O homem que observa

Victor Hale sempre gostou de observar antes de agir.

Sentado dentro do carro, com o motor desligado e os vidros escuros, ele mantinha o olhar fixo na mansão à frente. Conhecia aquele lugar melhor do que qualquer um imaginaria. Não apenas o endereço. Conhecia a história, as paredes, o dinheiro que sustentava cada tijolo.

Conhecia Adrian Moretti.

E isso era o que mais o incomodava.

Victor passou a língua pelos lábios, sentindo o gosto metálico da raiva antiga misturada à paciência calculada. Esperar nunca foi um problema. Pelo contrário. Esperar tornava tudo mais interessante.

A luz do quarto do andar superior estava acesa.

Ele sorriu.

— Então é ali que você dorme agora — murmurou para si mesmo.

A mulher.

Victor não precisou de muito tempo para perceber que ela era o ponto fraco. Adrian sempre teve pontos fracos, embora se esforçasse para parecer inabalável. A diferença era que, antes, esses pontos estavam enterrados sob camadas de negócios, contratos e silêncio.

Agora, estavam andando pela casa de uniforme branco.

Victor ajeitou o banco, cruzando os braços.

— Babá… — disse, quase saboreando a palavra.

Era sempre assim. Adrian sempre acreditava que podia controlar tudo, inclusive as pessoas que deixava entrar em sua vida. Victor aprendeu, há anos, que nada despertava mais pânico em Adrian do que a ideia de perder alguém sob sua proteção.

E agora havia alguém.

Victor lembrava perfeitamente do dia em que Adrian o expulsara da empresa. Do escritório. Da vida que haviam construído juntos. Lembrava do olhar frio, da falsa compaixão, das palavras medidas.

“É melhor assim.”

Mentira.

Nada foi melhor desde então.

Victor perdeu dinheiro, prestígio, acesso. Mas perder Adrian foi a ferida real. Não por amizade. Por posse. Adrian sempre foi dele, mesmo sem admitir.

E agora… agora havia uma substituta.

Victor levou a mão ao bolso, sentindo o celular vibrar. Uma mensagem curta apareceu na tela.

Contato: Informante

Mensagem: Ela ainda está aí.

O sorriso de Victor se ampliou.

— Claro que está — murmurou.

Ela não tinha para onde ir.

Victor sabia como Adrian funcionava. Sabia que ele não mandaria aquela mulher embora. Sabia que iria protegê-la, cercá-la, trancá-la se fosse preciso.

Sempre foi assim.

Victor desligou o celular e voltou a observar a casa. Não tinha pressa. Pressa levava a erros. E ele não errava mais.

A lembrança de outras mulheres passou por sua mente como flashes desconfortáveis. Mulheres que haviam confiado. Que haviam acreditado que controle era cuidado. Que haviam aprendido tarde demais a diferença.

Victor não se via como um monstro. Nunca se via.

Via-se como alguém que sabia exatamente o que queria.

E naquele momento, queria testar Adrian.

Queria vê-lo quebrar.

Na manhã seguinte, Victor estava em outro ponto da cidade, sentado em um café discreto. Um local simples, longe do luxo que um dia frequentava. Não se importava. Luxo era apenas cenário. O poder vinha de outro lugar.

Abriu o notebook e acessou uma pasta criptografada. Fotos. Informações. Horários.

Ela tinha rotina.

Victor gostava disso.

Sabia quando ela acordava. Quando saía para o jardim. Quando ficava sozinha com a criança. Sabia quando Adrian estava em reuniões e quando ficava em casa.

Sabia que ela tentara sair.

Victor sorriu ao lembrar disso.

— Você é curiosa — murmurou. — Gosto disso.

Curiosidade sempre levava ao erro.

Ele fechou o notebook e tomou um gole do café, agora frio. Não estava com pressa. Queria que ela sentisse. Que percebesse algo errado antes de entender o que era.

Queria que Adrian percebesse também.

O celular vibrou novamente.

Contato: Informante

Mensagem: Segurança reforçada. Ele suspeita.

Victor riu baixo.

— Claro que suspeita.

Adrian sempre foi inteligente. Mas inteligência não impedia o desespero.

Victor levantou-se, jogando algumas notas sobre a mesa, e saiu do café sem olhar para trás. Caminhou até o carro, entrou e ligou o motor.

No retrovisor, observou o próprio reflexo.

— Você errou ao trazê-la para perto — disse para si mesmo. — Agora ela faz parte do jogo.

Dirigiu lentamente pela cidade, sem destino aparente. Já tinha tudo o que precisava. Informações. Tempo. Um alvo claro.

Horas depois, quando a noite voltou a cair, Victor estacionou novamente próximo à mansão, desta vez mais distante. Observou a movimentação silenciosa da casa, as luzes se apagando aos poucos.

Uma sombra passou pela janela do quarto superior.

Ela.

Victor sentiu o corpo reagir de forma quase involuntária. Não era desejo. Era interesse. Curiosidade. Posse antecipada.

— Você não sabe ainda — murmurou —, mas já me pertence um pouco.

Dentro do quarto, Helena se remexia na cama, sentindo uma inquietação estranha, como se estivesse sendo observada.

Victor inclinou a cabeça, satisfeito.

— Durma — sussurrou. — Aproveite enquanto pode.

Porque ele sabia algo que ela ainda não sabia.

Adrian Moretti acreditava que podia proteger o que era seu.

Victor Hale acreditava que tudo podia ser tirado.

E, muito em breve, um dos dois estaria certo.

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