Mundo ficciónIniciar sesiónAnya cresceu acreditando que conhecia o próprio destino - até descobrir que o destino tinha outros planos para ela. Planos selados antes mesmo de seu nascimento. Planos que envolvem dois irmãos... e um reino inteiro. Arrastada para um casamento que nunca escolheu, Anya se vê presa entre dever e desejo, tradição e liberdade, passado e futuro - enquanto tenta sobreviver à corte, às intrigas e aos sentimentos que jurou nunca permitir. Mas quanto mais tenta escapar, mais o destino a empurra para o centro de uma história escrita muito antes dela. Uma história de amor, poder... e segredos que ninguém ousa dizer em voz alta. Entre um príncipe marcado pela guerra e outro marcado pelo passado, entre o que o coração pede e o que a lei exige, Anya precisará descobrir quem ela realmente é - e o que está disposta a enfrentar por isso. Porque, na luta contra o Norte, nada é simples. E nenhum coração sai ileso das mãos das leis que regem os reinos que se mantiveram de pé. ⚠️ AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL Este livro aborda temas sensíveis, incluindo tentativa de suicídio, além de sofrimento emocional intenso, luto e conflitos psicológicos decorrentes de situações extremas. Esses temas fazem parte da narrativa e são tratados com seriedade, dentro do contexto da história, sem qualquer intenção de romantização ou incentivo. A autora não compactua com esse tipo de atitude e reforça que a vida tem valor, mesmo em momentos de dor profunda. Se você estiver passando por um período difícil ou se sentir emocionalmente abalado(a), considere buscar ajuda profissional ou conversar com alguém de confiança. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site www.cvv.org.br. Cuide de si. Sua vida importa.
Leer másO Fim da Era Moderna.
Há mais de dois séculos, o mundo era algo completamente diferente do que conhecemos hoje. Houve um tempo em que o céu era cortado por máquinas capazes de voar, grandes pássaros de metal que cruzavam continentes com facilidade quase arrogante. O solo vibrava sob veículos que percorriam distâncias imensas em poucos minutos, como se o próprio tempo se curvasse diante da tecnologia humana. As cidades brilhavam noite e dia, tomadas por luzes incessantes que transformavam a escuridão em mero detalhe, e o som dos motores substituía o silêncio de forma tão constante que poucas pessoas lembravam como era viver sem ele.
Homens, mulheres e crianças caminhavam segurando pequenos dispositivos que lhes permitiam falar com qualquer pessoa no planeta, ver rostos distantes, descobrir informações em segundos. Era como se o mundo coubesse dentro das mãos de cada um.
Essa era considerada a época do conforto, da tecnologia, do progresso — o auge da humanidade.
Até que o Norte se ergueu.
O início da guerra foi abrupto, tão inesperado que muitos acreditaram que seria apenas mais uma disputa passageira entre nações poderosas. Mas rapidamente ficou claro que aquilo não seria contido com diplomacia ou acordos frágeis. Uma crise global de recursos iniciou um conflito sem precedentes. O combustível, antes abundante, tornou-se escasso e valioso demais. E as nações do Norte, temendo perder o domínio sobre a energia que sustentava o planeta, decidiram que tomariam o que quisessem à força.
No começo, os combates eram travados com todo o poder do arsenal moderno. Tanques avançavam como criaturas blindadas; aviões rasgavam o ar, lançando destruição de cima; drones sobrevoavam as cidades como sombras silenciosas, espalhando caos com precisão mecânica. Mísseis recortavam o céu em trajetórias luminosas que terminavam em explosões devastadoras. A fumaça negra das batalhas tomou o horizonte, transformando dias em crepúsculos permanentes. O cheiro de pólvora e metal queimado tornou-se o perfume amargo daquela era.
A guerra durou anos. Civis foram engolidos pela destruição. Países caíram, um após o outro, incapazes de suportar o avanço implacável do Norte. Cada vitória deixava as nações nortistas ainda mais famintas. Parecia que, a cada território conquistado, mais crescia o desejo de dominação — um ciclo que jamais terminava.
No quinquagésimo ano de conflito, quando praticamente não havia mais esperança, surgiu um último plano. As principais nações do Sul, unidas ao Leste e ao Centro, tomaram uma decisão desesperada: sabotar as principais refinarias de combustível e centrais elétricas do planeta. Acreditavam que cortar o suprimento de energia enfraqueceria o Norte de forma definitiva.
O plano funcionou.
Mas seu impacto foi devastador demais.
Quando as refinarias pararam e as usinas cessaram, não foram apenas soldados que ficaram sem energia. O mundo inteiro mergulhou num silêncio mortal. Máquinas essenciais deixaram de funcionar. Sistemas colapsaram. Comunicações se apagaram. Veículos tornaram-se blocos inúteis abandonados nas estradas. Cidades inteiras ficaram às escuras, transformando metrópoles vibrantes em silhuetas fantasmagóricas.
