Capítulo 9 – O Sangue da Rainha

O som dos chifres de guerra ecoou por todo o vale.

Longo.

Grave.

Urgente.

As pessoas que até poucos minutos caminhavam tranquilamente entre as casas correram para os abrigos subterrâneos.

As crianças foram retiradas das ruas.

As curandeiras transformaram a enfermaria em um centro de emergência.

Enquanto isso, os guerreiros da Lua Negra ocupavam rapidamente suas posições.

Elara permanecia imóvel diante da janela.

Do alto da colina, conseguia enxergar centenas de soldados atravessando a passagem aberta na barreira mágica.

Todos usavam armaduras negras adornadas por um símbolo vermelho em forma de lua crescente.

A Ordem da Lua Rubra.

O nome ainda parecia distante.

Mas a ameaça era real.

— Como conseguiram romper a barreira? — perguntou ela.

Seraphine mantinha os olhos fixos no exército inimigo.

— Não romperam.

— Então...

— Alguém abriu o caminho por dentro.

A resposta fez o ambiente voltar a mergulhar em silêncio.

Mais uma vez.

Havia um traidor entre eles.

Cedric apertou o cabo do machado.

— Fechem todos os acessos internos.

Ninguém entra ou sai da vila sem minha autorização.

Os guardas partiram imediatamente.

Orion caminhou até o grande mapa preso à parede.

Rapidamente começou a distribuir pequenos marcadores de madeira.

— Eles estão divididos em três grupos.

O primeiro seguirá pela estrada principal.

O segundo tentará cercar o riacho.

O terceiro...

Franziu a testa.

— Não faz sentido.

Elara aproximou-se.

— O que foi?

Ele apontou para o mapa.

— Esse grupo não está vindo para atacar.

Está contornando o vale.

Seraphine compreendeu antes dos demais.

— Procuram o Santuário.

Evelyn fechou os olhos por um instante.

— Eles sabem.

— Sabem exatamente onde a espada despertou.

Do lado de fora...

O comandante da Ordem da Lua Rubra caminhava lentamente entre seus soldados.

Era um homem alto.

Os cabelos completamente brancos contrastavam com a armadura escura.

Uma longa cicatriz atravessava seu rosto, do supercílio até a mandíbula.

Os olhos possuíam um tom avermelhado incomum.

Ele observava o vale com expressão serena.

Como quem visitava um lugar conhecido.

Um guerreiro aproximou-se.

— Lorde Magnus.

Encontramos resistência na passagem norte.

O homem nem sequer desviou o olhar.

— Quantos?

— Cerca de cinquenta guardas.

Magnus sorriu.

— Então eliminem cinquenta guardas.

Não cinquenta vidas.

Existe diferença.

O soldado hesitou.

— Senhor...

Recebemos outra informação.

— Fale.

— A herdeira realmente está aqui.

Magnus respirou profundamente.

Durante anos ouvira rumores.

Agora tinha certeza.

— Finalmente.

A rainha saiu do esconderijo.

Levantou lentamente a mão.

Um enorme lobo negro aproximou-se.

Mas aquele animal era diferente dos demais.

Os olhos brilhavam em vermelho.

Veias escuras percorriam seu corpo.

O pelo parecia absorver a luz ao redor.

Magnus acariciou sua cabeça.

— Encontraremos você antes dos Supremos.

Nem que seja preciso incendiar este vale inteiro.

No centro da vila...

Elara vestia uma armadura leve feita de couro negro.

Não era pesada como as utilizadas pelos guerreiros.

Mesmo assim, limitava um pouco seus movimentos.

Amélia ajustava cuidadosamente as presilhas.

— Ainda está apertando?

— Um pouco.

A curandeira sorriu.

— Melhor apertada do que larga.

Você ainda vai agradecer quando alguma espada tentar atravessar esse couro.

Elara soltou uma pequena risada.

Era curioso como aquelas pessoas conseguiam manter certa leveza até nos momentos mais difíceis.

A porta abriu-se.

Orion entrou carregando a espada da Lua Negra.

Parou diante dela.

— Está na hora.

Ela observou a arma.

Ainda não se acostumara com a sensação que ela provocava.

Sempre que a segurava, algo parecia despertar dentro de si.

Recebeu a espada com cuidado.

Assim que seus dedos tocaram o cabo...

O símbolo em seu pulso brilhou.

Desta vez, porém, aconteceu algo diferente.

Uma corrente de energia percorreu toda a lâmina.

As runas gravadas no metal começaram a emitir uma luz prateada.

Orion arregalou os olhos.

— Ela está respondendo.

Elara olhou confusa para Seraphine.

— Isso é normal?

A anciã balançou lentamente a cabeça.

— Não.

Antes que pudesse explicar, uma voz ecoou do lado de fora.

— Capitão!

Todos saíram rapidamente da cabana.

Um dos batedores aproximava-se montado em um enorme lobo cinzento.

Saltou do animal antes mesmo que ele parasse completamente.

