Ricardo
O almoço deveria ser simples, uma formalidade necessária para manter as aparências de uma família que ainda funciona. Mas, nesta casa, nada é simples; tudo é carregado de subtextos e silêncios que pesam mais do que as palavras ditas.
A carne está no ponto exato que Vitor gosta — selada por fora, rosada e suculenta por dentro. O arroz, solto demais para o meu paladar que prefere a consistência, brilha sob a luz do lustre de cristal. A salada foi preparada com um cuidado que beira o excessivo, cada folha de rúcula e cada fatia de tomate dispostas como se fizessem parte de uma obra de arte efêmera. É como se Natália ainda acreditasse, com uma esperança que me dói, que a atenção se mede no detalhe, que o amor pode ser reconstruído através da perfeição de uma mesa posta.
Tudo está no lugar. Tudo está correto. E é exatamente essa correção impecável que mais me incomoda. É a prova de que estamos encenando uma peça onde os atores já esqueceram o roteiro original.
Natália se move pela