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CAPÍTULO 4 — LAÇOS INVISÍVEIS

ELENA

A manhã seguinte amanheceu cinza, com uma névoa fina envolvendo a cidade. Elena chegou cedo à escola, na esperança de organizar a bagunça interna antes que começasse o turno. Mas bastou entrar na sala para perceber que isso seria impossível.

Algo estava diferente.

Não nela — no ar ao redor.

Alguns pais estavam mais atentos no corredor, alguns professores cochichavam, e uma das secretárias lançou um olhar curioso na direção de Elena quando ela passou.

Ela franziu o cenho discretamente. Não gostava de chamar atenção. Não gostava de ser comentada.

Mas lembrava-se muito bem do motivo: um certo homem que havia aparecido no dia anterior como se fosse um acontecimento. Porque, de fato, era.

Enquanto ajustava os papéis na mesa, ouviu batidas leves na porta.

— Professora Elena?

Era o diretor.

— Sim, pode entrar — ela respondeu, tentando parecer tranquila.

O diretor entrou com um sorriso simpático demais — aquele sorriso que as pessoas usam quando estão prestes a fazer uma pergunta que não deveriam.

— Eu soube que você recebeu a visita de um… responsável ontem. Tudo certo?

Elena virou-se devagar.

— Tudo, sim. Ele só queria saber sobre a Isabella.

O diretor assentiu, mas o olhar dizia outra coisa. Curiosidade. Interesse. Cuidado?

— Ótimo. Só peço que me comunique se qualquer situação… incomum voltar a acontecer.

Elena sentiu um arrepio na nuca.

Situação incomum.

Era isso que Lorenzo representava para aquele lugar. Para todo mundo.

Mas antes que ela respondesse, Isabella apareceu à porta.

— Professora, posso entrar? — perguntou a menina.

Elena sorriu.

— Claro, querida.

O diretor saiu, mas Elena teve certeza de que ele ainda estava atento.

Isabella caminhou até a mesa, segurando a alça da mochila, e falou baixinho:

— Meu irmão perguntou de você ontem.

Elena congelou por um segundo.

— Ah… sim — ela disse, casual, demais, ensaiada demais. — Ele estava preocupado com seu desempenho.

— Não. — Isabella a interrompeu, com a franqueza doce de alguém que não mede impacto. — Ele perguntou de você. Da sua vida. Se você estava bem. Se gostava do trabalho. Se morava longe.

O coração de Elena bateu forte.

— Isso não é… necessário. — murmurou.

— Lorenzo é assim. Quando uma coisa mexe com ele, ele precisa entender. — Isabella respirou fundo. — E ontem você mexeu.

Meu Deus.

Elena desviou o olhar, sentindo o calor subir pelo rosto.

---

LORENZO

Na sede da Moretti Enterprises, Lorenzo caminhava pelo corredor como uma presença inevitável. Funcionários abriam caminho. Consultores abaixavam os olhos. Parceiros endireitavam a postura. Ele não falava nada — mas não precisava.

Quando entrou na sala de reuniões, todos ficaram em silêncio imediato.

— Senhores, vamos começar. — disse ele, sentando-se na ponta da mesa.

Por duas horas, discutiram contratos, cifras, investimentos, negociações internacionais. Lorenzo falava com precisão cirúrgica, foco absoluto. Ninguém ousava questionar suas decisões.

Mas assim que a reunião terminou e todos saíram, o silêncio caiu como uma cortina.

Ele se recostou na cadeira e tirou a gravata, soltando um suspiro pesado.

Sua mente havia permanecido lúcida durante toda a discussão — mas seu pensamento não. As palavras vinham e iam, mas sempre havia uma imagem desviando sua atenção.

Os olhos de Elena.

A honestidade desconfortável.

A força frágil.

A voz suave tentando manter distância.

Ela era diferente.

Diferente das mulheres que o cercavam por interesse.

Diferente das mulheres que ele afastava por precaução.

Diferente das mulheres que se aproximavam por medo ou admiração.

Elena não queria nada dele.

E isso, paradoxalmente, o atraía de um jeito perigoso.

O celular vibrou.

— Senhor Moretti? — era Marco, seu segurança de confiança. — Tenho a informação que o senhor pediu. Sobre a professora.

Lorenzo fechou os olhos.

Não queria parecer invasivo. Não queria parecer interessado demais.

Mas já estava.

— Diga — respondeu, voz baixa.

— Ela mora em um bairro tranquilo. Sem parentes próximos na cidade. Trabalha nessa escola há três anos. Não possui histórico de problemas, dívidas ou conflitos. Vida simples.

Vida simples.

Algo tão distante da dele que doeu.

— E a família? — perguntou.

— Pais falecidos. Nenhum registro de irmãos.

Lorenzo apertou o celular com mais força do que pretendia.

Elena era sozinha.

Tão sozinha quanto ele.

— Obrigado, Marco. Isso basta. — disse ele. — Não continue a pesquisa. Por enquanto.

“Por enquanto.”

Porque ele temia descobrir que precisava saber mais.

---

ELENA

Na hora do intervalo, Elena caminhou até a sala dos professores. Tudo parecia normal — alunos correndo, barulho de passos, conversas cruzadas.

Mas algo nela estava diferente. Uma sensibilidade estranha, como se sentisse o mundo mais… alerta.

Enquanto mexia o café, o celular vibrou.

Uma mensagem desconhecida.

Por um instante, ela hesitou.

Depois abriu:

“A Isabella falou que você foi muito gentil ontem. Obrigado.”

Não havia nome.

Mas não precisava.

Ela reconheceria aquela vibração autoritária em qualquer lugar.

Lorenzo.

O coração dela disparou com tanta força que o café quase derramou.

Respirando fundo, ela respondeu:

“Ela é uma ótima aluna. Você não precisa agradecer.”

A resposta veio quase imediata — rápida demais para alguém tão ocupado.

“Preciso, sim.”

Elena mordeu o lábio, sentindo um calor que odiava admitir.

“Espero não causar problemas.”

E então:

“Se alguém causar problemas a você, me avise.”

Ela ficou imóvel.

O café esfriou na mão.

As palavras pesaram como uma promessa — ou como um aviso.

E então, antes que ela respondesse, outra mensagem chegou:

“Não se assuste. Só quero garantir que esteja segura.”

Ela sentiu o estômago revirar.

Segurança.

Por quê?

Que tipo de homem fala assim para uma professora que mal conhece?

Mas ela sabia a resposta.

Sabia desde o primeiro momento em que ouviu o nome Moretti.

---

LORENZO

Mais tarde, quando Lorenzo leu a última mensagem dela, sentiu algo súbito — algo que não permitia sentir desde muito jovem.

Vulnerabilidade.

Ele sabia que estava ultrapassando limites. Sabia que deveria se afastar. Sabia que sua vida, suas escolhas, seus inimigos não combinavam com uma mulher como Elena.

Mas fazia anos — muitos anos — que ele não queria alguém tão irracionalmente.

E isso o assustava mais do que qualquer ameaça externa.

“Segurança”, ele pensou.

Não era ela quem precisava se preocupar.

Era ele.

Porque Elena Vasconcelos tinha acabado de se tornar seu ponto fraco.

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