Respirava com dificuldade.

— Eles chegaram ao rio.

Orion respondeu imediatamente.

— Quantos minutos?

— Menos de dez.

Cedric ergueu o machado.

— Às posições.

O vale inteiro começou a se mover.

Os arqueiros ocuparam as muralhas escondidas entre as árvores.

Os lanceiros formaram duas linhas diante da ponte principal.

Ferreiros distribuíam armas aos guerreiros mais jovens.

Ninguém gritava.

Cada pessoa conhecia sua função.

Elara observava tudo enquanto caminhava ao lado de Seraphine.

— O que eu devo fazer?

A mulher olhou diretamente para ela.

— Sobreviver.

— Apenas isso?

— Hoje, sim.

A guerra ainda não é sua.

Ela franziu a testa.

— Mas eles vieram atrás de mim.

— Exatamente.

Por isso não pode morrer.

No outro lado do vale...

Magnus parou diante da antiga ponte de pedra.

Observou calmamente a formação defensiva.

Sorriu.

— Melhor do que imaginei.

Um guerreiro aproximou-se.

— Devemos atacar?

Magnus negou.

— Ainda não.

Ele ergueu a voz.

— Seraphine!

O nome ecoou por todo o vale.

Alguns segundos depois, a anciã surgiu acompanhada por Orion, Cedric e outros guerreiros.

Parou diante da ponte.

— Magnus.

Fazia muito tempo.

O comandante inclinou discretamente a cabeça.

— Continua viva.

— Para sua infelicidade.

Ele riu.

Uma gargalhada baixa.

Controlada.

— Sempre admirei sua coragem.

Seraphine não respondeu.

Magnus voltou o olhar para os guerreiros.

Depois procurou alguém entre eles.

Até encontrar Elara.

Os dois permaneceram encarando um ao outro durante alguns segundos.

A expressão dele mudou completamente.

Não havia ódio.

Nem desprezo.

Havia fascínio.

— Então...

Você realmente se parece com Aurora.

Elara sentiu um arrepio.

— Você conheceu minha mãe?

Magnus sorriu.

— Muito bem.

O coração dela disparou.

— Onde ela está?

O sorriso desapareceu.

— Morta.

As palavras atingiram Elara como um golpe.

Magnus continuou sem qualquer emoção.

— Eu estava presente quando ela caiu.

O silêncio tornou-se absoluto.

Seraphine deu um passo à frente.

— Não o escute.

Mas Magnus não havia terminado.

— Sua mãe lutou como uma verdadeira rainha.

Matou dezenas dos meus homens.

Feriu meu braço.

Quase arrancou minha cabeça.

Levantou lentamente a manga da armadura.

Uma enorme cicatriz atravessava todo o antebraço.

— Ela deixou essa lembrança.

Elara apertou o cabo da espada.

As mãos tremiam.

Magnus percebeu.

— Tem o mesmo olhar dela.

O mesmo orgulho.

Fez uma breve pausa.

— Espero que lute tão bem quanto Aurora.

Porque...

Desta vez...

Não haverá ninguém para salvar você.

Ele ergueu lentamente a espada.

No mesmo instante, milhares de soldados da Lua Rubra bateram suas lanças contra os escudos.

O som fez o vale inteiro estremecer.

Orion desembainhou a espada.

Cedric ergueu o machado.

Os arqueiros posicionaram as flechas.

Seraphine permaneceu imóvel.

Seu olhar nunca deixou Magnus.

Então ela falou apenas duas palavras.

— Protejam Elara.

Antes que qualquer guerreiro pudesse responder, um clarão dourado atravessou o céu.

Algo caiu entre os dois exércitos com violência suficiente para abrir uma enorme cratera na ponte de pedra.

A explosão obrigou todos a recuar.

A poeira subiu rapidamente.

Quando começou a baixar, revelou a silhueta de um homem alto usando uma longa capa azul-escura.

Ele segurava uma lança de prata fincada no chão.

Atrás dele, dezenas de guerreiros aguardavam em absoluto silêncio.

Magnus estreitou os olhos.

Seraphine também.

Orion respirou fundo.

Elara nunca havia visto aquele homem.

Mas percebeu imediatamente que sua presença era diferente.

Ele caminhou alguns passos à frente.

A voz grave ecoou por todo o vale.

— Esta batalha termina agora.

Magnus sorriu com evidente irritação.

— Achei que você chegaria mais tarde.

O recém-chegado retirou lentamente o capuz.

Cabelos castanho-escuros caíram sobre seus ombros.

Os olhos, de um azul intenso, fixaram-se diretamente em Elara.

Então ele fez algo que ninguém esperava.

Ajoelhou-se diante dela.

Inclinou a cabeça.

E declarou diante de ambos os exércitos:

— Eu sou Lucien Valerius, Supremo Alfa do Oeste.

Minha família jurou proteger a Rainha da Lua Negra até o último suspiro.

E eu vim cumprir esse juramento.

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