Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara projetava edifícios para esconder o fato de que sua própria vida estava em ruínas. Após o fim de um noivado desastroso que a deixou sem nada, a arquiteta conseguiu reerguer sua carreira, mas o vazio emocional permanecia intocado. Faltava algo — uma peça latente que a curiosidade sussurrava, mas que o medo a impedia de buscar: a entrega total do controle. O encontro com Alex, um magnata da tecnologia tão confiante quanto enigmático, muda tudo. Ele não oferece promessas vazias, mas um contrato de proteção e uma introdução ao mundo do BDSM. Para Alex, o domínio foi a ferramenta que transformou sua antiga insegurança em um império de poder. Para Clara, a submissão torna-se o caminho inesperado para a cura. O que começa como um acordo de fachada para afastar as sombras do passado, transforma-se em uma conexão íntima e arrebatadora. Enquanto Clara descobre o prazer de perder o controle nas mãos do homem certo, Alex encontra nela alguém por quem vale a pena baixar a guarda. Em um mundo de regras rígidas e desejos ocultos, eles descobrirão que a liberdade mais verdadeira só existe quando você encontra alguém capaz de dominar até os seus medos mais profundos.
Ler maisO reflexo no espelho do banheiro ainda me causava um leve estranhamento. Não pelas feições — os olhos amendoados e o rosto fino continuavam ali —, mas pela moldura. Seis meses atrás, eu estaria vestindo um pijama largo, sentada no sofá com Oliver, discutindo qual documentário sobre música assistiríamos enquanto dividíamos uma pizza brotinho. Hoje, o cenário era outro. Meu apartamento no Mirante cheirava a café recém-passado e madeira nova. O Banguela, meu gato preto e a criatura mais folgada do hemisfério sul, estava estirado sobre o tapete da sala, observando com desdém o par de saltos altos que eu tentava dominar.
Eu me formei em arquitetura sob pressão, sendo bolsista em uma faculdade onde todos pareciam ter nascido em berço de ouro, enquanto eu contava as moedas do ônibus saindo do Distrito Industrial. Meus pais, com a sabedoria simples de quem viveu entre a lida doméstica e a metalurgia, sempre disseram que o estudo era minha única saída. Mas, por dois anos, eu me perdi. Trabalhar em um escritório administrativo burocrático e viver um noivado que parecia mais um contrato de amizade de longa data com o Oliver me drenou. Oliver era doce, mas a doçura dele não me incendiava. Quando terminamos, não houve gritos. Houve apenas um vazio compartilhado e a percepção de que eu precisava ser a arquiteta da minha própria vida, literalmente. Agora, eu tinha meu próprio espaço em Santa Branca. Tinha minha carreira começando a decolar. Mas faltava algo que eu sempre guardei em uma caixa trancada no fundo da mente: a curiosidade pelo BDSM. Os homens com quem saí tratavam o sexo como uma tarefa doméstica ou como algo sagrado demais para ser "sujo". O máximo que consegui foram alguns t***s tímidos que me deixavam querendo o mundo, mas recebendo apenas uma vizinhança pacata. A campainha tocou, interrompendo meus pensamentos. Era Sarah. — Clara! Se você não estiver pronta, eu vou entrar e te arrastar nua mesmo! — A voz dela ecoou pelo corredor antes mesmo de eu abrir a porta. Sarah era a antítese da minha discrição. Alta, branca, escandalosa e dona de uma beleza que parava o trânsito. Conhecê-la em um fórum de discussões sobre o universo fetiche foi o empurrão que eu precisava. — Já vou, Sarah! Entra. Ela invadiu o apartamento como um furacão de perfume caro e energia caótica. Olhou para mim, analisando minha blusa de seda bege e calça de alfaiataria. — Nem pensar. Pode tirar isso. Hoje você não vai projetar um prédio, você vai projetar sua liberdade. — Sarah, eu não me sinto bem com roupas muito chamativas... — Cala a boca e senta naquela cadeira — ela ordenou, abrindo uma maleta de maquiagem que parecia conter o arsenal de guerra de uma pequena nação. — Eu vou te transformar. Você quer conhecer esse mundo? Então tem que entrar nele de cabeça. As duas horas seguintes foram uma mistura de tortura e fascínio. Sarah aplicava camadas de sombra escura, delineador e um batom que parecia sangue seco. Ela me entregou uma calça