Capítulo 05

Ao descermos a escada de ferro, o salão do Sub-Solo parecia outro lugar. Onde antes havia quinze homens disputando minha atenção, agora restava apenas o silêncio, o cheiro de uísque envelhecido e o som do barman polindo copos de cristal. O ambiente, que antes parecia opressor, agora parecia vazio demais comparado à intensidade do que eu acabara de viver no andar de cima.

Sarah estava encostada no balcão, terminando um drink colorido. Assim que nos viu, ela abriu um sorriso que misturava alívio e uma malícia que ela nem tentava esconder.

— Ora, ora... A minha amiga desaparece por quase uma hora e volta com o homem mais difícil de Santa Branca — Sarah disse, colocando o copo de lado e caminhando em nossa direção. — Alex, eu passei a noite planejando como ia te apresentar para a Clara, mas pelo visto vocês dois resolveram pular o protocolo e as apresentações.

Alex manteve a postura impecável, o rosto voltado para Sarah com uma cortesia fria.

— Digamos que a Clara sabe como chamar a atenção para os pontos certos, Sarah — ele respondeu, a voz de barítono voltando ao tom controlado de antes, embora eu ainda pudesse sentir o calor da pele dele na ponta dos meus dedos.

— Clara, me desculpa por aquele imbecil do Victor — Sarah disse, mudando o tom para algo mais sério e segurando meu braço. — Eu juro que não sei quem o convidou. Ele não faz parte do meu círculo de confiança. Ver ele tentando te forçar a chamá-lo de "senhor" me deu náuseas.

— Está tudo bem, Sarah — respondi, tentando manter a voz firme apesar das pernas ainda um pouco bambas. — Já passou. O Alex resolveu a situação... e o resto também.

Troquei um olhar rápido com ele. Havia um segredo compartilhado entre nós agora, algo que nem a Sarah, com toda a sua intuição, conseguia mensurar completamente.

— Bom, acho melhor irmos — eu disse, querendo processar tudo no silêncio do meu capacete. — O bar já está fechando.

— Como você vai embora, Clara? — Alex perguntou, a voz soando como um comando disfarçado de gentileza. — Posso te levar.

— Eu vim de moto — apontei para a chave que eu já segurava, diferente daquela que ele me entregara minutos atrás. — E a Sarah vai pedir um Uber, já que ela mora para o lado oposto.

Houve uma hesitação no olhar dele. Alex não parecia o tipo de homem que gostava que suas mulheres dirigissem sozinhas à noite, especialmente em Santa Branca, mas ele apenas assentiu.

— Sábado, às nove — ele lembrou, a voz baixa, apenas para mim.

— Estarei pronta.

Nos despedimos de Sarah na porta do bar. Ela me deu um abraço apertado e sussurrou: "Me conta tudo amanhã ou eu morro!". Eu apenas ri, sentindo o peso da maquiagem e do cansaço começando a bater.

Alex e eu caminhamos juntos em direção ao estacionamento subterrâneo que atendia ao bar e aos prédios comerciais vizinhos. O lugar era imenso, uma caverna de concreto com luzes fluorescentes que piscavam, criando sombras longas e distorcidas entre as colunas de sustentação. O Setor Norte era movimentado, mas ali embaixo, o som do trânsito era apenas um murmúrio distante.

O carro dele, um sedã preto fosco que exalava poder, estava parado logo no início da primeira rampa. Paramos ao lado dele.

— Tem certeza de que não quer deixar a moto aqui e ir comigo? — ele insistiu, os olhos cinzas me estudando.

— Eu sei me cuidar, Alex — respondi com um meio sorriso, tentando mostrar a independência que meus pais me ensinaram a ter. — Além disso, o Banguela não perdoa atrasos para o café da manhã.

Ele se aproximou, diminuindo o espaço entre nós. Por um segundo, achei que ele fosse me beijar ali mesmo, sob a luz fria do estacionamento, mas ele apenas tocou meu queixo, levantando meu rosto.

— Até sábado, Clara. Tente não pensar demais.

— Difícil pedir isso para uma arquiteta — brinquei.

Ele entrou no carro e eu caminhei em direção à minha moto, que estava estacionada alguns metros mais ao fundo, em uma vaga para veículos de duas rodas perto de uma pilastra maciça. O som dos meus saltos estalando no cimento queimado parecia alto demais, ecoando pelo espaço vazio.

Eu estava a apenas três passos da moto, já tirando o capacete do suporte, quando a sensação de segurança desapareceu.

Um movimento súbito à minha direita, vindo da sombra da pilastra, me fez estacar. Antes que eu pudesse gritar ou reagir, uma mão áspera e forte envolveu minha boca, abafando qualquer som. Outro braço circulou minha cintura com uma força bruta, me tirando do chão.

— Achou que ia se livrar de mim assim tão fácil, vadia? — O hálito de cigarro e uísque barato atingiu meu rosto, e eu reconheci a voz imediatamente.

Victor.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App