Mundo de ficçãoIniciar sessãoTiciano
O vento fresco da noite batia em seu rosto como uma carícia insidiosa. Ticiano apertou as rédeas de Titano, seu belo cavalo maremmano negro, que passou a correr mais rápido, como se a raiva de seu cavaleiro impulsionasse seus cascos potentes.
Cortando as colinas estreladas, ele sentia sua garganta arder e seu maxilar ficar cada vez mais cerrado.
O que ela estava tramando?
Já fazia dois dias que aquela ordinária tinha chegado a Florença, e até agora ela não tinha dado um passo em direção a Villa Amiata.
Ticiano instigou Titano outra vez. O vento cortou sua pele, mas ele não sentiu e nem diminuiu o ritmo. O corpo seguia em frente enquanto a cabeça se recusava a descansar. Desde que soube que Camila estava na Itália, não conseguia se concentrar em nada.
Camila...
“Que tipo de armadilha você acha que vai me fazer cair dessa vez, sua ordinária?”
Pensou puxando o ar com força, franzindo o cenho. O mero pensamento sobre aquela maldita mulher, fazia seus ombros ficarem rígidos, seu sangue ferver, e seu autocontrole desaparecer.
Deu a volta pelas divisões da propriedade, descendo a campina em direção à estrada do vale. A lua cheia iluminava o caminho ladeado de ciprestes centenários. Mesmo com a estrada tomada pelas sombras das árvores, ele conhecia aquele território como a palma de sua mão.
Não pretendia voltar ainda. A noite insone era consequência direta de saber que Camila estava ali, tão perto, andando pelas mesmas ruas que ele.
Ela não sabia, não poderia nem mesmo supor, que estava agora em terras que pertenciam a sua família a gerações, e ali, ninguém chegava ou partia sem que ele soubesse.
A villa ficava ao sul de Florença, e ele não era estupido para crer que a presença de Camila, a mulher que o traiu da forma mais cruel e imunda, naquela cidade, era uma coincidência.
Assim, ele pretendia deixá-la dar o primeiro passo.... para sua própria ruína! Os dedos se fecharam ainda mais nas rédeas.
“Você vai pagar caro por vir aqui, maledetta.” Pensou,sentindo o peito doer como se algo estivesse prestes a romper furiosamente.
Ao longe, no alto de uma das colinas cercadas por oliveiras, a construção antiga surgia imponente. As luzes acesas nas janelas altas destacavam as varandas floridas. Ali ele havia erguido seu império, sustentado por controle e legado.
Pensou que o tempo apagaria tudo, mas não apagou.
Não havia um único dia em que não sentisse o corpo reagir ao pensamento de Camila. O estômago se contraía. Os ombros ficavam tensos imediatamente. Dormir se tornou um exercício de resistência. Ela se tornou um veneno em seu sangue, uma maldita doença na qual não conseguia se livrar.
O galope o levou à estrada inclinada, sobre a ponte de pedra que cruzava o riacho. Assim que a atravessou, algo chamou sua atenção. Um movimento rápido nos arbustos próximos ao portão principal.
A Villa Amiata não tinha guardas, não era um castelo, mas havia um vigia noturno que monitorava situações inoportunas com animais nos arredores.
Ticiano diminuiu o trote. Fez um som curto para Titano, que parou atrás de uma árvore robusta. Saltou do cavalo, os pés firmes no chão, os músculos atentos.
O arbusto mexeu novamente.
Não era um animal.
Uma figura envolta em um manto escuro avançava em direção ao portão. Ela se virou para olhar em volta se certificando de que não tinha ninguém. E naquele momento, Ticiano foi golpeado violentamente no estômago ao ver aquele rosto novamente.
Era ela.
O corpo reagiu antes da mente. A respiração falhou, presa na garganta, queimando como brasas. O peito se expandiu de forma dolorosa. Os braços ficaram rígidos ao lado do corpo, como se estivessem prontos para partir o mundo em mil pedaços.
Sem sombra de dúvidas.... o seu tormento e rancor, o motivo de sua insônia, e febre que o queimava inclementemente...
Camila…
Ela ajoelhou-se na terra solta, o rosto molhado pela neblina e pelas lágrimas. Com mãos trêmulas, depositou cuidadosamente no chão o que carregava.
Uma cesta.
O sangue pulsou forte nas têmporas de Ticiano, fazendo sua visão estreitar por um instante.
Em silêncio, amarrou Titano ao galho grosso da árvore. O cavalo respirava baixo, inquieto. Ticiano avançou, cada passo pesado, medido, sentindo os músculos das pernas tensionarem.
Ele se perguntava, que espécie de insanidade a levaria até ali, no meio da noite, ajoelhada na terra como alguém em penitência.
O que diabos ela estava fazendo ali?
Mas a poucos passos de se revelar, o mundo pareceu ruir sob seus pés quando ouviu um som distinto e incoerente para aquela cena. Um balbucio baixo, frágil e infantil.
Ticiano se deteve, descrente do que estava ouvindo.
