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Não Quero Misturar As Coisas

Helena largou a bolsa sobre o sofá e só então percebeu o silêncio estranho do apartamento. Foi instintivo pegar o celular para checar as horas — a tela permaneceu preta.

Descarregado.

Ela soltou um suspiro curto e conectou o aparelho ao carregador na tomada da sala. O visor acendeu lentamente, como se também despertasse com dificuldade. Notificações começaram a surgir em cascata, mas, antes que pudesse ler qualquer coisa, ouviu passos no corredor.

— Helena?

A voz veio baixa, sonolenta.

Lia apareceu à porta do quarto, os cabelos presos de qualquer jeito, vestindo uma camiseta larga, os olhos ainda pesados de sono.

— Onde você se meteu? — perguntou, mais preocupada do que brava. — Acordei agora e vi sua mensagem só dizendo que tinha chegado em casa… você sumiu ontem.

Helena apoiou a mão no encosto do sofá, sentindo o peso do corpo finalmente cobrar a noite mal dormida.

— Meu celular morreu — respondeu. — Eu cheguei agora há pouco.

Lia se aproximou devagar, estudando o rosto da amiga como quem confere se está tudo inteiro.

— Você tá bem?

Helena assentiu, mas demorou um segundo a mais do que o normal.

— Graças a Deus. Você sumiu ontem, Helena. Me assustou.

Ela fechou os olhos por um instante, apoiando o quadril na pia.

— Eu sei… desculpa. Foi tudo meio confuso.

Não demorou para Lia se aproximar de novo. Bateu à porta da sala como se estivesse atrasada para algo importante — e talvez estivesse, para aquela conversa.

Sentaram-se no sofá, lado a lado. Helena contou tudo sem rodeios, mas também sem dramatizar: o bar, o mal-estar, o momento em que tentou sair, o braço sendo segurado com insistência.

— Paulo? — Lia interrompeu, indignada. — Aquele idiota?

Helena assentiu.

— Ele tentou me segurar. Disse que eu precisava “relaxar”. — A voz saiu firme, mas havia algo contido ali. — Eu fiquei com medo, Lê. De verdade.

Lia se endireitou no sofá.

— Esse cara ainda vai se ver comigo. Eu juro. Quem ele pensa que é?

Helena tocou o braço da amiga, pedindo calma.

— Não aconteceu nada além disso. — Respirou fundo. — Um cara interveio. Me ajudou. Eu passei mal logo depois… acordei hoje num hotel. Vestida. Tudo certo.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não desconfortável.

— Você ficou bem? — Lia perguntou, agora mais baixa.

— Fiquei — Helena assentiu. — Ele foi… correto. Me deixou segura. Só isso.

Lia observou o rosto da amiga por alguns segundos, como quem procura rachaduras invisíveis.

— Ainda bem — murmurou. — Ainda bem mesmo.

Helena encostou a cabeça no encosto do sofá, sentindo o corpo finalmente ceder.

— Eu só quero esquecer essa parte ruim — disse. — Seguir.

— E vai — Lia garantiu. — Você é mais forte do que pensa.

— Vou fazer um café — Lia murmurou. — Você vai se sentir melhor depois de um cafezinho.

Helena concordou em silêncio.

Enquanto a cafeteira começava a chiar na cozinha, ela olhou para o celular carregando sobre a bancada. A noite anterior parecia distante agora, como algo vivido em outra vida.

Lia voltou da cozinha com duas canecas nas mãos. O cheiro forte do café preenchia o apartamento como um abraço conhecido. Entregou uma a Helena e sentou-se ao lado dela novamente.

— Bebe devagar — disse. — Você ainda tá pálida.

Helena envolveu a caneca com as duas mãos, sentindo o calor subir pelos dedos.

— Eu preciso descansar hoje — falou, mais para si do que para a amiga. — Segunda-feira tenho a entrevista.

Lia arqueou as sobrancelhas.

— A da casa grande?

Helena assentiu.

— A mesma. Não posso ir daquele jeito… — fez um gesto vago com a mão. — Preciso estar inteira. Atenta. É uma boa oportunidade.

— Vai dar certo — Lia respondeu sem hesitar. — Você sempre se sai bem quando mais precisa.

Helena soprou o café antes de dar o primeiro gole.

— Eu só não quero levar o que aconteceu ontem pra lá — confessou. — Não quero misturar as coisas. Foi uma noite estranha. Só isso.

— Então não mistura — Lia disse, simples. — Fecha essa porta. Segunda é outro dia.

Helena apoiou a cabeça no encosto do sofá, os olhos fechando por um instante mais longo do que pretendia. O corpo começava a pedir descanso de verdade, não apenas uma pausa.

— Vou dormir um pouco — murmurou. — Depois organizo os documentos da entrevista, sem falar que tenho que estudar para as provas.

— Faz isso — Lia concordou. — Eu acordo você mais tarde.

Helena se levantou devagar, levando a caneca vazia até a pia. Antes de seguir para o quarto, lançou um último olhar para o celular carregando sobre a bancada. Nenhuma mensagem aberta. Nenhuma lembrança puxada à força.

Ainda não.

Entrou no quarto e fechou a porta atrás de si com cuidado. Ao se deitar, sentiu o peso de tudo o que tinha acontecido finalmente se acomodar no corpo — não como ameaça, mas como um aviso silencioso.

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