Mundo de ficçãoIniciar sessão— Se esse casamento fosse por amor… eu choraria agora — disse Sofia. — Você está linda. Vitória sorriu de leve. O vestido era branco, de mangas longas em renda delicada, que cobria os braços com desenhos finos, quase etéreos. O decote em ilusão subia até o pescoço, bordado com detalhes que brilhavam discretamente sob a luz. A saia caía em linhas limpas, estruturada, abrindo-se com elegância até a cauda longa que deslizava pelo chão. Não havia exagero. Havia imponência. — Pode chorar — respondeu Vitória. — Eu também quero. Mas é por outro motivo. Sofia abraçou Vitória com cuidado, como quem segura algo valioso. — Eu vou estar ali. Se quiser fugir é só olhar para mim e piscar duas vezes.
Ler maisVitória aprendeu cedo que silêncio também é uma forma de obediência.
Sentada à mesa longa da sala de jantar, ela mantinha as mãos cruzadas sobre o colo enquanto o pai falava, como sempre, sem olhar diretamente para ela. O Sr. Alencar falava de números, contratos, alianças — palavras que nunca pareceram humanas, mas que, naquela noite, definiam o resto da vida dela.
— O casamento será anunciado em breve — ele disse, num tom calmo demais para algo tão definitivo. — Em oito meses tudo estará oficializado.
Oito meses.
Vitória repetiu o número em silêncio, como se isso pudesse torná-lo menor.
A mãe permanecia ao lado do marido, elegante, distante, como uma estátua bem-posicionada. Quando Vitória a olhou, buscando qualquer sinal de dúvida, encontrou apenas indiferença.
— É o melhor para todos — disse a Sra. Alencar, ajeitando a taça de vinho. — Amor nunca foi requisito para um casamento bem-sucedido.
Vitória engoliu seco.
Ela já conhecia aquela lição. Cresceu ouvindo que amor era instável, frágil demais para sustentar qualquer coisa importante. Pessoas sensíveis demais quebram. E os Alencar não quebram.
— Eu sei — respondeu, finalmente, com a voz firme o suficiente para não demonstrar o incômodo que queimava por dentro.
O pai assentiu, satisfeito. Vitória sempre soube agradar.
O nome dele não foi dito naquela noite, mas não era necessário. Rafael Herculano fazia parte da vida dela desde sempre, mesmo sem nunca ter sido, de fato, parte de nada. Um rosto conhecido em eventos formais, reuniões familiares forçadas, encontros planejados demais para parecerem reais.
Eles nunca se deram bem. Nunca fingiram que se davam. E, ainda assim, estavam destinados um ao outro.
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Do outro lado da cidade, Rafael observava a mesma cena com um olhar completamente diferente.
A sala de estar da família Herculano era menor, menos ostentosa, mas carregava o mesmo peso de tradição. Seu pai falava com convicção, como alguém que jamais foi contrariado.
— Esse casamento mantém o grupo estável — dizia. — É o que seus avós iriam querer.
Rafael concordou com a cabeça, sem discutir. Nunca viu motivo para discutir. Desde criança, aprendeu que algumas decisões simplesmente não pertencem a você.
— O anúncio será feito em breve — continuou o Sr. Herculano. — Até lá, quero que você mantenha uma postura adequada. A imprensa vai observar cada passo.
Postura. Sempre postura.
Rafael não pensava em Vitória como uma mulher, muito menos como futura esposa. Para ele, ela era parte do acordo — como cláusulas pequenas no fim de um contrato que ninguém realmente lê.
— Oito meses — disse, mais para si mesmo do que para o pai.
— Tempo suficiente — respondeu o homem. — Você vai se acostumar.
Rafael já estava acostumado a coisas que nunca escolheu.
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O primeiro encontro após a decisão oficial aconteceu em um café sofisticado, escolhido a dedo pelas famílias. Neutro. Seguro. Controlável.
Vitória chegou primeiro. Estava impecável, como sempre. Não porque quisesse, mas porque sabia que qualquer falha seria usada contra ela. Quando Rafael entrou, ela ergueu o olhar apenas o suficiente para reconhecê-lo — e desviou logo em seguida.
— Oito meses — ele disse, sentando-se à frente dela, sem rodeios.
— Não precisa repetir — respondeu Vitória. — Eu sei contar.
O clima entre eles era denso, carregado de coisas não ditas. Nenhum dos dois estava ali por vontade própria, e ambos sabiam disso.
— Nossos pais acham que isso vai nos aproximar — Rafael comentou, com um meio sorriso irônico.
— Eles sempre acham muitas coisas — Vitória respondeu. — Quase nunca estão certos.
Por um instante, houve silêncio. Um silêncio desconfortável, mas honesto.
— Vamos ser claros — disse ele. — Isso é um acordo. Nada além disso.
Vitória finalmente o encarou.
— Concordo. Eu não espero nada de você.
Vitória sustentou o olhar por alguns segundos, sem suavizar a expressão.
