristan moveu-se com a velocidade fulminante de um Alfa militar. Num reflexo puramente defensivo, ele me empurrou contra um profundo nicho na par
O eco do sino de bronze não vibrava apenas no ar; ele reverberava através das fendas das pedras, subindo pelas solas dos meus pés como uma pulsação de agonia. O Sanctum de Kael, que instantes atrás testemunhara o colapso dos nossos corpos, transformou-se instantaneamente em uma antecâmara de guerra. O cheiro do suor e do sêmen que esfriavam em minha pele misturava-se agora com a fumaça de óleo rúnico que subia das frestas do assoalho, um indicativo de que as defesas inferiores da Cidadela haviam sido acionadas.Eu me vesti com o que restava do uniforme cinza. O tecido rasgado na altura dos botões expunha a curva do meu esterno, e a falta daquela couraça de serva me deixava exposta à frieza do granito. Kael já não me olhava. Ele estava de pé diante do imenso espelho de ferro polido, afivelando as braçadeiras de aço negro com batidas secas. A transição do homem que havia enterrado os dedos nos meus quadris para o Soberano de Silverthorne ocorreu sem uma única palavra de transição. Quando





Último capítulo