A cesta continha um bebê.
-Não tenha medo, meu amor… ninguém vai te fazer mal. Aqui você vai estar segura… e vai ser feliz… muito feliz… eu te amo, minha pequena.
Por um instante absurdo, algo naquela cena não fez sentido, mas ele esmagou a ideia antes que criasse raízes.
Ele a ouviu sussurrar, a voz quebrada, quase inaudível.
Sua sombra se projetou sobre ela, densa e ameaçadora, e mesmo sem se virar, viu o corpo feminino se encolher, instintivamente, ao perceber que foi descoberta.
— O que diabos você pensa que está fazendo? — a voz de Ticiano cortou a noite como lâmina.
Camila ficou imóvel, rígida como pedra.
Sem esperar resposta, agarrou seus ombros, obrigando-a a encará-lo. Ela parecia outra pessoa, mais magra, mais pálida, mas ele se recusou a se deixar enganar.
— Olhe para mim! — ordenou, sacudindo-a. — Você pretendia abandonar o seu filho na minha porta, na calada da noite?! Que tipo de mãe você é?!
Ela manteve os olhos baixos, o corpo tremendo violentamente, lágrimas silenciosas despencando sem controle.
— Eu não posso ficar com ela… — murmurou, quase sem voz. — Você é a única pessoa em quem confio para protegê-la… por favor…
O corpo de Ticiano reagiu antes que ele pensasse. Os braços se retesaram, puxando-a para mais perto.
— Como você ousa me pedir qualquer coisa?!
O choro dela virou soluços entrecortados.
— Só você pode… por favor… eu te imploro…
Ele segurou o maxilar dela com brutalidade, forçando-a a erguer o rosto.
— Você! Sua maledetta...
O choro do bebê o interrompeu.
O som atravessou a noite, quebrando a tensão do ar. Ticiano virou o rosto sem querer.
Camila se abaixou imediatamente, ignorando tudo, e tomou a criança nos braços, embalando-a com palavras sussurradas.
A luz do portão iluminou o rostinho rosado que chorava em protesto.
Ele parou.
O corpo ficou imóvel.
Ticiano ficou imóvel, perplexo, como se algo descomunal o golpeasse no estômago.
A criança não era um recém-nascido… e não tinha os traços da mãe.
Ela tinha os dele.
O mesmo vinco entre as sobrancelhas. O mesmo desenho da boca firme que ele conhecia no próprio reflexo. E uma pinta no queixo ... .exatamente como a dele.
Camila tentou acalmar o bebê, mas o choro só aumentava. Ticiano cruzou os braços, os dedos batendo contra o antebraço em um movimento seco.
Camila se abaixou lentamente, se sentando no chão de terra batida, entre gravetos e vegetação rasteira. Ela levou o rosto da criança em direção aos seios, e Ticiano ficou alucinado ao perceber que aquela mulher pretendia amamentar uma criança ali, sentada na terra, sob o sereno da noite.
Ele praguejou, quase como um animal rosnando.
- O que pensa que está fazendo, Camila?! – perguntou entre dentes
- Ela está com fome... eu preciso…
Ele a puxou pelo braço, levantando-a sem esforço, ajustando a posição para não pressionar a criança. Segurou-a com firmeza e a arrastou portão adentro.
O vigia acordou assustado.
- Marco! Leve o meu cavalo para o estábulo. Ele está amarrado no carvalho. – A ordem saiu rápido. Em um italiano fluente carregado.
— Por favor… me solte… eu vou embora…
Ticiano empurrou-a para dentro da casa principal. A porta se fechou atrás deles com um som seco.
— Péssima notícia para você, Camila.
O corpo dele bloqueava a saída.
— Você não pode, maledetta!
A madeira pesada gemeu quando a porta se fechou, e o som do trinco encaixando soou alto demais no silêncio.
Camila virou num impulso ridículo de fugir, ainda com a criança nos braços. A maçaneta não cedeu.
Não porque estivesse trancada por chave. Mas porque Ticiano já estava ali, parado diante dela, ocupando o espaço inteiro da entrada, como um muro.
Ela apertou Nina contra o peito.
— Por favor… — a voz saiu falhada. — Eu só…
— Não. — Ticiano cortou, sem elevar o tom.
Ele deu um passo lento, e Camila recuou instintivamente. O chão pareceu inclinar sob seus pés. O bebê choramingou, e Ticiano lançou um olhar rápido para a criança, um único segundo de atenção, antes de voltar os olhos para Camila.
— Você entrou na minha casa com uma criança que tem a minha cara — disse, cada palavra medida. — Achou que podia decidir sozinha o que eu faria com isso?
Camila tentou falar, mas não saiu nenhum som.
— A partir de agora, você não dá um passo sem a minha permissão.
O ar faltou.
— Eu vou embora… — ela tentou, fraca. — Eu juro…
Ticiano inclinou o rosto, e a voz dele veio baixa, perigosa.
— Você não vai a lugar algum!







