Mundo de ficçãoIniciar sessãoO sino de vigia ecoou três vezes.
Não era um toque de emergência.
Era um aviso reservado para visitantes que conseguiam atravessar a barreira de proteção do vale.
Orion ergueu imediatamente a cabeça.
Seu rosto endureceu.
— Isso não é possível...
Os guerreiros abandonaram seus postos de descanso e correram para os portões internos.
Arcos foram preparados.
Espadas deixaram as bainhas.
Em poucos instantes, mais de cinquenta guardas cercavam a entrada principal da vila.
Elara acompanhava tudo ao lado de Seraphine.
— O que significa esse toque?
A anciã manteve os olhos fixos na floresta.
— Significa que alguém entrou sem romper a barreira.
— Isso é tão grave assim?
— Muito.
Ela respirou lentamente.
— A barreira reconhece qualquer energia desconhecida.
Mesmo um pássaro encantado é impedido de atravessá-la.
— Então...
— Quem entrou conhece a magia utilizada para construí-la.
Cedric aproximou-se carregando um enorme machado.
— Ou ajudou a construí-la.
O comentário fez Seraphine estreitar os olhos.
Havia apenas uma forma de alguém conhecer todos os segredos daquele lugar.
Traição.
Na entrada do vale...
Uma mulher caminhava sem demonstrar qualquer pressa.
Usava uma capa cinza coberta pela poeira da estrada.
O capuz escondia quase todo o rosto.
As botas estavam gastas.
Parecia uma viajante comum.
Mesmo assim...
Nenhum dos lobos negros avançava.
Os animais apenas observavam.
Em silêncio.
Orion deu alguns passos à frente.
— Pare onde está.
A mulher obedeceu.
Levantou lentamente as mãos.
— Não vim lutar.
A voz era firme.
Segura.
Havia maturidade em cada palavra.
Orion não abaixou a espada.
— Diga seu nome.
A desconhecida permaneceu calada durante alguns segundos.
Depois afastou o capuz.
Longos cabelos castanhos caíram sobre seus ombros.
Seu rosto possuía pequenas cicatrizes próximas ao queixo.
Os olhos, porém, chamavam atenção.
Eram completamente dourados.
Não havia nenhum traço da cor comum entre os lobos.
Ao vê-la, Seraphine perdeu a serenidade.
Deu um passo à frente.
Outro.
Os lábios entreabriram-se.
— Não...
A mulher sorriu discretamente.
— Faz muitos anos, Seraphine.
Cedric arregalou os olhos.
— Você...
Não pode ser...
Orion olhava de um para o outro sem entender.
— Alguém pode explicar o que está acontecendo?
Seraphine respirou profundamente.
Sua voz saiu quase como um sussurro.
— Ela se chama Evelyn.
Elara percebeu algo estranho.
A anciã não demonstrava medo.
Nem alegria.
Parecia completamente confusa.
— Vocês se conhecem?
Evelyn desviou os olhos para Elara.
Assim que a encarou, seu semblante mudou.
Uma emoção intensa atravessou seu rosto.
Ela sorriu.
Um sorriso carregado de saudade.
— Então é você...
Elara franziu a testa.
— Nós já nos vimos?
A mulher balançou a cabeça.
— Não.
Mas esperei por este encontro durante muitos anos.
Mais tarde...
Todos estavam reunidos na grande sala do conselho.
Nenhum guerreiro havia sido dispensado.
A tensão permanecia no ar.
Evelyn sentava-se diante da enorme mesa de pedra.
Mesmo cercada por soldados armados, permanecia tranquila.
Seraphine ocupava o lugar central.
— Comece.
A visitante cruzou as mãos.
— Imagino que tenham muitas perguntas.
Cedric respondeu imediatamente.
— A principal delas é simples.
Você desapareceu há vinte e oito anos.
Todos acreditavam que estivesse morta.
Evelyn sorriu sem humor.
— Morta teria sido mais fácil.
O silêncio voltou.
Elara observava atentamente aquela mulher.
Havia alguma coisa familiar nela.
Não conseguia explicar.
Era apenas uma sensação.
Seraphine quebrou o silêncio.
— Onde esteve esse tempo todo?
— Presa.
— Por quem?
— Pelo Conselho dos Supremos.
Orion bateu a mão sobre a mesa.
— Isso é impossível.
— Também pensei.
Ela voltou o olhar para ele.
— Até descobrir quantas prisões secretas existem espalhadas pelas montanhas.
Ninguém respondeu.
Evelyn respirou fundo.
— Fugi há três meses.
Passei esse tempo tentando confirmar uma única informação.
Ela olhou diretamente para Elara.
