A sala branca cheira a álcool, remédio e a uma morte contida, como se o fim estivesse ali, sentado num canto, esperando autorização. O ar é frio demais na minha pele, e tudo ecoa. Cada passo distante, cada roçar de tecido, cada respiração que não é a dele me atravessa como uma ameaça. E então vem o som. O bip. Ritmado. Cruel. Regular demais para permitir alívio, lento demais para permitir esperança. É o som que me diz que Fernando ainda não partiu… mas também não voltou.
Eu não preciso enxergá-lo para saber o estado em que está. O peso da ausência do movimento fala por ele. O silêncio do corpo, interrompido apenas pelo esforço dolorido do peito subindo e descendo, me conta tudo. Há fios sob meus dedos, tubos frios, curativos ásperos. Nada ali é humano — exceto aquela respiração. Fraca. Teimosa. Viva. É nela que eu me agarro, como quem segura a última tábua num naufrágio. Porque enquanto ele respira, eu ainda posso acreditar.
Os médicos entram e saem em passos calculados, vozes baixa