Em poucos meses, a civilização moderna perdeu tudo que lhe dava forma.
Sem energia, sem comunicações, sem meios de transporte, a humanidade precisou renascer em meio ao caos. E o renascimento não foi gentil. Terras antes férteis se tornaram improdutivas, exigindo novas formas de cultivo. Famílias deixaram apartamentos altos e buscaram vilas menores, onde ainda era possível sobreviver.
O mundo regrediu séculos — não por escolha, mas por necessidade.
Cavalos e carroças voltaram a ocupar o lugar dos automóveis e trens. Navios a vela e remo substituíram motores. Espadas, lanças, machados, arcos e flechas retomaram o lugar de armas avançadas. Mensagens que antes atravessavam o planeta em segundos passaram a depender de pombos ou mensageiros, que enfrentavam estradas perigosas e demoradas. Estradas que, muitas vezes, jamais garantiam retorno.
Os soberanos das grandes regiões — Leste, Oeste, Sudeste e Centro — reorganizaram-se como reinos independentes, motivados pela sobrevivência, pelo medo e pela necessidade de união. Era uma aliança frágil, sustentada por pactos políticos e pela ameaça constante vinda do Norte. Mesmo enfraquecido pelo colapso, o Norte não recuou. Seus exércitos continuavam a avançar com brutalidade e frieza. Não buscavam apenas terras — buscavam subjugação completa. Sua liderança acreditava que apenas os fortes mereciam viver. Todos os outros, inevitavelmente, seriam esmagados.
Com o fim da modernidade, leis antigas renasceram e outras ainda mais severas surgiram. Entre elas, os casamentos arranjados tornaram-se novamente instrumentos essenciais da política. Famílias nobres voltaram a selar alianças através de seus filhos, oferecendo-os como símbolos de união, pagamento de dívidas territoriais ou formas de garantir acordos militares. Filhas e filhos da realeza aprenderam, desde cedo, que seus destinos não lhes pertenciam. Muitos cresceram sabendo que, ao atingirem determinada idade, seriam usados como peças necessárias para manter seu reino seguro. Uniões eram negociadas em conselhos fechados, decididas por homens e mulheres cujas prioridades jamais envolviam amor.
E, nessas decisões, gerações inteiras eram marcadas — algumas pela honra do dever cumprido, outras pelo peso de um futuro jamais escolhido.
Em diversas regiões, histórias de jovens obrigados a se casar para unir casas rivais ou para impedir guerras tornaram-se comuns novamente. Essas alianças forçadas muitas vezes salvavam um reino… ao custo de uma vida. E, por mais cruéis que fossem, eram consideradas necessárias diante do medo constante.
Mas, entre todas as leis antigas que ressurgiram, uma era particularmente cruel: a Lei do Levirato.
Uma lei que exigia que a viúva se casasse com o irmão do marido falecido — não por escolha, não por amor, mas por obrigação. Para preservar linhagens. Para manter heranças. Para garantir que nenhuma propriedade, nenhum título, nenhuma conexão se perdesse com a morte.
Era uma lei que transformava luto em prisão.
E foi exatamente essa lei que destruiu o futuro de Anya, filha do rei de Elderin.
Anya não foi apenas mais uma peça no tabuleiro político. Ela foi uma das poucas que teve sorte — ou assim parecia.
Prometida desde jovem a um nobre que nunca amou, Anya carregava o peso de um futuro sem escolha. Até que conheceu Victor Dominus, príncipe herdeiro de Aldirin. E, pela primeira vez na vida, sentiu seu coração bater por vontade própria. Victor não era apenas belo ou poderoso — era gentil. Corajoso. Honrado. E, quando ele a viu pela primeira vez, algo mudou nos olhos dele. Como se, em meio ao caos do mundo, ele tivesse finalmente encontrado algo digno de ser protegido.
Eles se apaixonaram.
Contra todas as probabilidades, contra todas as convenções, os pais dela e os pais dele aceitaram a união. O noivado anterior foi desfeito. Acordos foram refeitos. Alianças foram ajustadas.
Anya e Victor se casaram. E, por um breve momento — tão breve quanto frágil — ela conheceu a felicidade.
Mas o Norte não perdoa felicidade.
Victor caiu indo para a batalha, onde defenderia as fronteiras de Aldirin. Lutou até o último suspiro. Morreu como um herói. E deixou para trás uma viúva destroçada — uma mulher que havia arriscado tudo por amor e que agora enfrentava o luto mais profundo que a alma humana pode suportar.
Mas o mundo não permitiu que ela sofresse em paz.
