Helena
Casas falam.
Aprendi isso cedo, muito antes de saber nomear sentimentos. Casas falam pelos ruídos que fazem quando algo muda. Pelo jeito como os passos ecoam diferente no corredor. Pelo modo como as portas parecem demorar mais para se fechar. Pela atenção silenciosa de quem observa sem comentar.
Naquela semana, a casa falou.
Eu senti logo na segunda-feira pela manhã, quando desci as escadas ainda cedo, o uniforme dobrado no braço. Não o vesti. Não por rebeldia. Por verdade. Ele já não me representava do mesmo jeito.
A governanta, Dona Lúcia, estava na cozinha, organizando o café. Uma mulher discreta, de fala baixa e olhar atento, que trabalhava ali há anos. Ela me viu entrar… e demorou um segundo a mais do que o habitual para falar.
— Bom dia, Helena.
— Bom dia — respondi, naturalmente.
O olhar dela percorreu meu vestido simples, elegante, adequado para o dia, mas diferente do uniforme que eu usara por tanto tempo. Não houve julgamento. Apenas reconhecimento de mudança.
— O caf