Mundo de ficçãoIniciar sessãoO trauma do momento anterior ainda pulsava no meu braço, mas a curiosidade era mais forte que o medo. Deixei Sarah conversando com outros convidados — provavelmente se gabando por ter trazido "o" assunto da noite para o bar — e me dirigi ao balcão. Meus dedos tremiam levemente, um efeito colateral da adrenalina que começava a baixar. Eu precisava de algo para acalmar os nervos, mas não queria perder os sentidos.
— Um licor, por favor — pedi ao barman, tentando manter a voz firme. Eu não era de beber muito, mas o gosto doce e amargo da amêndoa parecia uma boa metáfora para o que eu estava sentindo. Antes que o copo chegasse à minha mão, uma figura se posicionou ao meu lado. O perfume dele me atingiu antes de qualquer palavra: uma mistura sofisticada de tabaco suave e cítrico, algo que cheirava a escritórios caros e noites decididas. — E uma água para ela — a voz de Alex interrompeu. Ele olhou para o barman com uma naturalidade que não admitia contestação e depois voltou-se para mim. — O álcool só vai mascarar o seu choque, Clara. Você precisa de clareza agora, não de névoa. Fiquei estática. Ele sabia meu nome. Olhei para ele de perto e a semelhança com o porte de um jovem bilionário de filme era inegável, mas havia algo mais... humano e, ao mesmo tempo, mais brutal em seus olhos cinzas. Não era a perfeição plástica de uma revista; era a força de alguém que já havia quebrado coisas — ou sido quebrado. — Achei que você fosse o dono do bar. Ou o chefe da segurança — confessei, aceitando a água que o barman depositou à minha frente. O gelo batia no vidro, ecoando o ritmo do meu coração. Alex deu um meio sorriso, o primeiro que vi. Era charmoso, mas reservado, como uma porta entreaberta que não te convida necessariamente para entrar. — Apenas alguém que preza pela ordem. O que aconteceu ali foi uma falha técnica. O BDSM não é sobre força bruta ou humilhação sem propósito. Victor é um amador perigoso que confunde poder com falta de educação. No meu mundo, quem precisa gritar ou machucar para ser obedecido já perdeu o controle antes mesmo de começar. — E o que é o BDSM para você? — perguntei, sentindo uma coragem repentina que o meu antigo eu, a Clara do escritório burocrático, jamais teria. Ele se inclinou, apoiando um cotovelo no balcão, ficando perigosamente perto. O calor que emanava dele parecia lutar contra o ar condicionado gelado do subsolo. — É sobre entrega, Clara. Mas não é uma entrega cega. O verdadeiro poder está em saber ceder. Você tem o controle, porque é você quem decide a quem dar as chaves da sua vontade. Aqueles homens lá fora... — ele fez um gesto vago para o salão, onde os outros catorze candidatos agora pareciam borrões sem importância — eles só querem mandar. Eles não querem ensinar. E você parece alguém que quer aprender, mas está morrendo de medo de ser quebrada no processo. Engoli em seco. Como arquiteta, eu passava os dias analisando plantas e estruturas, procurando pontos de tensão que poderiam derrubar um edifício. Alex estava fazendo exatamente isso comigo: encontrando a minha rachadura principal. — Sarah me falou de você — ele continuou, a voz baixando para um tom confessional, quase íntimo. — Ela disse que você busca algo diferente. Eu também. Tenho uma startup de tecnologia no Setor Norte; minha vida é movida por lógica, prazos e resultados. Mas no meu mundo pessoal, eu procuro uma submissa que seja mais que um brinquedo. Procuro uma companhia. Alguém que tenha a inteligência para estar ao meu lado em jantares e eventos de negócios, mantendo as aparências de um relacionamento convencional, mas que, entre quatro paredes, saiba exatamente quem comanda. Sem envolvimento romântico profundo, sem promessas de "felizes para sempre" com cercas brancas no subúrbio. Apenas um compromisso de lealdade e entrega mútua. — Como um contrato? — perguntei, minha mente técnica processando a proposta. — Exatamente. Minha última submissa, Luma, confundiu as coisas. Ela queria o que eu não posso dar: um futuro emocional comum. Ela queria o homem da startup, o namorado para apresentar aos domingos, não o Dominador. E isso quebrou o nosso acordo. Eu não pretendo repetir o erro. Aquelas palavras ressoaram em mim de um jeito estranho. Eu tinha acabado de sair de um noivado onde o "romance" era apenas uma amizade morna, uma obrigação social. Eu não queria mais isso. Eu queria intensidade, a eletricidade de ser dominada, mas também queria manter minha independência recém-adquirida no meu apartamento no Mirante. O que Alex descrevia era um compromisso de alta voltagem, mas com limites claros. Um projeto com escopo definido. — E como você sabe que eu sou a pessoa certa? — desafiei, tentando sustentar o olhar cinza dele. Alex fixou os olhos nos meus com uma intensidade que me fez sentir nua, apesar da jaqueta de couro. — Eu não sei. Mas eu sinto que o seu silêncio esconde uma tempestade que eu gostaria de governar. Você tem uma força que tenta esconder atrás dessa dúvida, Clara. E eu gosto de desafios estruturais. Ele tirou uma chave metálica do bolso do blazer e a colocou sobre o balcão, empurrando-a na minha direção com o indicador. O som do metal no mármore foi definitivo. — Lá no fundo do bar existem suítes privadas. São seguras e discretas. Eu vou subir agora. Se você quiser entender o que é química de verdade — e se quiser parar de apenas ler sobre isso e começar a viver —, me encontre lá em dez minutos. Suíte quatro. Se não... devolva a chave para a Sarah e vá para casa. Ele se levantou com uma fluidez invejável, ajeitou o blazer e saiu sem olhar para trás, em direção às escadas de ferro. Fiquei ali, segurando o copo de água, olhando para a chave. Eu podia sentir o olhar de Sarah em mim, à distância, curiosa. Olhei para a chave e depois para o meu reflexo no espelho atrás das garrafas de bebida. Eu não era mais a garota da Vila Ferroviária que aceitava o que a vida oferecia. Eu era a mulher que estava prestes a subir uma escada para descobrir se era forte o suficiente para se perder. Bebi o resto da água, peguei a chave e senti o metal frio contra a palma da minha mão. O cronômetro na minha cabeça começou a rodar.