Porque havia a Lei do Levirato.
E havia Orion Dominus — o irmão de Victor.
O primeiro filho. O guerreiro que todos temiam. O comandante do exército dos reinos. O homem que nunca desejou a coroa, mas que a recebeu manchada de sangue e lágrimas. O homem que assistiu, impotente, enquanto o irmão que amava morria.
E agora… ele seria forçado a tomar a esposa de Victor como sua.
Não porque desejava.
Não porque Anya desejava.
Mas porque a lei assim determinava.
O conselho de Aldirin invocou o Levirato. Anya, ainda jovem, poderia gerar herdeiros. A aliança com Elderin era valiosa demais para ser perdida. E Orion, agora o futuro rei, precisava de uma rainha.
A lógica era fria. Impecável. Inquestionável.
É completamente desumana.
Anya, ainda vestida de luto, foi forçada a trocar o véu negro por um véu de casamento. Orion, ainda carregando a culpa de ter sobrevivido, foi forçado a jurar votos para a mulher que pertencera ao irmão que ele jamais conseguiria substituir.
Dois corações despedaçados.
Dois destinos entrelaçados pela mais cruel das leis.
Ela o odiava — porque ele representava tudo que ela havia perdido.
Ele carregava a culpa, a raiva e o tormento da guerra — porque sabia que ela jamais o escolheria.
E enquanto Anya lutava contra o luto, contra a raiva, contra a sensação de ter sido roubada duas vezes… Orion carregava seu próprio fardo: o peso de um reino, a sombra de um irmão morto, e a impossibilidade de fazer aquela mulher — que chorava por outro homem todas as noites — sentir qualquer coisa além de desprezo por ele.
Mas o mundo não se importava com o que sentiam.
O mundo exigia sacrifício.
E eles — como tantos outros antes deles — foram sacrificados no altar da política.
Porque, neste mundo onde a guerra ameaça engolir tudo, cada escolha é uma batalha silenciosa entre o dever e o desejo de liberdade.
E alguns sacrifícios — especialmente aqueles feitos em nome da política — ecoam por muito mais do que uma vida, atravessando séculos como sombras que nunca se dissipam.
Mas às vezes, nas cinzas do sacrifício, algo inesperado pode nascer. Às vezes, duas pessoas forçadas a se unirem encontram, no peso compartilhado, uma força que jamais imaginaram possuir. Às vezes, do ódio nasce respeito. Do respeito nasce confiança. E da confiança… nasce amor.
Um amor que não deveria existir.
Um amor construído sobre as ruínas de outro.
Um amor que precisou ser conquistado — dia após dia, cicatriz após cicatriz.
Esta é a história de Orion e Anya.
De um rei que nunca quis a coroa.
De uma rainha que nunca escolheu seu trono.
De um amor que nasceu onde só deveria haver dor.
E de como, juntos, eles transformaram uma prisão em lar.
O RETORNO.ANYA DOMINUS.Há tronos que cobram mais do que governam.Quando Orion finalmente volta, dois meses depois de partir, eu o vejo antes mesmo que ele atravesse os portões do castelo.Estou na torre leste — o lugar de onde consigo ver a estrada principal — esperando.Como tenho esperado todos os dias.Todas as manhãs.Todas as tardes.Victória está ao meu lado, brincando com uma boneca de pano, mas meus olhos estão fixos no horizonte.E então…Eu o vejo.A silhueta familiar montada em Tempestade, a capa azul escura ondulando ao vento, a cavalaria o acompanhando.Meu coração dispara.Corro.Desço as escadas tão rápido que quase tropeço na própria saia, ignorando os gritos assustados das criadas, ignorando tudo exceto a necessidade desesperada de chegar até ele.Atravesso o pátio principal no momento exato em que ele desmonta.— Orion! — grito, sem me importar com quem está ouvindo.Ele se vira.E no segundo em que nossos olhos se encontram…Eu sei.Simplesmente sei.Pelo jeito q
A JORNADA À PÉRSIAORION DOMINUS.Quando a justiça é herdada, a culpa também é.Um mês.Um maldito mês de viagem através de desertos escaldantes que parecem sugar a vida de cada célula do corpo, montanhas traiçoeiras onde um passo em falso significa morte, e estradas que serpenteiam através de territórios instáveis onde bandidos espreitam nas sombras.Mas finalmente, no horizonte distante, tremulando no ar quente como miragem que ameaça desaparecer a qualquer momento…As torres douradas da Pérsia se erguem.Altas.Imponentes.Impossíveis de ignorar.O Reino de Ashar. Capital do império persa.Lar do Rei Kerym Ashari.Já lutei ao lado dele — todos ouviram a história de como ele lutou cercado de cem homens da tropa inimiga e de como, sozinho, os derrubou. Lutamos lado a lado naquele dia — eu segurando o flanco oeste enquanto ele massacrava os inimigos com uma eficiência brutal que até hoje me impressiona.O Rei Implacável.O Conquistador do Leste.A fênix da Pérsia.O homem que, ao lad
