Mundo ficciónIniciar sesiónVitória Alencar, 20 anos, foi criada para obedecer — nunca para amar. Filha de um homem frio que acredita que dinheiro resolve tudo, ela aceita um casamento de fachada com Rafael Herculano, herdeiro de um dos maiores grupos empresariais do país. O acordo entre as famílias foi feito antes mesmo do nascimento dos dois. Amor nunca esteve nos planos. Rafael também não acredita em contos de fadas. Para ele, sentimentos são irrelevantes quando o objetivo é manter a família satisfeita. O problema é que, quanto mais tentam fingir indiferença, mais o ódio entre eles cresce. Com apenas oito meses até o casamento, Vitória e Rafael terão que decidir se vão cumprir o destino que lhes foi imposto… ou se terão coragem de quebrar o acordo que controla suas vidas.
Leer másVitória aprendeu cedo que silêncio também é uma forma de obediência.
Sentada à mesa longa da sala de jantar, ela mantinha as mãos cruzadas sobre o colo enquanto o pai falava, como sempre, sem olhar diretamente para ela. O Sr. Alencar falava de números, contratos, alianças — palavras que nunca pareceram humanas, mas que, naquela noite, definiam o resto da vida dela.
— O casamento será anunciado em breve — ele disse, num tom calmo demais para algo tão definitivo. — Em oito meses tudo estará oficializado.
Oito meses.
Vitória repetiu o número em silêncio, como se isso pudesse torná-lo menor.
A mãe permanecia ao lado do marido, elegante, distante, como uma estátua bem-posicionada. Quando Vitória a olhou, buscando qualquer sinal de dúvida, encontrou apenas indiferença.
— É o melhor para todos — disse a Sra. Alencar, ajeitando a taça de vinho. — Amor nunca foi requisito para um casamento bem-sucedido.
Vitória engoliu seco.
Ela já conhecia aquela lição. Cresceu ouvindo que amor era instável, frágil demais para sustentar qualquer coisa importante. Pessoas sensíveis demais quebram. E os Alencar não quebram.
— Eu sei — respondeu, finalmente, com a voz firme o suficiente para não demonstrar o incômodo que queimava por dentro.
O pai assentiu, satisfeito. Vitória sempre soube agradar.
O nome dele não foi dito naquela noite, mas não era necessário. Rafael Herculano fazia parte da vida dela desde sempre, mesmo sem nunca ter sido, de fato, parte de nada. Um rosto conhecido em eventos formais, reuniões familiares forçadas, encontros planejados demais para parecerem reais.
Eles nunca se deram bem. Nunca fingiram que se davam. E, ainda assim, estavam destinados um ao outro.
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Do outro lado da cidade, Rafael observava a mesma cena com um olhar completamente diferente.
A sala de estar da família Herculano era menor, menos ostentosa, mas carregava o mesmo peso de tradição. Seu pai falava com convicção, como alguém que jamais foi contrariado.
— Esse casamento mantém o grupo estável — dizia. — É o que seus avós iriam querer.
Rafael concordou com a cabeça, sem discutir. Nunca viu motivo para discutir. Desde criança, aprendeu que algumas decisões simplesmente não pertencem a você.
— O anúncio será feito em breve — continuou o Sr. Herculano. — Até lá, quero que você mantenha uma postura adequada. A imprensa vai observar cada passo.
Postura. Sempre postura.
Rafael não pensava em Vitória como uma mulher, muito menos como futura esposa. Para ele, ela era parte do acordo — como cláusulas pequenas no fim de um contrato que ninguém realmente lê.
— Oito meses — disse, mais para si mesmo do que para o pai.
— Tempo suficiente — respondeu o homem. — Você vai se acostumar.
Rafael já estava acostumado a coisas que nunca escolheu.
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O primeiro encontro após a decisão oficial aconteceu em um café sofisticado, escolhido a dedo pelas famílias. Neutro. Seguro. Controlável.