preta de material sintético que grudava como uma segunda pele, uma regata básica e uma jaqueta de couro pesada. — Olha no espelho — disse ela, guardando os pincéis. Eu me aproximei do vidro. A mulher ali era irreconhecível. Os olhos castanhos pareciam maiores e predatórios sob a maquiagem carregada. O contraste do preto da roupa com a minha pele morena era gritante, quase agressivo. — Eu pareço... outra pessoa — sussurrei, sentindo o aperto desconfortável da calça, mas uma estranha confiança vibrando no peito. — Você parece a Clara que estava escondida — Sarah piscou. — Vamos. O bar nos espera. E eu chamei alguns amigos. O bar ficava em um subsolo no centro de Santa Branca, com uma fachada discreta que ninguém daria um segundo olhar. Ao descermos as escadas, o som de jazz baixo e o cheiro de couro e sândalo preencheram meus sentidos. Meu coração martelava contra as costelas. — Sarah, o que é isso? — perguntei, estacando no final da escada. O salão não estava vazio. Havia uma mesa central longa e, espalhados pelo ambiente, contei pelo menos quinze homens. Alguns bebiam uísque, outros conversavam em tons baixos. Todos pareciam estar esperando. — Você disse que apresentaria alguns dominadores... — me virei para ela, sentindo um pânico súbito. — Tem quinze caras aqui! Sarah deu de ombros, com um sorriso travesso. — Eu posso ter exagerado um pouco no convite. A notícia de que uma "arquiteta curiosa e iniciante" queria entrar no meio correu rápido. Muitos quiseram te conhecer. E olha, tem um em especial que eu realmente queria que estivesse aqui... Ele é o ápice do que você procura, mas é difícil de atrair para esses eventos. Não sei se ele veio. — Sarah, eu não posso fazer isso. — Pode sim. Olha para você. Você é a dona da p*rra toda hoje. Ela caminhou até o centro do bar com a confiança de uma rainha. Bateu palmas, silenciando o ambiente. Os olhares de quinze homens se voltaram para nós — ou melhor, para mim. Senti-me como uma pequena presa diante de lobos bem vestidos. — Boa noite, senhores — Sarah anunciou, a voz projetada. — Esta é a Clara. Como sabem, o tempo de todos é precioso. Vamos organizar isso: cada um de vocês terá exatos cinco minutos com ela. Se a conversa não fluir, ela passa para o próximo. Sem insistências, sem ego ferido. Entendido? Houve um murmúrio de concordância. Alguns sorrisos de canto de boca, alguns olhares de avaliação que me fizeram arrepiar. — Sente-se ali, Clara — ela apontou para uma mesa mais reservada ao fundo. — O primeiro pode começar. Eu caminhei até a cadeira, minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Sentei-me, respirei fundo e tentei lembrar que eu tinha o controle. Mas, ao ver o primeiro homem se levantar e caminhar em minha direção, percebi que a teoria dos livros era muito diferente da realidade do frio na barriga. A noite estava apenas começando, e eu não tinha ideia de que, entre aqueles homens, o meu destino já estava traçado em tons de cinza e autoridade.Naquela noite, o sono foi meu pior inimigo. Mal dormi. Quando finalmente fechava os olhos, o rosto de Alex começava a se transformar no de Victor. No sonho, eu estava sob ele, sentindo o peso do seu corpo me esmagando, me penetrando enquanto eu chorava em silêncio, paralisada. Acordei com o coração na boca e o lençol encharcado de suor.Fiz a única coisa que me mantinha sã: comecei a trabalhar. Mergulhei em projeto sobre projeto, revisando plantas e cálculos até o sol nascer. Tentei canalizar toda a minha energia para o que eu realmente controlava. Vesti meu melhor terninho, prendi o cabelo em um coque impecável e coloquei meu rosto de "arquiteta de sucesso". E
O silêncio do meu apartamento, que sempre foi o troféu da minha independência, naquela noite parecia pesado, quase sólido. Assim que fechei a porta e encostei a cabeça na madeira fria, soltando o ar que eu nem sabia que estava segurando, meus olhos foram atraídos para o chão. Um pequeno retângulo branco contrastava com o taco escuro.Meu coração deu um solavanco tão forte que senti o pulso latejar na base do pescoço. Me abaixei, pegando o papel com a ponta dos dedos trêmulos. As letras eram irregulares, rápidas, como se tivessem sido escritas com pressa e ódio.
