Mundo de ficçãoIniciar sessãoO impacto do pouso fez o corpo de Camila reagir antes mesmo que sua mente aceitasse a realidade.
Um reflexo seco, quase defensivo, como se ainda estivesse fugindo de sua compreensão. O jato particular tocou o solo de Florença com força acentuada, mas, para ela, o som das rodas encontrando a pista soou como um veredicto, e uma nova exposição.
Itália.
Toscana.
Estava mesmo ali.
E a pergunta veio sem pedir licença.
E se alguém estivesse esperando?
Ela manteve Nina firme contra o peito quando o jatinho desacelerou, sentindo o coração bater rápido demais para um pouso seguro. A menina dormia profundamente, os cílios longos projetando pequenas sombras sobre as bochechas rosadas, completamente alheia à travessia clandestina que mudaria o rumo da vida de ambas.
Camila sentiu o peso daquele momento se instalar nos ombros, não apenas o peso físico da criança, mas o peso sufocante de tudo o que havia sido abandonado para chegar até ali.
Quando a aeronave finalmente estacionou, o comandante anunciou a chegada em um tom cordial, objetivo e profissional. Camila agradeceu com a voz baixa, contida demais, enquanto se levantava com cuidado, sentindo as pernas ainda rígidas, prontas para correr se fosse preciso.
A tripulação foi discreta, eficiente, respeitosa. E isso a deixou alerta, porque era assim que tinha sobrevivido todo esse tempo. Camila sabia que havia o dedo de Amélia ali. Eles sabiam quem ela era, ou, ao menos, sabiam que não deveriam perguntar nada.
Antes de descer, uma das comissárias lhe entregou um envelope pardo, sem identificação.
Ela o abriu apenas o suficiente para confirmar o que já sabia que estava ali. Documentos italianos falsos, impecáveis, com um nome que não era o seu. Nem o de Nina. Uma história que jamais viveram. Também havia dinheiro, uma quantia generosa demais para ser ignorada.
Algo que ela não pediu, e nem esperava.
Amélia cumpriu sua palavra, muito além do combinado.
Camila engoliu seco.
Dívidas como aquela nunca vinham sem custo. Ninguém lhe ofereceu algo, sem querer algo em troca…
Somente uma pessoa foi a exceção. Nina tinha metade do material genético dessa pessoa.
Murmurou um agradecimento sincero à comissária, em italiano correto e treinado, e saiu da aeronave com Nina ainda adormecida em seus braços, sentindo-se exposta demais sob o céu aberto da pista.
O aeroporto de Florença era menor do que ela se lembrava.
Ou talvez fosse sua percepção distorcida pela tensão constante. Tudo parecia próximo demais, aberto demais. O som das rodinhas das malas ecoava alto, vozes se misturavam em idiomas diferentes, e havia câmeras em todos os ângulos, discretas, mas presentes, como um sentinela agourento.
Camila ajeitou o boné no rosto, sentindo o estômago se contrair violentamente.
Cada passo vinha acompanhado de um pensamento intrusivo.
E se alguém a reconhecesse?
E se o seu rosto estivesse rodando em algum sistema internacional da polícia?E se todo esse sacrifício não fosse suficiente?No balcão de imigração, entregou os documentos com mãos firmes demais para alguém tão cansada e a beira de um ataque de nervos. O agente conferiu, digitou algo no computador, levantou os olhos por um segundo que pareceu longo demais.
Ela manteve o rosto neutro.
A Rainha de Ferro não podia tremer agora.
Ela já havia encarado conselhos de diretoria que pareciam uma guerra, salas fechadas, decisões que custaram milhões. Não cairia diante de um carimbo.
O som seco do passaporte sendo marcado fez o ar sair lentamente de seus pulmões. Por um instante, quase desabou ali mesmo.
Mas inspirou fundo e se conteve. Não erraria agora. Não podia errar agora!
Saiu do aeroporto o mais rápido que pôde, evitando lojas, cafés, qualquer lugar que exigisse permanência sob luzes e lentes. Precisava desaparecer dentro da cidade antes que alguém tivesse tempo de realmente vê-la.
Do lado de fora, o ar da Toscana a atingiu de forma inesperada.
Mais fresco, mais vivaz, com cheiro de terra úmida e folhas. Um lugar que parecia agradável demais para alguém que vivia em fuga.
Ainda assim, Camila não relaxou.
Chamou um táxi sem hesitar.
O motorista era um homem de meia-idade, cabelos grisalhos nas têmporas, expressão tranquila demais. Ele sorriu ao vê-la entrar com o bebê adormecido e acomodou a mala no porta-malas com cuidado excessivo.
Camila observou cada gesto.
— Buongiorno, signora — cumprimentou ele, com sotaque típico da Toscana.
— Buongiorno — respondeu, ajustando Nina nos braços. — Preciso de um lugar para ficar por alguns dias… que seja discreto. Com refeições. Um pouco afastado do centro.
O homem assentiu, mas lançou um olhar rápido para o retrovisor. Demorado demais.
— Conheço um lugar — disse. — Simples. Tranquilo. Privacidade não falta.
Camila assentiu, o corpo ainda tenso.
E se ele perguntasse demais?
E se reconhecesse o sotaque?E se a achasse suspeita e a levasse para uma delegacia?O táxi arrancou pelas ruas de Florença com precisão e habilidade. O motorista parecia conhecer cada curva, cada atalho. Camila observava a cidade pela janela como quem encara algo proibido.
Ela sabia.
A Toscana nunca seria apenas um refúgio. Não para ela.
Na última vez em que esteve ali, tudo havia sido diferente. E, desta vez, nem essa cidade e muito menos ele…. a receberia em silêncio ou tranquilidade.