Vitória chegou primeiro. Estava impecável, como sempre. Não porque quisesse, mas porque sabia que qualquer falha seria usada contra ela. Quando Rafael entrou, ela ergueu o olhar apenas o suficiente para reconhecê-lo — e desviou logo em seguida.
— Oito meses — ele disse, sentando-se à frente dela, sem rodeios.
— Não precisa repetir — respondeu Vitória. — Eu sei contar.
O clima entre eles era denso, carregado de coisas não ditas. Nenhum dos dois estava ali por vontade própria, e ambos sabiam disso.
— Nossos pais acham que isso vai nos aproximar — Rafael comentou, com um meio sorriso irônico.
— Eles sempre acham muitas coisas — Vitória respondeu. — Quase nunca estão certos.
Por um instante, houve silêncio. Um silêncio desconfortável, mas honesto.
— Vamos ser claros — disse ele. — Isso é um acordo. Nada além disso.
Vitória finalmente o encarou.
— Concordo. Eu não espero nada de você.
Vitória sustentou o olhar por alguns segundos, sem suavizar a expressão.
— Não espero nada de você — repetiu.
Rafael assentiu, como se aquilo fosse um alívio.
— Ótimo. Assim evitamos problemas.
Eles ficaram em silêncio, observando o movimento ao redor do café, como estranhos sentados à mesma mesa. Nenhum dos dois sorriu. Nenhum dos dois recuou.
Seus destinos estavam assinados em um papel que eles nunca viram.
Oito meses.
Tempo suficiente para cumprir um acordo.
Tempo insuficiente para mudar quem eles eram.E, se dependesse deles, aquele casamento seria apenas mais um negócio bem-sucedido —
sem sentimentos, sem promessas e sem espaço para erros.Vitória pousou a xícara de volta na mesa com cuidado. O café já esfriava, mas ela não comentou. — Eu não sei por onde começar — disse, enfim. Rafael cruzou os braços sobre o peito e encostou mais na cadeira, como se estivesse relaxado. Não estava. — Vai no seu tempo. — Ele a observou com atenção. — Me diz só o que você não aguenta mais. Ela demorou a responder. Olhou para a janela, para a luz entrando sem pedir licença. Depois voltou o olhar para ele, viu sinceridade no olhar de Rafael.— Não aguento mais decidirem por mim — disse. — Falarem por mim. Fingirem que eu concordo só porque fico em silêncio. Rafael assentiu uma única vez. — Isso não vai mais acontecer. — Você não pode prometer isso — ela respondeu, sem dureza. — Não depende só de você. — Eu sei. — A voz dele não mudou. — Mas o que depender de mim, eu vou fazer acontecer. Vitória respirou fundo. Sentiu o peso da conversa se instalar, mas não recuou. — Eu não quero um casamento que seja só aparência — continuou. — N
O carro seguiu em silêncio. Vitória manteve as mãos apoiadas sobre a bolsa no colo, o corpo rígido demais para parecer confortável. Observava as luzes passando do lado de fora sem realmente vê-las. A cidade parecia atravessada à distância, como se estivesse em um território provisório. Rafael dirigia com atenção excessiva. As duas mãos firmes no volante, o olhar fixo à frente. Não perguntou nada. Não tentou preencher o espaço. A raiva de antes havia se recolhido para algum lugar interno, controlado, mas ainda presente. Entraram em um condomínio discreto. Nada chamativo. Nada que denunciasse poder ou ostentação. Apenas concreto, linhas retas e uma portaria silenciosa. Rafael desligou o carro, saiu primeiro e pegou a mala no porta-malas. Vitória o acompanhou. O apartamento era organizado demais para parecer vivido. Tudo estava no lugar. Nenhum excesso. Nenhuma tentativa de conforto artificial. Rafael deixou a mala próxima ao sofá. — Você pode ficar no quarto principal — disse, po