O som da porta se fechando atrás de Clara deixou um vácuo no meu apartamento que eu não esperava sentir. O silêncio, que sempre foi meu aliado, agora parecia opressor, quase sólido. Caminhei até o sofá e passei a mão pelo tecido onde ela estivera sentada; ainda estava morno. Eu me sentia estranhamente incompleto, e essa sensação me irritava. Eu não deveria me sentir assim por ninguém.Mal tivemos tempo de aproveitar o dia. As demandas da minha startup estavam em um ritmo frenético, e as ligações incessantes do meu pai me consumiram. Ele é a única pessoa que consegue furar meu bloqueio de "não perturbe". — Você precisa sair dessa cobertura, Alex. A vida acontece lá fora, não apenas atrás de telas e códigos — a voz dele ressoava, carregada de uma preocupação que eu já não suportava mais. — Estou cansado de te ver sozinho nessa torre de marfim.Eu não pretendia contar sobre Clara. O que temos é cru, recente e complexo demais. Mas, em um momento de distração,
O domingo amanheceu com um ritmo diferente. A eletricidade das sessões no quarto branco deu lugar a uma calmaria doméstica e, por parte de Alex, a uma imersão profunda no trabalho. O CEO implacável estava de volta, alternando entre ligações rápidas e o monitoramento de dados da AgroCore. Enquanto tomávamos um suco de laranja no balcão da cozinha, ele olhou para mim de um jeito sério, mas sem a rigidez de antes. — Clara, no próximo final de semana, precisaremos viajar — ele disse, com o olhar fixo no horizonte de Santa Branca. — Vamos para a fazenda da minha família. Meu pai é um homem de costumes antigos e ele tem andado preocupado com a minha "solidão" na cidade. Quero que ele veja que estou acompanhado. — A fazenda? — Senti um frio na barriga. Conhecer a origem dele tornava tudo mais real do que um contrato de fachada deveria ser. — Tudo bem. Vou organizar minha agenda de obras. — É um lugar reservado, Clara. Eu não
Depois do banho, a exaustão finalmente cobrou seu preço, mas era uma exaustão doce, preenchida por uma paz que eu não sentia há muito tempo. Como tínhamos perdido completamente a noção das horas entre as sessões no quarto branco e a entrega no chuveiro, o café da manhã acabou se fundindo com o jantar.Descemos para a cozinha e, pela primeira vez, percebi sinais de que não estávamos sozinhos no mundo. A mesa estava posta com uma discrição impecável: frutas frescas, pães artesanais e uma refeição leve já organizada sobre o balcão.
O vapor do chuveiro já preenchia o banheiro de mármore quando entramos, ainda presos um ao outro por um magnetismo que parecia não ter fim. Sob a água quente, o cansaço da sessão anterior desapareceu, dando lugar a uma urgência mais crua. O contato das nossas peles molhadas era elétrico, e cada beijo de Alex carregava uma promessa de que a noite ainda não tinha entregado tudo.Eu me sentia diferente. Havia uma segurança nova correndo em minhas veias, algo que nasceu da entrega total no quarto branco. Decidi ser ousada, mesmo que a insegurança ainda sussurrasse no fundo da minha mente. Com um movimento lento, eu me ajoelhei no box, o som da água ba





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