Vitor
Ricardo está enterrado em seu escritório quando eu chego. A secretária, uma mulher de eficiência gélida que parece ter sido moldada à imagem e semelhança do chefe, apenas me anuncia com um aceno de cabeça discreto. Aqui dentro, naquele santuário de vidro, aço e decisões multimilionárias, eu não sou uma visita. Eu sou parte da estrutura, o irmão mais novo que compartilha o sangue, mas que há muito tempo deixa de compartilhar a alma com o homem sentado atrás daquela mesa de carvalho maciço.
Ele não levanta o olhar de imediato. Está distraído — não concentrado — em uma pilha de documentos, a expressão fechada em uma máscara de contenção absoluta. É a imagem clássica do poder: Ricardo resolve números e destinos humanos com a mesma frieza cirúrgica. O ar-condicionado trabalha em um murmúrio constante, mantendo a temperatura em um nível que beira o desconfortável, como se o calor das emoções não fosse permitido naquele recinto.
— Entra, Vitor — ele diz, sem desviar os olhos do papel.