ELENA
O resto do dia passou, mas Elena sentia como se estivesse caminhando com um fio esticado entre as costelas, sustentado por algo invisível. A conversa com Lorenzo ecoava dentro dela como uma melodia de poucas notas, mas impossíveis de ignorar.
Ela tentou se concentrar nas provas para corrigir, nos relatórios pendentes, no barulho dos alunos no final da tarde. Mas tudo parecia desfocado, como se tivesse perdido o eixo.
Quando chegou em casa, colocou água para ferver, organizou a mesa, abriu seu laptop — tudo sem realmente estar presente. Em certo momento, percebeu que estava encarando o nada, com os dedos parados sobre o teclado.
A presença dele ainda estava ali.
No ar.
Na memória.
No corpo.
O que exatamente ele quer?
A pergunta se repetia na mente como um eco interminável.
Elena tentava racionalizar: ele era o irmão protetor, preocupado com o bem-estar de Isabella. Isso fazia sentido. Era lógico. Mas havia algo nas entrelinhas que não deixava sua pele descansar. A forma como ele havia olhado para ela. Como havia modulado a voz ao se aproximar. Como se ela fosse uma peça que ele tentaria decifrar — e talvez possuir.
“Calma, Elena”, ela murmurou para si mesma, segurando a xícara quente.
Mas nem o calor ajudou.
Ela pensou em Isabella. Na menina brilhante, frágil, carregando um peso que não deveria carregar. Talvez Lorenzo quisesse mesmo proteger a irmã. Talvez ela estivesse imaginando coisas.
Mas a verdade era…
Com Lorenzo Moretti, tudo parecia ter dois sentidos.
O que ele dizia.
E o que ele deixava de dizer.
E era o que ele não dizia que deixava Elena inquieta.
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LORENZO
No escritório, a luz do final da tarde entrava pelas persianas, projetando linhas diagonais na parede. Lorenzo permaneceu em silêncio, observando a própria sombra enquanto segurava um copo de uísque. Ele raramente bebia nesse horário, mas algo nele parecia… deslocado.
A conversa com a professora havia ficado presa em sua mente como um nó firme.
Havia muito tempo que ele não encontrava alguém que o desestabilizasse — nem inimigos, nem parceiros, nem rivais. Mas Elena Vasconcelos… ela possuía uma presença silenciosa, firme, estranhamente luminosa.
Ele lembrava do modo como ela ergueu o queixo ao falar com ele, mesmo sem perceber que o fazia. Da honestidade crua nos olhos. Da coragem quase inocente — ou perigosa — de falar com ele sem medo.
Não é medo, ele pensou.
Era cautela.
E em certos casos, isso era muito pior.
Lorenzo tocou o copo na mesa e respirou fundo.
Ele tinha compromissos. Tinha reuniões. Missões. Responsabilidades para com o nome Moretti.
E naquele mundo — o mundo real, não o mundo educado em que Elena vivia — sentimentos eram fraquezas, distrações, portas abertas no lugar errado.
Mas algo nele insistia em revisitá-la.
A expressão que ela fez ao ouvi-lo.
A forma como evitou olhar para ele depois que ficou nervosa.
A voz firme tentando disfarçar o receio.
“É só a professora da Isabella”, ele disse consigo mesmo.
Mas a frase soou fraca demais.
Lorenzo se levantou e caminhou até a janela.
Lá embaixo, a cidade ardia em luzes, motores e sombras.
Um mundo que Elena desconhecia — e que ele sabia que não merecia tocá-la.
Mesmo assim…
— Quero mais informações sobre a professora. — ordenou, quando seu assistente atendeu a ligação.
— Claro, senhor Moretti. O que exatamente deseja?
Lorenzo ficou em silêncio por alguns segundos.
— Tudo que for relevante. E nada que pareça invasivo demais.
Sua própria contradição o fez fechar os olhos.
Ele estava ultrapassando uma linha.
E sabia disso.
Mas já era tarde: a professora havia deixado algo nele que não deveria existir.
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ELENA
Duas horas depois, Elena recebeu uma mensagem de Isabella:
“Meu irmão foi até a escola? Ele falou com você?”
Elena sorriu, aliviada pela menina escrever de vez em quando para contar como estava. Digitou rapidamente:
“Sim. Ele só queria conversar sobre seu progresso. Nada demais.”
Mas ao enviar, sentiu um arrepio.
Estava mentindo.
Havia sido sim demais.
Quando ia guardar o celular, outra mensagem apareceu:
“Ele gostou de você.”
O coração de Elena disparou.
Ela respirou fundo e respondeu:
“Não seja boba. Ele só estava preocupado.”
Mas o que veio depois a fez congelar por inteiro:
“Lorenzo não fala desse jeito com ninguém.”
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LORENZO
Horas mais tarde, já em sua casa, Lorenzo olhava para a lareira apagada. O silêncio do ambiente contrastava com a inquietação dentro dele.
O telefone vibrou.
Era Isabella.
— Fale. — ele atendeu.
— Você assustou a minha professora?
Lorenzo franziu a testa.
— Não tive essa intenção.
— Então tome cuidado — a menina disse, com a sinceridade emocional de quem não teme o próprio irmão. — Ela é boa pra mim. E você tem um jeito… sabe como é.
Ele recostou-se no sofá, sentindo o golpe suave da verdade.
— Eu sei.
— Lorenzo… — Isabella hesitou. — Não estraga isso.
Ele fechou os olhos.
Tarde demais, pensou. Algo já começou.
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ELENA
À noite, antes de dormir, Elena se pegou olhando para a porta de casa, como se esperasse algo — alguém.
Mas não viria ninguém.
Ela era racional.
Era responsável.
Era cuidadosa.
E, acima de tudo, sabia muito bem que homens como Lorenzo Moretti não surgiam na vida de mulheres como ela sem um custo.
Ainda assim, ao deitar e fechar os olhos, a última imagem que viu não foi a sala de aula, nem sua rotina, nem os relatórios atrasados.
Foi o olhar dele.
E isso bastou para deixá-la inquieta até adormecer.
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LORENZO
Quando deitou, Lorenzo pensou que dormiria rápido. Estava exausto. Mas a imagem de Elena continuou ali — suave, firme, impossível de afastar.
E pela primeira vez em muitos anos, ele adormeceu não pensando em negócios, responsabilidades ou ameaças.
Mas na sensação estranha de que, de algum modo, a professora poderia mudar algo em sua vida.
Algo grande.
Algo que ele não estava pronto para admitir.