— O selo realmente despertou.
Elara apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Você sabe quem eu sou?
A mulher sorriu.
— Muito mais do que imagina.
Essas palavras fizeram o coração da jovem acelerar.
Seraphine percebeu.
— Evelyn...
Pense cuidadosamente antes de responder.
A visitante assentiu.
— Eu sei.
Voltou a olhar para Elara.
— Você acredita que seus pais morreram quando era pequena.
Elara confirmou com a cabeça.
— Sim.
— Disseram que eles foram atacados por caçadores.
— Foi isso que aconteceu.
Evelyn respirou lentamente.
— Não.
A sala inteira ficou em silêncio.
— Seus pais foram assassinados.
Elara sentiu o estômago se contrair.
— O quê?
— Eles descobriram uma conspiração envolvendo o Conselho dos Supremos.
Por isso precisavam morrer.
Elara levantou-se.
— Não.
Minha mãe...
Meu pai...
Evelyn interrompeu com delicadeza.
— As pessoas que criaram você realmente amavam você.
Nunca duvide disso.
Mas eles não eram seus pais biológicos.
O mundo pareceu parar.
Elara tentou falar.
Nenhuma palavra saiu.
Seraphine fechou os olhos.
Ela já conhecia aquela verdade.
Apenas aguardava o momento certo para revelá-la.
Evelyn continuou.
— Sua verdadeira família foi caçada durante anos.
Alguns morreram.
Outros desapareceram.
Pouquíssimos sobreviveram.
Cedric aproximou-se da mesa.
— Quem ordenou essa perseguição?
A visitante respondeu sem hesitar.
— Não foi apenas um Supremo.
Foram vários.
Todos acreditavam que exterminar a linhagem da Lua Negra impediria o retorno da Rainha.
Orion franziu a testa.
— Então por que Elara sobreviveu?
Evelyn olhou para a jovem com carinho.
— Porque alguém a levou embora na noite do massacre.
Elara respirava cada vez mais rápido.
Seu peito apertava.
Seu coração parecia querer escapar.
— Quem?
A mulher levantou-se lentamente.
Aproximou-se dela.
Parou a poucos centímetros.
Levantou cuidadosamente a mão.
Com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Elara.
Sorriu.
Um sorriso emocionado.
— Eu.
As pernas de Elara enfraqueceram.
Precisou apoiar-se na mesa.
— Você...
Me conhecia quando eu era bebê?
Lágrimas surgiram nos olhos dourados de Evelyn.
— Conhecia.
— Como?
Ela demorou alguns segundos para responder.
Era como se também lutasse contra as próprias emoções.
Então falou.
— Porque eu prometi à sua mãe que protegeria você.
Elara sentiu um nó na garganta.
Desde que perdera tudo, tentava convencer a si mesma de que estava sozinha.
Agora descobria que existia alguém ligado ao seu passado.
Alguém que conhecera sua verdadeira família.
— Quem era minha mãe?
Evelyn sorriu entre lágrimas.
— Uma mulher extraordinária.
Corajosa.
Teimosa.
Generosa.
Ela lutaria contra um exército inteiro apenas para ver você sorrir.
Elara apertou os olhos.
As lágrimas finalmente escaparam.
— Qual era o nome dela?
A resposta demorou apenas um instante.
Mas mudaria completamente sua vida.
— Aurora Raven.
Rainha legítima da Lua Negra.
Filha da soberana Lyra.
E...
Sua mãe.
Antes que alguém pudesse reagir, um estrondo sacudiu toda a construção.
As paredes tremeram.
Poeira caiu do teto.
Um segundo impacto veio logo em seguida.
Muito mais forte.
Orion correu até a janela.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— Não...
Cedric aproximou-se rapidamente.
— O que aconteceu?
O capitão apontou para a montanha.
Uma parte da barreira mágica havia desaparecido.
No enorme vão aberto entre as rochas, centenas de guerreiros avançavam em direção ao vale.
Não carregavam o brasão do Norte.
Nem do Oeste.
Nem do Sul.
Suas armaduras exibiam um símbolo desconhecido.
Uma lua vermelha atravessada por uma espada negra.
Evelyn fechou os olhos por um breve instante.
Quando tornou a abri-los, sua voz saiu carregada de preocupação.
— Eles chegaram antes do esperado.
Seraphine segurou firmemente o cabo da espada.
— Quem são eles?
Evelyn respondeu enquanto observava o exército invadir o vale.
— O verdadeiro inimigo da Lua Negra.
A Ordem da Lua Rubra.
E eles não vieram negociar.
Vieram terminar o massacre que começou vinte e cinco anos atrás.







