Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena acordou com o corpo rígido, como se tivesse passado a noite inteira em alerta.
Por alguns segundos, não reconheceu o quarto. A luz fraca que entrava pelas frestas da cortina desenhava sombras suaves nas paredes claras, mas a sensação não era de aconchego. Era de confinamento. O primeiro impulso foi olhar para a porta. Trancada. Exatamente como ela havia deixado na noite anterior. Sentou-se na cama devagar, respirando fundo, tentando organizar os pensamentos que vinham em ondas desordenadas. As imagens voltavam sem pedir licença: a maçaneta que não girou, a voz firme de Adrian atrás dela, o carro parado do lado de fora da cerca. “Por você.” Aquela frase ainda ecoava em sua mente. Levantou-se, caminhando até o banheiro. Lavou o rosto com água fria, tentando afastar o medo que insistia em se instalar no peito. Olhou-se no espelho por alguns segundos a mais do que o necessário. Havia algo diferente em seu olhar. Não era apenas cansaço. Era a consciência de que, desde o momento em que entrou naquela casa, sua vida deixara de ser apenas sua. Vestiu o uniforme branco com movimentos lentos, quase mecânicos. A roupa era simples, impecável, mas naquele instante parecia carregar um peso simbólico maior do que no dia anterior. Ajustou os botões, respirou fundo e saiu do quarto. O corredor estava silencioso, mas não vazio. A casa nunca parecia realmente vazia. Desceu as escadas com passos contidos, sentindo o estômago se apertar a cada degrau. Ao chegar ao final, encontrou Adrian encostado à parede próxima ao escritório, como se estivesse esperando por ela. Ele já estava vestido, terno escuro, postura impecável. O rosto sério denunciava que também não dormira bem. — Precisamos conversar — disse ele, sem preâmbulos. Helena assentiu. Sabia que aquela conversa era inevitável. Adrian abriu a porta do escritório e fez um gesto para que ela entrasse. Assim que os dois estavam lá dentro, ele fechou a porta com cuidado, girando a chave. O clique seco ecoou no ambiente, fazendo o coração de Helena acelerar. — Não precisa trancar — disse ela, tentando manter a calma. — Precisa — respondeu ele. — Pelo menos agora. Ela não insistiu. O escritório estava parcialmente iluminado pela luz da manhã. Helena observou o ambiente com outros olhos pela primeira vez. Não era apenas um espaço de trabalho. Era um lugar onde decisões importantes haviam sido tomadas. Onde poder e controle se acumulavam em silêncio. Adrian permaneceu alguns segundos em pé, de costas para ela, como se organizasse pensamentos que preferia não ter. — O homem que você viu ontem — começou — não foi um acaso. Helena cruzou os braços, sentindo um arrepio percorrer a espinha. — Eu imaginei. Ele se virou lentamente, apoiando as mãos na mesa. — O nome dele é Victor Hale. O nome soou pesado, carregado de algo que Helena não conseguia explicar, mas sentia no corpo. — Ex-sócio? — perguntou. — Ex — respondeu Adrian. — Ex-amigo. Ex-confiança. Ex-tudo. Ele abriu uma gaveta e retirou uma pasta grossa, escura. Colocou-a sobre a mesa, mas não a abriu. — Victor foi meu sócio nos primeiros anos da empresa — continuou. — Inteligente, ambicioso, persuasivo. O tipo de homem que entra na sua vida como se sempre tivesse feito parte dela. — E o que aconteceu? — Helena perguntou, a voz baixa. — Controle — respondeu ele, sem hesitar. — Victor acreditava que tudo precisava estar sob o domínio dele. Pessoas incluídas. Helena sentiu o estômago se contrair. — Quando percebi até onde aquilo poderia ir, o afastei da sociedade — continuou Adrian. — Financeiramente, ele perdeu muito. Psicologicamente, perdeu tudo. — Ele reagiu mal — concluiu Helena. — Ele reagiu com violência. A confirmação veio seca, sem rodeios. — Houve ameaças, processos abafados, acordos silenciosos — disse Adrian. — Houve mulheres machucadas. Uma delas desapareceu por dias. Helena levou a mão à boca, sentindo o coração acelerar. — Ela… morreu? — Não — respondeu ele. — Sobreviveu. Mas nunca foi a mesma. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Então por que ele está solto? — perguntou Helena. Adrian soltou uma risada curta, amarga. — Porque monstros raramente parecem monstros à primeira vista. E porque dinheiro apaga rastros. Helena respirou fundo, tentando assimilar tudo. — Mas por que agora? — insistiu. — Por que eu? Adrian levantou o olhar, fixando-o no dela com intensidade. — Porque você se tornou visível — disse. — Victor sempre teve prazer em tirar dos outros aquilo que eles valorizam. Quando você entrou nesta casa, algo mudou. — Eu sou só uma babá — rebateu, sentindo a voz falhar. — Você é presença — corrigiu ele. — E Victor percebe presença. Helena sentiu o medo ganhar forma. — Então você está dizendo que ele está interessado em mim. — Tenho certeza — respondeu Adrian. — Ele perguntou por você. O chão pareceu desaparecer sob os pés dela. — Como ele sabe quem eu sou? — Ele observa — disse Adrian. — Sempre observou. — E meu filho? — a pergunta escapou antes que ela pudesse se conter. O rosto de Adrian se fechou imediatamente. — Seu filho está seguro — respondeu, firme. — Victor não sabe da existência dele. E não vai saber. — Como você pode ter certeza? — Porque eu garanti isso. A resposta deveria tranquilizá-la. Não tranquilizou. — Então o que acontece agora? — perguntou Helena, sentindo o peso da situação. — Agora você fica aqui — disse Adrian. — Até que eu tenha certeza de que ele não representa mais uma ameaça. — Trancada? — Protegida. — Isso não parece proteção — retrucou ela. — Parece prisão. Adrian deu um passo à frente. — Eu sei como parece — disse. — Mas não vou permitir que você saia enquanto houver risco. — Mesmo contra a minha vontade? — Mesmo assim. Helena sentiu algo se partir dentro dela. Não era apenas medo. Era a percepção clara de que havia perdido o controle sobre a própria vida. — Você não pode decidir tudo por mim — disse, a voz embargada. — Posso decidir quem eu protejo — respondeu ele. — E você está sob a minha proteção agora. Ela desviou o olhar, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. — Não diga isso desse jeito — pediu. Adrian respirou fundo. — Desculpe — disse. — Mas preciso que entenda: Victor não desiste. Ele espera falhas. Testa limites. — E eu sou a falha — sussurrou Helena. — Você é o alvo — corrigiu ele. O silêncio voltou a se instalar. — Você pode me odiar por isso — continuou Adrian. — Pode tentar fugir de novo. Mas enquanto esse homem estiver solto, você não cruza aquele portão. Helena assentiu lentamente, sentindo o peso de uma decisão que não tomou, mas que agora moldava sua realidade. Quando saiu do escritório, caminhando de volta para o quarto, algo estava claro em sua mente: O perigo tinha nome, rosto e histórico violento. E Adrian Moretti não estava exagerando. Ele estava se preparando para algo maior. Deitada na cama, olhando para o teto, Helena percebeu algo ainda mais assustador: A porta estava trancada. Mas o que realmente a prendia ali não eram as fechaduras. Era a certeza de que, do lado de fora, havia alguém esperando. E, talvez, do lado de dentro… alguém decidido a nunca deixá-la ir.






