O Começo

Helena acordou devagar.

Não foi um despertar brusco, mas também não foi tranquilo. A consciência voltou em camadas — primeiro o peso do corpo, depois a sensação estranha de não reconhecer o lugar. O colchão era firme demais para ser o dela. O cheiro do ambiente não era familiar. Limpo, neutro… quase impessoal.

Abriu os olhos com cuidado.

O teto branco devolveu o olhar, liso, sem marcas. Piscou algumas vezes, tentando organizar os pensamentos. A cabeça doía num ponto específico, uma pressão incômoda atrás dos olhos, como se o corpo cobrasse o excesso da noite anterior.

Ela se mexeu lentamente e só então percebeu: estava vestida.

A constatação trouxe um alívio imediato, quase físico. A roupa não era a mesma da noite anterior, mas também não era nada íntimo — uma camiseta larga, confortável, e um cobertor leve cobrindo-lhe as pernas. Tudo organizado demais para ter sido fruto do acaso.

Sentou-se na cama com cuidado, apoiando os pés no chão frio.

O quarto era simples. Um hotel — percebeu pelo padrão dos móveis, pela cortina pesada, pela ausência de qualquer traço pessoal. Não havia luxo exagerado, mas tudo parecia escolhido com intenção. Um copo de água sobre a mesa de cabeceira, um comprimido ao lado. Um detalhe pequeno, mas que dizia mais do que palavras.

Helena levou a mão à testa.

Fragmentos da noite começaram a surgir, ainda desconexos: a música alta, o ar pesado, a sensação de falta de ar… e depois o braço sendo segurado com insistência. O medo. A voz firme que surgiu do nada. O apoio seguro antes de tudo escurecer.

Ela respirou fundo.

— Onde eu me meti… — murmurou para si mesma.

Levantou-se com cautela, caminhando até o banheiro. O reflexo no espelho mostrava um rosto pálido, olhos levemente inchados, mas nada além disso. Nenhum sinal de algo fora do lugar. Lavou o rosto, prendeu o cabelo num coque improvisado e voltou para o quarto com o coração um pouco mais calmo.

Foi então que ouviu vozes baixas do lado de fora.

Parou no meio do quarto.

O som vinha da sala adjacente — alguém falando ao telefone, num tom contido, quase profissional. Uma voz masculina. Grave. Controlada.

Helena sentiu o corpo enrijecer por um segundo.

Ele estava ali.

A porta que separava o quarto da pequena sala estava entreaberta. Ela hesitou. Não sabia se anunciava presença, se esperava, se fingia que ainda dormia. Um constrangimento estranho se instalou, misturado a uma gratidão silenciosa que ela ainda não sabia como expressar.

Antes que tomasse qualquer decisão, a voz cessou.

Passos se aproximaram.

Ele apareceu na porta com naturalidade, como se já esperasse encontrá-la acordada.

Parou ao vê-la de pé.

Helena levou um segundo a mais para reagir — não por medo, mas pela impressão imediata que ele causou.

Usava uma camisa escura, simples, ajustada ao corpo de forma discreta, as mangas dobradas até os antebraços. O cabelo estava arrumado sem rigidez, como alguém que não precisava se preocupar em parecer impecável. Havia nele uma postura firme, controlada, mas sem arrogância — a presença de quem ocupa espaço sem precisar impor.

O olhar encontrou o dela com atenção direta, sem invasão.

— Bom dia — disse, num tom baixo, sem surpresa. — Como você está?

Helena abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu de imediato. Havia algo desconcertante naquela situação: acordar em um quarto desconhecido, diante de um homem que ela não conhecia… e, ainda assim, não sentir medo.

— Um pouco tonta — respondeu por fim, com honestidade. — Mas… melhor.

Ele assentiu.

— Imagino. — Fez um gesto discreto em direção à água na mesa. — Deixei ali para você. E um analgésico, caso a cabeça incomode.

Ela seguiu o gesto com o olhar.

— Obrigada — disse, sentindo o rosto aquecer levemente. — Eu… sinto muito pelo transtorno.

Ele arqueou a sobrancelha, quase imperceptível.

— Não foi transtorno. — Houve uma pausa curta. — Você passou mal. Acontece.

O silêncio que se instalou não foi desconfortável, mas carregado de coisas não ditas. Helena cruzou os braços sem perceber, num gesto de autoproteção suave.

— Eu não lembro de muita coisa depois que saí do bar — confessou. — Só… flashes.

— Você desmaiou — ele disse, simples. — Eu te trouxe para um lugar tranquilo. Nada aconteceu além disso.

Ela soltou o ar devagar, como se estivesse segurando a respiração desde que acordara.

— Obrigada por isso — falou, finalmente encarando-o. — De verdade.

Ele sustentou o olhar por um instante a mais do que o necessário.

— Não precisa agradecer.

Havia algo na postura dele — firme, contida, quase distante — que deixava claro que aquele gesto não vinha de segundas intenções. Ainda assim, Helena sentiu o constrangimento se misturar a uma curiosidade silenciosa.

— Eu sou Helena — disse, quebrando o silêncio.

Ele assentiu de forma breve, respeitosa, como se guardasse aquela informação sem pressa.

— Quando se sentir melhor, posso te levar para casa. Ou chamar um carro. Como preferir.

A palavra casa soou estranha nos ouvidos dela. Ainda assim, assentiu.

— Só… me dá alguns minutos?

— Claro.

Ele saiu da sala, deixando-a novamente sozinha.

Helena sentou-se na beira da cama, segurando o copo de água com as duas mãos. O coração batia num ritmo estranho — não acelerado, não calmo. Apenas atento.

Ela não sabia quem ele era.

Não sabia por que ele estava ali.

Nem por que aquela presença, tão silenciosa quanto firme, parecia já ter marcado algo dentro dela.

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