Quando Fugir Não É Suficiente

Antes que ela pudesse tomar fôlego, um grito rasgou a madrugada por trás dela.

— Ali! Eu vi ela entrar no corredor!

O som fez seus músculos travarem por um instante que ela não tinha. Nina despertou com o impacto da corrida e começou a chorar alto, o rostinho molhado de lágrimas, assustada pela súbita agitação.

— Shhh, meu amor… — Camila murmurou, os pulmões ardendo, a voz trêmula. — Só mais um pouquinho… já vai passar… mamãe vai te tirar daqui, eu prometo…

A mala quicou atrás dela enquanto acelerava, pesada demais agora. Os passos dos homens ecoavam mais perto, rápidos, organizados. A sombra deles se estendeu pela parede de concreto quando dobraram a mesma curva segundos depois dela.

O medo subiu pela garganta de Camila junto com o gosto metálico da náusea. Eles tinham visto. Não havia mais esconderijo. Só correr.

Ela puxou o ar com dificuldade, a visão estreitando, e se apressou, quase tropeçando, com Nina no colo e o braço cedendo sob o peso. O coração batia fora de ritmo. O hangar estava ali, a menos de cinco metros, iluminado, aberto.

Perto demais, ao seu alcance…

Dois dos homens mudaram a rota, correndo em diagonal.

Eles estavam tentando cercá-la.

— Merda… — sussurrou, o pânico apertando suas costelas.

Nina chorava sem parar, um choro abafado, cortado. Camila beijou a têmpora da filha enquanto avançava.

— Calma… calma… falta pouco… mamãe tá aqui…

Foi então que ela viu.

Um carrinho elétrico de manutenção da pista, parado ao lado do hangar, luzes acesas, abandonado às pressas. Camila não tinha força para lutar. Mal conseguia manter-se em pé. Não tinha tempo para pedir ajuda.

Mas ainda sabia pensar.

Desviou o curso, fingindo correr diretamente para o jato.

— Ela tá indo pro avião! — um deles gritou. — Segura! Temos que pegá-la antes da polícia!

Era exatamente isso que ela queria que acreditassem.

O coração martelando, Camila fez algo que exigiu mais frieza do que coragem: soltou a mala. O objeto prateado deslizou pelo chão como isca, tombando a poucos metros da escada do jato.

Sem hesitar, com Nina presa contra o peito, ela se jogou atrás de uma pilha de caixas metálicas próximas ao carrinho elétrico, sumindo da linha de visão dos perseguidores.

Instinto…

Ou… sobrevivência,  aprendida no terror.

Os homens avançaram direto para a mala.

— A bagagem dela! Ela tava aqui! — um deles gritou.

— Cadê essa louca? — outro vociferou. — O senhor C. vai fazer a gente pagar!

O nome fez o estômago de Camila se contrair.

Eles gritavam ordens, chamavam reforços. Um deles chutou a mala para o lado enquanto vasculhavam o interior e os arredores do jato.

— Se ela escapar, estamos mortos!

Foi a distração perfeita.

Abaixada, Camila ficou imóvel, o corpo tremendo involuntariamente. O coração batia tão alto que ela temia que pudessem ouvir. Nina se mexeu, soluçando baixo.

— Shhh… só um segundo… — Camila murmurou, o suor frio escorrendo pela espinha.

Com dedos trêmulos, abriu os botões da camisa e ofereceu o seio à filha. Nina se acalmou aos poucos, sugando com urgência. Camila mordeu o lábio para não chorar.

O barulho dos homens subindo a escada do jato soou como uma sentença. Ordens ríspidas. Passos pesados.

— Não tem ninguém aqui! — alguém gritou.

O piloto elevou a voz.

— Se não saírem agora, eu chamo a polícia federal!

Camila fechou os olhos.

— Isso… isso… vamos… — murmurou, quase sem som.

Quando finalmente desceram a escada de embarque, um deles gritou irritado:

— ELA NÃO TÁ AQUI! PROCUREM NA PISTA! — cuspiu. — Se a vadia e a criança não forem encontradas, vocês sabem o que o chefe faz com quem não cumpre suas ordens!

Era agora ou nunca.

Quando eles se separaram, Camila saiu do esconderijo e correu para a escada de embarque.

O copiloto já estava na porta, gesticulando com urgência.

— Rápido! Eles chamaram reforços pelo rádio ! E a polícia federal está vindo para a pista!

Ela correu com Nina no colo, a garganta em fogo, o mundo girando. O piloto a puxou pela mão e a ajudou a subir as escadas estreitas.

— Apertem o cinto e se segurem — ordenou. — Vamos decolar agora!

Quando se sentou na poltrona e o ronco do motor aumentou, Camila finalmente deixou o ar escapar. Nina, exausta e de barriguinha cheia, encostou a cabeça em seu peito e voltou a dormir.

Camila beijou a testa da filha, as lágrimas caindo agora, silenciosas.

— Acabou, meu amor… agora você vai ficar segura…

O jato ganhou velocidade pela pista. Lá fora, os homens corriam, gritavam, apontavam para os agentes da polícia federal que chegavam tarde demais.

Quando a aeronave deixou o chão, Camila fechou os olhos.

Tinham conseguido.

Mas a fuga não era o fim.

Era só o começo de algo pior. Algo que nunca quis enfrentar…

A imagem veio sem pedir permissão. Um homem de olhar duro, amor transformado em ódio perpétuo.

Ticiano.

— Precisamos de você… — sussurrou, a voz quebrada. — Por favor… não feche a porta pra nós…

O jato cortou a noite em direção à Itália.

Estava voando direto ao encontro de um homem que não fazia ideia de que aquela criança existia.

Camila apertou Nina contra o peito, sentindo o calor pequeno e frágil da filha, como se aquele corpo fosse tudo o que ainda a mantinha de pé.

Ela tinha fugido de homens armados.

Tinha fugido da polícia.

Mas não tinha fugido do passado.

A pergunta veio como um golpe, fria e inevitável, fazendo seu estômago se contrair.

E se Ticiano decidisse fazê-la pagar por ter escondido a existência de Nina?

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