Mundo de ficçãoIniciar sessão
A música vibrava pelo bar como um pulso vivo, uma batida grave que parecia sincronizar todos os corpos presentes. Luzes baixas em tons de âmbar e neon recortavam o ambiente, refletindo em copos suados, mesas ocupadas demais e rostos marcados pela euforia de uma sexta-feira sem responsabilidades imediatas.
Helena dançava com Lia no centro da pista. Os braços erguidos acompanhavam o ritmo enquanto o calor grudava sua roupa à pele. O cabelo preso já não dava conta dos fios soltos que colavam na nuca, mas ela não se importava. Pela primeira vez em semanas, sua mente estava em silêncio. Não pensava nos prazos acumulados, nas contas vencendo ou nas decisões que vinha adiando. Tudo parecia suspenso, como se o mundo tivesse encolhido até caber apenas naquele espaço entre uma batida e outra. — Você precisava disso! — Lia gritou, rindo, girando perto dela. Helena sorriu de volta. Um sorriso verdadeiro. Daqueles que não se ensaiam. Mas o alívio durou pouco. Aos poucos, algo começou a mudar. O ar ficou pesado demais, quase espesso. O cheiro doce de bebida misturado ao suor e ao calor humano começou a incomodar. A pista parecia mais cheia, mais apertada. Helena respirou fundo, tentando ignorar a tontura súbita, mas o desconforto cresceu rápido demais. O sorriso desapareceu. — Lê? — Lia percebeu imediatamente. — Tá tudo bem? — Acho que não… — Helena respondeu, levando a mão ao peito. — Vou tomar um ar. Tá muito abafado aqui. Ela não esperou resposta. Saiu da pista devagar, abrindo caminho entre corpos que se moviam sem notar sua urgência. Cada passo exigia esforço. O som da música começou a se transformar em um zumbido distante. A saída estava logo ali. Quase sentiu o alívio da porta aberta quando uma mão segurou seu braço. — Ei… vai embora assim? Helena se virou, forçando o foco. Paulo. Reconheceu vagamente o rosto. Alguém que tinha se aproximado mais cedo, falado demais, rido alto demais, invadido espaços sem ser convidado. — Não estou me sentindo bem — disse, com firmeza. — Preciso ir. Tentou se soltar, mas ele não recuou. — Ah, para com isso — ele riu, aproximando-se mais. — É só uma fase. Mais um drink resolve. Helena deu um passo para trás, sentindo as costas quase encostarem na parede lateral do corredor. — Eu disse que não. Solta meu braço. A mão dele apertou um pouco mais. Não foi agressivo o suficiente para chamar atenção, mas foi o bastante para disparar o alerta em seu corpo. O coração acelerou. A respiração ficou curta. A sensação de perda de controle voltou com força. — Paulo, solta — repetiu, agora com a voz trêmula. Ele parecia se divertir com a resistência. — Calma… só quero conversar. Foi então que tudo parou. — Ela disse pra soltar. A voz surgiu firme, baixa, sem necessidade de elevar o tom. Não havia ameaça explícita, apenas certeza. Uma autoridade que não pedia permissão. Paulo soltou o braço de Helena imediatamente. — Eu… a gente só tava conversando — murmurou, já recuando. Não esperou resposta. Desapareceu de volta na multidão. Helena piscou algumas vezes, tentando recuperar o equilíbrio. O ar frio da rua entrou pela porta aberta, tocando seu rosto como um choque de realidade. — Tá tudo bem? — a voz perguntou novamente, agora mais próxima. Ela tentou responder, mas o chão pareceu se mover sob seus pés. A visão escureceu nas bordas. O som do bar virou um eco distante. O corpo cedeu. Mas ela não caiu. Braços firmes a seguraram antes que tocasse o chão. Um apoio sólido, seguro, que a manteve de pé quando tudo dentro dela parecia falhar. — Ei… calma — disse a mesma voz, agora mais baixa, próxima demais para ser ignorada. — Respira comigo. Devagar. Helena sentiu a mão segura em suas costas, sustentando seu peso. O calor ali não sufocava. Acalmava. — Vou te levar pra sentar lá fora — ele continuou. — Tá tudo bem agora. Ela assentiu, sem forças para discutir. Confiava — sem saber por quê. Enquanto era conduzida para fora, o bar foi ficando para trás como uma lembrança distorcida. A música virou um ruído abafado, sem forma, dissolvendo-se aos poucos. O ar da noite tocou seu rosto, frio o bastante para fazê-la respirar melhor. Helena tentou se apoiar no chão sob os pés, mas a sensação era instável, como se tudo estivesse ligeiramente fora do lugar. O corpo respondeu antes do pensamento — os sons ficaram distantes, as luzes se alongaram, e o peso do cansaço desceu de uma vez. Ela fechou os olhos por um instante.






