O Meu Querido Sogro Me Escolheu

O Meu Querido Sogro Me EscolheuPT

Lobisomem
Última actualización: 2026-05-20
Beatriz Borges   Completo
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Resumen
Índice

Traída pelo marido e expulsa de sua própria alcatéia, Lyara perdeu tudo; seu título, sua honra e seu futuro. Mas em vez de se curvar ao destino, ela se ergue das cinzas, determinada a recuperar o que lhe foi tirado. Anos depois, uma oportunidade inesperada a leva ao castelo do temido Rei Alfa Kael, um líder implacável, cuja simples presença faz seu lobo estremecer. Desde o primeiro olhar, Kael a deseja e a reivindica como sua Luna. Nele, Lyara encontra tudo o que jamais teve: força, respeito e um desejo tão intenso quanto perigoso. Mas quando descobre que Kael é o pai biológico de seu ex-marido, a verdade ameaça destruí-la. Presa entre um amor proibido e a sede de vingança, Lyara precisa decidir se seguirá seu coração ou esmagará aqueles que a traíram.

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Capítulo 1

O Silêncio das cinzas

O perfume de jasmim e sândalo que eu havia espalhado pelo quarto parecia agora o cheiro de um velório. Cada partícula da fragrância, que antes eu julgava sedutora e acolhedora, agora sufocava meus pulmões como se fosse fumaça saindo de uma pira funerária. Eu segurava em minhas mãos uma pequena caixa de veludo azul-noite, um presente de aniversário de casamento que eu havia levado meses para conseguir comprar.

Ironicamente, eu sou a herdeira de uma fortuna que a maioria das alcateias não ousaria sonhar. O nome Jones carrega consigo bilhões em ativos, terras e influência que remontam a gerações de reis e rainhas. No entanto, para eu conseguir aquele relógio de platina para Eros, precisei economizar cada centavo de uma mesada humilhante, vendendo joias pessoais escondida. Eros não me permitia gastar. Ele dizia que o controle financeiro era necessário para a "segurança da família", que uma Luna que não conseguia sequer invocar sua loba não tinha discernimento para gerir recursos tão vastos.

E meu tio, Gael Jones, o homem que me criou após a tragédia que levou meus pais, sempre balançava a cabeça em concordância. "O marido tem liberdade para agir em nome do clã, Lyara", ele dizia com sua voz aveludada e protetora. "É para o seu próprio bem, querida. Eros está apenas protegendo você da sua própria vulnerabilidade."

Eu acreditei. Durante três anos, eu vivi na sombra, pedindo permissão para existir, acreditando que o meu silêncio era o preço da minha segurança.

Meu coração batia em um ritmo tolo, esperançoso, batendo contra as costelas como um pássaro ferido em uma gaiola de ouro. Eu acreditava, com a ingenuidade patética dos desesperados, que aquela noite mudaria o gelo que havia se instalado entre mim e Eros. Que o presente e o jantar que eu mesma preparei — já que ele dispensara os servos para "termos privacidade" — seriam a ponte para o homem que um dia jurou me amar apesar da minha loba adormecida.

Mas o silêncio do corredor da ala sul foi quebrado por um som que rasgou minha alma antes mesmo que meus olhos vissem a cena.

Um gemido. Agudo, familiar, carregado de uma luxúria que não conhecia barreiras. Logo depois, um riso baixo, rouco, uma nota de satisfação masculina que Eros não compartilhava comigo há anos.

Minha mão tremeu na maçaneta de bronze frio. Como uma loba sem faro, eu me sentia cega para o perigo. No mundo dos metamorfos, os sentidos são tudo; a audição capta a traição a quilômetros, o olfato detecta a mentira no suor. Mas eu... eu era um erro. Uma loba que nunca sentiu o estiramento dos ossos na transformação, que nunca ouviu o rosnado da própria alma. Minha intuição — aquela parte de mim que o meu tio Gael sempre dizia estar "quebrada" ou "subdesenvolvida" devido ao trauma da infância — gritava para eu dar meia volta. Minhas entranhas se reviraram em um aviso ancestral.

Eu não dei ouvidos. Empurrei a porta.

Quando a madeira pesada cedeu, o mundo que eu conhecia, o castelo de cartas que eu chamei de vida, desmoronou em uma pilha de escombros sem valor.

Ali, na nossa cama, sob os lençóis de seda que eu escolhi, Eros não estava sozinho. Ele envolvia o corpo de Mirella. Minha prima. A mulher que cresceu dividindo as bonecas e os segredos comigo, que usava minhas roupas velhas e chorava no meu ombro quando tinha pesadelos. A "irmã" que o meu tio Gael acolhera sob o mesmo teto, tratando-a com a mesma benevolência que tratava a mim.

O suor brilhava na pele deles sob a luz prateada do luar que entrava pelas janelas altas. O cheiro de sexo e traição era tão espesso que eu podia quase mastigá-lo. O que vi nos olhos de Eros quando ele percebeu minha presença, paralisada na soleira como uma estátua de sal, não foi culpa. Não foi horror.