“CARTAS DA PÉRSIA”ANYA DOMINUS.O mundo não é justo com quem sonha. Nunca foi.A tarde está quente demais para o outono.Estou sentada na biblioteca do castelo, folheando um livro sobre ervas medicinais que o médico real me emprestou há alguns dias, quando uma criada entra apressada, quase tropeçando na própria saia. Ela segura uma carta lacrada com cera verde-escura — uma cor que não reconheço imediatamente.— Alteza — ela se curva, estendendo o envelope com as mãos tremendo levemente. — Chegou com o mensageiro que veio das terras ao sul. Ele disse que era urgente. Muito urgente.Meu estômago se contrai.Cartas urgentes raramente trazem boas notícias.Pego o envelope, agradecendo com um aceno gentil, e espero a criada sair antes de romper o lacre com os dedos trêmulos.A cera se quebra com um estalo seco.Desdobro o papel — amarelado, manchado pelo tempo e pela viagem — e meus olhos correm pelas primeiras linhas.A caligrafia é tremida, apressada, como se tivesse sido escrita às pre
ORION DOMINUS.Nunca teve tanto medo — nem tanto prazer — em obedecer.Eu sorrio e faço um gesto com a cabeça. — Vá. Eu te encontro em um minuto.Ela revira os olhos, mas se deixa levar pela multidão feminina, desaparecendo entre os véus e vestidos coloridos. Eu sigo em direção ao trono elevado na frente do salão. Soldados me param no caminho, apertando minha mão, batendo no meu ombro, agradecendo. Eu respondo a cada um, ouvindo histórias rápidas de bravura, de camaradagem.Finalmente, chego ao trono.Mas antes que eu possa me sentar… Uma mulher surge ao meu lado.Alta, cabelos vermelhos como fogo, caindo em ondas sobre os ombros nus. Vestido vermelho justo demais, decote baixo demais. Olhos pintados de negro que me estudam com interesse descarado.— Alteza — ela diz, a voz arrastada, doce demais para ser sincera. — Onde está a rainha?Eu a encaro, frio.— Não é da sua conta.Ela pisca, surpresa pela rispidez, mas se recupera rapidamente, sorrindo como se eu tivesse feito uma piada.
ORION DOMINUS.Reinos se erguem com espadas. Lares, com escolhas.O sol está se pondo quando o último soldado inimigo se rende.A planície está coberta de fumaça, sangue, armas abandonadas.Mas estamos vivos.Vencemos.Anya desmonta de Estrela antes de mim, os movimentos cansados, mas firmes.Eu salto de Tempestade e corro até ela, ainda com a adrenalina pulsando.— Está ferida? — pergunto desesperado, segurando-a pelos ombros, procurando cortes, sangue, qualquer sinal de dano. Ela responde com um sorriso cansado, suado, mas genuíno.— Só viva.Eu seguro o rosto dela entre as mãos sujas de batalha.E a beijo.Não como um rei.Não como um guerreiro.Mas como o homem que só respira porque ela existe.Quando nos afastamos, ela olha as bandeiras de Aldirin e de outros reinos sendo erguidas novamente no horizonte, tremulando vitoriosas.— Acabou? — ela pergunta, a voz pequena, esperançosa.Eu olho o horizonte tingido de laranja e vermelho pelo pôr do sol.Pela primeira vez em anos…Não vej
ORION DOMINUS.Não marcharam por glória — marcharam por pertencimento.O vento do Norte sempre carregou duas coisas: frio e ameaça.Durante anos, o reino deles sussurrou sobre vingança. Sobre retomar território. Sobre sangue real derramado.E agora, cinco anos depois…Eles ousaram atacar nossas fronteiras.Eles erraram o alvo. Porque mexeram com o que é meu.Com minha família.Com Aldirin.Com ela.E por isso… hoje marchamos.Não por glória.Não por guerra.Mas por justiça👑O exército se estende como um mar de aço atrás de mim — milhares de homens e mulheres, espadas cintilando sob o céu cinzento carregado de nuvens pesadas. Cavalos relincham impacientes, batendo cascos contra a terra fria. Bandeiras de Aldirin e de outros reinos tremulam violentamente ao vento, o azul e prata dançando como chamas vivas. O ar ferve com expectativa, com tensão, com a promessa de sangue.Meu cavalo negro — Tempestade, o mesmo que cavalgo há anos — bate o casco no chão repetidamente, inquieto, sentindo





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