— Não espero nada de você — repetiu.
Rafael assentiu, como se aquilo fosse um alívio.
— Ótimo. Assim evitamos problemas.
Eles ficaram em silêncio, observando o movimento ao redor do café, como estranhos sentados à mesma mesa. Nenhum dos dois sorriu. Nenhum dos dois recuou.
Seus destinos estavam assinados em um papel que eles nunca viram.
Oito meses.
Tempo suficiente para cumprir um acordo.
Tempo insuficiente para mudar quem eles eram.E, se dependesse deles, aquele casamento seria apenas mais um negócio bem-sucedido —
sem sentimentos, sem promessas e sem espaço para erros.Vitória respirou fundo assim que conseguiu alguns minutos sozinha. Simon, Carlos e Renan tinham ido buscar bebidas, enquanto Helena, Sienna e Filipe organizavam algumas cadeiras e toalhas na areia para que todos pudessem ficar mais confortáveis. Aproveitando a distração dos outros, ela caminhou devagar pelo píer, sentindo o vento frio bater em seu rosto. Por alguns instantes, permitiu-se apenas observar o mar. O som das ondas quebrando contra as estruturas de madeira era muito mais agradável do que qualquer gravação, relatório ou discussão que tinha ocupado seus últimos dias. Ela fechou os olhos e inspirou profundamente, deixando o ar gelado preencher os pulmões antes de soltá-lo devagar, como se pudesse expulsar junto toda a confusão que carregava dentro de si. — Está melhor? A voz veio atrás dela. Vitória nem precisou se virar para saber quem era. — Você não me deu nem dez minutos de descanso. — Não vou pedir desculpas. Você sabe que eu me preocupo. Vitória finalmente olhou
— Ei, como você está? Sofia perguntou assim que entrou no quarto das crianças, onde Vitória estava sentada na poltrona, amamentando Avelin e Rael ao mesmo tempo, enquanto Vitório dormia profundamente no berço ao lado. — Estou bem. Só vim ficar um pouco com eles. A resposta saiu baixa, cansada. Sofia percebeu, mas não comentou de imediato. Apenas se aproximou com cuidado e olhou para Avelin, que já parecia quase dormindo no colo da mãe. — Deixa que eu a coloco no berço. Vitória assentiu e abriu espaço no braço para que Sofia pegasse a menina. Avelin resmungou baixo, mas logo se acomodou contra ela, sonolenta demais para reclamar. Enquanto Sofia a colocava no berço e ajeitava a coberta sobre seu corpo pequeno, Vitória continuou com Rael no colo, observando o rosto do filho como se aquilo fosse a única coisa capaz de mantê-la presa ao presente. — Você quer conversar? — perguntou Sofia, virando-se para ela. — Mas, se quiser ficar sozinha, tudo bem. Eu desço. Vitória não respondeu.
— Como ele saberia o nome da mamãe? A pergunta de Filipe fez o silêncio voltar à sala. Helena continuava olhando para a folha à sua frente, como se ainda tentasse encontrar alguma resposta escondida entre aquelas letras. — Eu não sei. Isso só ele pode responder. — respondeu Helena sem tirar os olhos da folha à sua frente. Filipe passou as mãos pelo rosto e afundou no sofá, exausto. — Cara, isso está me deixando maluco. Eu jurava que essas coisas só aconteciam em novela. Ninguém respondeu. Porque, no fundo, todos estavam pensando a mesma coisa. Nada daquilo fazia sentido. Durante esse último ano Rafael Gomes tinha sido apenas um problema. Um homem criado por Leonardo. Mas, quanto mais descobriam sobre Rafael Gomes, mais ficava evidente que ainda não entendiam o verdadeiro objetivo de Leonardo. Helena soltou uma respiração pesada, se levantando. — Eu vou conversar com ele. Ela tentou pegar a folha que estava sobre a mesa, mas Carlos foi mais rápido e a segurou antes que Hel
— Esses nomes não aparecem tantas vezes assim. Helena esfregou os olhos cansados antes de empurrar alguns relatórios para o centro da mesa. — Reli e Lipa são os que chamaram nossa atenção porque aparecem juntos naquela música, mas ele não repete nenhum deles mais do que cinco ou seis vezes direto. Ela folheou mais algumas páginas. — Na verdade, existem outros nomes que aparecem a mesma quantidade de vezes. O comentário arrancou alguns suspiros frustrados ao redor da sala. Depois de mais de três dias voltando aos mesmos vídeos, relatórios e gravações, a sensação era de que tinham retornado ao ponto de partida. Mesmo com a ajuda de Carlos, Renan e Filipe, continuavam sem encontrar nada que realmente explicasse algo sobre Rafael Gomes. — Tem um que aparece muito mais. A voz de Filipe interrompeu o silêncio. Ele se inclinou sobre a mesa e colocou uma folha diante das outras. — Nelis. Vitória ergueu os olhos. — O quê? — Esse nome aparece vinte e cinco vezes. A observação cha










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