Foi tédio. Um cansaço profundo, como se minha dor fosse uma interrupção inconveniente em sua agenda.

— Lyara? — Mirella disse. Sua voz fingia surpresa, um tom agudo de falsa inocência, mas seus dedos longos e unhas bem feitas se enterraram no braço de Eros, reivindicando-o, puxando o lençol apenas o suficiente para mostrar que ela pertencia àquele lugar mais do que eu. — Você não deveria estar na cerimônia de oração com seu tio?

— Saiam... — Minha voz saiu como um sussurro seco, as cordas vocais parecendo cobertas de vidro moído.

Eu queria rugir. Por um segundo, senti uma pressão no fundo da minha espinha, um calor sufocante que queria explodir. Eu queria que minha loba saltasse de dentro de mim, que suas garras rasgassem a tapeçaria daquela parede e a garganta daqueles dois. Mas, como sempre, não havia nada. O vazio que me acompanhava desde o nascimento, o abismo silencioso onde deveria estar minha fera, apenas ecoou minha própria agonia. Eu era uma humana em pele de lobo, desarmada e patética.

Eros se sentou, sem qualquer pressa de se cobrir ou de explicar o inexplicável. Ele me olhou de cima a baixo, um olhar que avaliava uma mercadoria estragada, um investimento que não deu retorno.

— Não faça uma cena, Lyara. Você sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. — Ele disse, e cada palavra era uma pedra de gelo lançada contra o meu rosto. — Uma alcateia desta magnitude precisa de uma Luna que produza herdeiros. O conselho está cobrando. O povo está cobrando.

— Você é meu marido, Eros — eu disse, a caixa de veludo caindo da minha mão, o relógio caro rolando pelo tapete, ignorado. — Nós fizemos votos diante da Lua.

— Votos são para lobos completos, Lyara. — Ele se levantou, a nudez sendo usada como uma arma de poder, mostrando sua superioridade física. — Mirella está carregando o meu filho. Ela provou em uma noite o que você, com seu ventre amaldiçoado e sua loba morta, nunca será capaz de fazer em três anos.

O choque me atingiu como um impacto físico, um soco no estômago que me tirou o ar. Estéril. Era a palavra que ele usava agora como uma faca de caça, retalhando o pouco que sobrava da minha dignidade. Eu não conseguia me transformar, eu era "defeituosa" para lutar, e agora, ele me dizia que eu nem sequer podia cumprir o único papel biológico que a sociedade dos lobos ainda me permitia.

— Você prometeu que cuidaríamos disso juntos... que o tempo curaria meu bloqueio... — eu comecei, as lágrimas finalmente transbordando, quentes e amargas.

Mirella interrompeu-me com um sorriso cruel, levando a mão ao ventre ainda perfeitamente plano, um gesto de triunfo absoluto.

— Promessas não constroem linhagens, Lyara. O destino da alcateia é mais importante que seus sentimentos infantis. — Ela se inclinou para frente, a luz do luar revelando a malícia em seu rosto que eu nunca quis enxergar. — Você teve sua chance. Foi uma Luna de enfeite por tempo demais. Mas agora o herdeiro é real. Ele é meu.

Eros caminhou até mim. Ele não me tocou para consolar; ele apenas parou perto o suficiente para que eu sentisse o calor de seu corpo que não era mais meu.

— Agora vá. O seu tio Gael está nos esperando no salão nobre para anunciar a sucessão e os novos planos para a segurança do território. — Ele passou por mim, pegando um roupão de seda. — Você não passa de um erro, Lyara. Um erro que estamos prestes a corrigir.

Eu recuei, tropeçando nos meus próprios pés. O corredor parecia ter quilômetros de extensão. Onde estava meu tio? Ele me protegeria. Ele puniria Eros por essa desonra. Ele sempre disse que eu era o tesouro da família Jones, a última lembrança de seu irmão amado.

Eu corri. Corri pelas sombras do castelo que eu acreditava ser meu lar, sentindo o peso dos bilhões de dólares da minha herança como correntes de ferro que não compravam um pingo de respeito. Meus pulmões ardiam. Eu precisava de Gael. Precisava do único homem que, em meio àquela selva de dentes e garras, sempre me olhou com "piedade" e "amor".

Eu não sabia, enquanto atravessava as portas duplas do salão nobre com o rosto banhado em lágrimas, que o abraço que eu procurava era, na verdade, o abraço da própria morte que vinha me espreitando desde o berço.

O silêncio no salão era absoluto. E, no trono de carvalho, meu tio Gael me esperava. Não com guardas para me defender, mas com o olhar de um carrasco que finalmente se cansou de esperar a vítima se ajoelhar por vontade própria.

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Beatriz Borges
Curiosidades sobre o livro: Gael Jones é tio de Lyara. Como Lyara ficou órfã muito cedo, Gael criou Lyara em sua casa e por isso ela e Elena se chamam de irmãs apesar de serem primas. Damon é um lobo de uma família rica, por isso Gael escolheu ele para casar com Lyara.
2025-02-14 18:12:20
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26 chapters
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