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Camila
A madrugada estava alta quando Camila atravessou o saguão lateral do aeroporto privado, com o coração martelando tão alto que parecia conduzir o ritmo apressado de seus passos. O ar quente e úmido de São Paulo grudava em sua pele, tornando tudo mais pesado, a respiração, a mala, e seu coração que parecia prestes a explodir.
No colo, aninhada contra seu peito, a pequena Nina dormia profundamente, alheia ao desespero que acompanhava cada movimento da mãe. A angústia e desespero faziam seus membros tremerem, como se seu corpo fosse feito de chumbo.
O braço de Camila estava rígido pelo peso de seu bebê que estava prestes a completar dois aninhos.
Quase dois anos....
Um curto tempo para perder tudo....
E um longo tempo para tentar superar e seguir em frente…
O celular vibrava dentro do bolso interno da jaqueta, insistente, incômodo, ameaçador. Chamadas e mais chamadas, mensagens aterradoras. Ela não precisava olhar para saber. Tudo que vinha dali significava um problema. Não ficou nem dois dias com o número novo, e ele já foi descoberto. Perdeu a conta de quantas vezes trocou o chip e trocou de aparelho.
Parou por um segundo apenas para descartar o aparelho numa lata de lixo bem cheia. Os dedos tremiam tanto que quase deixou a mochila cair.
— Meu Deus me ajude… — murmurou.
Ela mal conseguia respirar, e mesmo assim avançava com passos largos, aquele era um sacrifício que ela faria mil vezes sem hesitar. Em sua outra mão, a mala arrastava pelo chão com um ranger incômodo, como se anunciasse sua presença a todos que a procuravam.
Eram os homens de farda preta, armados até os dentes, ou a polícia.
Talvez os dois.
Camila não sabia ao certo quem chegaria primeiro, só sabia que não podia ser encontrada a qualquer momento.
Tinha que sair do Brasil o mais rápido possível. Não tinha outra saída.
A amiga que arranjou sua fuga, havia sido claro sobre esse momento. “Desligue tudo, siga direto, não olhe para trás. Se livre do celular antes de embarcar” E ela obedeceu.
As sombras do estacionamento privado pareciam mais densas do que deveriam, e Camila juraria ter visto dois homens rondando a saída minutos antes. A forma como pararam para conversar com o segurança, a maneira como olharam ao redor… Ela reconhecia aquele tipo de postura, eram aqueles homens que tinham transformado sua vida num verdadeiro inferno ainda maior nas últimas semanas.
O estômago dela se revirou, o suor frio escorreu por suas costas.
Ela estava sendo implacavelmente caçada.
Apertou Nina contra o peito, quase acordando a menina, que só suspirou baixinho.
— Calminha, meu amor… — murmurou, mais para si mesma do que para a filha.
O trajeto até a pista particular parecia interminável.
As luzes do estacionamento privado lançavam sombras apavorantes pelo caminho. Densas demais. Camila diminuiu o passo instintivamente ao ver dois homens próximos à saída lateral, eles conversavam com o segurança, atentos a qualquer movimento.
Um deles segurava um rádio, falando rapidamente, sem parar. O estômago de Camila se revirou. Ela reconhecia aquele tipo de postura, ombros rígidos, olhar que varria o ambiente em busca de algo específico. De alguém.
Camila sentiu um aperto impiedoso no peito. Suor frio escorrendo pelas costas. A mala derrapou numa grelha metálica, quase a fazendo perder o equilíbrio.
— Oh meu Deus… — sussurrou, ajustando melhor o peso da filha. – Seus olhos dispararam em todas as direções, morrendo de medo de ter chamado a atenção de seus perseguidores.
As pernas estavam pesadas, tudo parecia girar ao seu redor, mas ela continuou. Porque precisava. Porque não tinha escolha. Porque, se parasse…
Uma sirene distante cortou o ar da madrugada. Camila congelou por um segundo, um único segundo, antes de recomeçar a andar, ainda mais rápido. A sirene podia não significar nada. Poderia ser qualquer coisa, mas e se não fosse? E se a polícia já estivesse ali. E se estavam ali para capturá-la?
O portão metálico que dava acesso à área da pista privada estava logo à frente, iluminado por apenas uma lâmpada trêmula. Sua amiga garantiu que o piloto estaria à espera, com um documento falso para ela e para sua filhinha, caso fossem abordados ao chegarem ao seu destino. A decolagem seria imediata para a Europa.
Era longe o suficiente, e lá Nina teria enfim a segurança que precisava. Isso o que mais ansiava nesse momento, ver sua filha segura.
A respiração dela embargou quando, atrás de si, ouviu passos apressados ecoando no corredor de concreto. Não eram poucos passos, mas uma quantidade que poderia cercar o hangar particular. E estavam se aproximando rapidamente.
Camila não olhou para trás, ela não podia se dar ao luxo de confirmar o que já sabia. Segurou firme a alça da mala, ajustou Nina melhor no colo e avançou em direção ao portão como se sua vida e a da filha, dependessem daquilo.
Porque dependiam.
A cada passo, o desespero ganhava forma dentro dela, a cada passo, a sensação de ser seguida se intensificava. O som dos passos atrás dela acelerou, Camila acelerou também, as lágrimas quentes escorreram por seus olhos.
“Por favor, por favor meu Deus!” pedia em desespero.
O portão estava a poucos metros quando uma voz masculina, alguns metros atrás, ecoou rispidamente.
— Ei! Você aí! Pare agora, desgraçada!
O coração de Camila falhou um compasso.
Mas ela não parou, porque se parasse, nunca mais veria sua filha.
Correndo desesperadamente, ignorando o pavor que ameaçava petrificá-la, e também seus machucados mal cicatrizados, ignorando o peso de sua bebê e a fraqueza de seu corpo debilitado. O vento da pista castigava o rosto de Camila quando ela dobrou a última esquina antes do hangar.
O vento da pista chicoteou seu rosto.
À frente, o jato particular aguardava. Porta aberta. Motor ligado, roncando como um aviso.
“Vá agora e proteja sua filha!”
Camila correu, mesmo sem saber se era salvação… ou armadilha.
Mas, enquanto avançava, uma pergunta rasgava sua mente, violenta, impossível de silenciar:
E se aquela não fosse uma fuga… mas o último erro que custaria a vida da única pessoa que ela ainda tinha para salvar?