Vitória saiu de casa no fim da tarde. Não avisou ninguém. Não pediu permissão. Apenas deixou um recado vago com a avó e fechou a porta atrás de si. O som da fechadura ecoou como um corte seco, definitivo. O trajeto até o local do encontro foi silencioso. Não colocou música. Não quis distrações. O coração batia compassado, pesado, como se cada batida fosse um lembrete da decisão que precisava tomar. Escolhera um lugar neutro. Não a cafeteria da última vez, não a empresa, não a casa de ninguém. Um espaço discreto, onde ninguém esperava nada além de uma conversa comum. Rafael já estava lá quando ela chegou. Sentado de frente para a janela, postura impecável, o celular sobre a mesa. Ao vê-la, levantou-se por reflexo. Mas o gesto congelou no meio quando seus olhos encontraram o rosto dela. O silêncio entre os dois se estendeu por um segundo a mais do que o normal. Ele não perguntou nada, apenas caminhou até Vitória com o olhar sério. Não disse nada. Somente segurou sua mão e a conduziu
Vitória acordou antes do horário habitual.Foi direto ao banheiro, ainda com o corpo lento, como se cada movimento precisasse ser autorizado. Acendeu a luz e encarou o espelho sem desviar. Os hematomas estavam ali: um tom arroxeado que começava a escurecer sob o olho, outro mais discreto no contorno do maxilar.Ela observou por alguns segundos, em silêncio.Não tentou suavizar. Não pensou em esconder.Tomou banho com calma, deixando a água quente cair sobre os ombros, como se precisasse sentir algo estável. Vestiu-se sem pressa, escolheu roupas comuns, o cabelo solto, o rosto limpo. Desceu para o café da manhã como fazia todos os dias.A mesa já estava posta.A mãe estava sentada, ereta, o rosto igualmente limpo. Nenhuma maquiagem. Nenhuma tentativa de apagar o que o marido havia deixado nela. Era um gesto silencioso, mas definitivo. Os avós estavam ali também. A avó mexia no café sem beber. O avô mantinha os olhos baixos, incapaz de sustentar o olhar da neta por muito tempo.Ninguém
O comentário veio durante o jantar, dito como quem apenas constata um incômodo. — O Rafael anda quieto demais — observou o pai, cortando a comida com precisão excessiva. — Tento marcar algo, alinhar detalhes, e ele sempre está ocupado. Não é postura de quem vai assumir um compromisso desse tamanho. A frase ficou suspensa por alguns segundos, pesada demais para ser apenas conversa de mesa. Vitória continuou comendo, mas sentiu o corpo reagir antes da mente. Aquela vigilância constante sobre o comportamento de Rafael — como se cada silêncio precisasse ser corrigido — a cansava mais do que admitia. — Talvez seja melhor assim — respondeu, sem pensar muito. — Ele pediu um tempo. Não vejo problema nisso. O garfo do pai parou no meio do movimento. — Melhor para quem? — perguntou, sem elevar a voz, sério demais para ser casual. Vitória ergueu o olhar, já arrependida de ter falado, mas não disposta a recuar. — Para todo mundo. Nem tudo precisa ser resolvido à força. Dê a ele o tempo qu
Os dias seguintes passaram sem novidades. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nenhum intermediário. Rafael manteve o silêncio que pedira, e Vitória percebeu isso rápido demais para se enganar. O tempo, para ele, não era ausência — era método. Ela seguiu a rotina da casa com uma atenção diferente. Não mais automática, não mais dispersa. Observava os horários, os movimentos, as conversas interrompidas quando ela se aproximava. Nada havia mudado de forma explícita, mas havia um cuidado novo no ar — como se todos soubessem que algo estava em suspensão. Vitória também sabia. E decidiu não preencher o vazio. Não falou sobre a conversa com ninguém. Não comentou o pedido de tempo. Não pediu opinião. Aquilo não era segredo; era contenção. Pela primeira vez, não sentiu necessidade de validar o que estava vivendo através de outra pessoa. Usava o tempo como ele: organizando. Passou a sair menos dos espaços comuns. Não por fuga, mas por escolha. Lia mais. Caminhava pelo jardim em horários im
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