Mundo de ficçãoIniciar sessãoA enorme passagem permaneceu aberta.
Nenhum dos guerreiros atravessou seus limites imediatamente.
A avenida de mármore negro estendia-se montanha adentro como se tivesse sido construída no dia anterior. Não havia poeira sobre o chão. As colunas permaneciam intactas. Os cristais presos às paredes irradiavam uma luz azulada e suave, suficiente para iluminar cada detalhe daquele caminho.
O mais impressionante era o silêncio.
Não existia cheiro de abandono.
Nem sinais de ruínas.
Arkan parecia apenas adormecida, aguardando o retorno de alguém.
Elara permaneceu observando a entrada.
Seu peito apertava de uma forma estranha.
A cidade lhe parecia familiar.
Não como uma lembrança completa, mas como uma saudade impossível de explicar.
Mirena caminhou até ficar ao seu lado.
— Está sentindo?
Elara assentiu.
— Parece que uma parte de mim sempre pertenceu a este lugar.
A sacerdotisa sorriu.
— Porque pertence.
Nythar aproximou-se lentamente.
Suas enormes patas faziam o chão vibrar a cada passo.
Ele inclinou a cabeça diante da entrada da cidade.
Todos o observaram.
O último Dragão Lunar nunca havia demonstrado reverência diante de ninguém.
Mas, naquele momento, curvou-se.
— Estou em casa.
Suas palavras ecoaram pelo corredor.
Logo depois, um som metálico respondeu ao gesto.
As colunas começaram a brilhar.
Runas douradas surgiram em toda a extensão das paredes.
A cidade parecia reconhecer seus antigos habitantes.
Lucien deu um passo à frente.
— Então vamos entrar.
Mirena ergueu a mão.
— Esperem.
Todos pararam.
— Arkan nunca recebeu visitantes sem antes fazer uma pergunta.
Cedric olhou ao redor.
— Não estou vendo ninguém.
Ela respondeu calmamente.
— Não precisa haver alguém.
A cidade inteira é viva.
Como se atendesse às palavras da sacerdotisa, uma luz começou a percorrer o chão.
Ela avançou lentamente até formar um enorme círculo diante do grupo.
No centro dele surgiu uma figura feminina feita apenas de luz.
Não possuía corpo sólido.
Seu rosto era sereno.
Os cabelos longos pareciam feitos de pequenos fios luminosos.
As vestes lembravam as antigas rainhas retratadas nos livros.
Ela abriu os olhos.
Íris douradas.
Profundas.
Sem qualquer sinal de hostilidade.
A voz era suave.
— Sejam bem-vindos à Cidade Eterna.
Aiden apertou discretamente o cabo da espada.
Selene observava a figura com atenção.
Mirena deu um pequeno passo à frente.
— Ainda existe uma Guardiã da Entrada.
A mulher de luz inclinou levemente a cabeça.
— Minha função permanece inalterada.
Cassian aproximou-se.
— Quem é você?
— Sou Lyssara.
Guardião não.
Rainha também não.
Sou a Memória de Arkan.
Elara arregalou os olhos.
— Uma memória?
Lyssara sorriu.
— O verdadeiro povo desta cidade compreendeu que corpos desaparecem.
Conhecimento não.
Por isso transferiram parte de suas consciências para os pilares da cidade.
Vivemos enquanto Arkan permanecer de pé.
O grupo permaneceu em silêncio.
Até Aldren demonstrou surpresa.
Nem ele conhecia aquele detalhe.
Lyssara voltou sua atenção para Elara.
— Elyra de Arkan.
A herdeira sentiu um leve desconforto ao ouvir aquele nome novamente.
Ainda parecia estranho.
Como se pertencesse a outra pessoa.
— Não compreendo por que me chama assim.
A figura luminosa respondeu com paciência.
— Porque esse é o nome que recebeu ao nascer.
Elara respirou fundo.
— Aurora me chamou assim para esconder minha identidade?
— Não.
Ela apenas protegeu aquilo que sempre foi seu.
Mirena percebeu a confusão estampada no rosto da jovem.
— Explique melhor.
Lyssara caminhou alguns passos.
Embora seus pés não tocassem o chão, a ilusão era perfeita.
— Elara Ravencrest foi o nome usado para protegê-la durante os anos de perseguição.
Mas sua linhagem sempre carregou outro nome.
Elyra de Arkan.
Descendente direta das Guardiãs Eternas.
Kael observava tudo em silêncio.
A revelação fazia muitas peças se encaixarem.
Agora compreendia por que os poderes de Elara ultrapassavam os limites conhecidos das alcateias.
Ela nunca pertencera apenas à Lua Negra.
Sua origem era muito mais antiga.
A voz de Lyssara tornou-se mais séria.
— Antes de permitir a entrada de todos, preciso cumprir o protocolo.
Lucien franziu a testa.
— Que protocolo?
A mulher ergueu a mão.
Sete pequenos cristais surgiram ao redor do grupo.
Cada um começou a emitir uma luz diferente.
Azul.
Prata.
Dourado.
Negro.
Violeta.
Verde.
Branco.
— Arkan reconhece intenções.
Não títulos.
Não poder.
Nem sangue.
Cedric sorriu.
— Parece justo.
Lyssara continuou.
— Cada um será julgado pela própria essência.
Quem entrar carregando apenas ambição será rejeitado.
Quem desejar destruir a cidade jamais atravessará seus portões.
Orion cruzou os braços.
— E se alguém mentir?
A figura apenas sorriu.
— A cidade escuta pensamentos.
Ninguém respondeu.
O silêncio foi suficiente.
O cristal azul aproximou-se de Mirena.
Permaneceu diante dela durante alguns segundos.
Depois brilhou intensamente.
— Mirena.
Guiada pela esperança.
Entrada autorizada.
A sacerdotisa apenas inclinou a cabeça.
O cristal dourado dirigiu-se até Nythar.
A luz tornou-se tão intensa que iluminou todo o corredor.
— Nythar.
Guardião do Equilíbrio.
Entrada autorizada.
O enorme dragão permaneceu sereno.
Em seguida, outro cristal aproximou-se de Lucien.
— Lucien.
Coragem acima do orgulho.
Entrada autorizada.
Lucien sorriu discretamente.
Cedric recebeu seu julgamento logo depois.
— Cedric.
Lealdade acima do medo.
Entrada autorizada.
Orion.
Seraphine.
Aiden.
Magnus.
Todos foram aprovados.
Até Cassian.
Quando o cristal branco chegou diante dele, permaneceu imóvel por muito mais tempo.
Todos observavam em silêncio.
Por fim, Lyssara falou.
— Cassian.
Arrependimento verdadeiro.
Entrada autorizada.
Cassian fechou os olhos.
Jamais imaginara ouvir aquelas palavras.
Magnus sorriu discretamente.
Talvez ainda existisse um caminho para o antigo mestre.
Restavam apenas três pessoas.
Selene.
Kael.
E Aldren.
O cristal violeta aproximou-se de Selene.
Sua luz pulsou diversas vezes.
— Selene.
Proteção acima da vingança.
Entrada autorizada.
Ela respirou aliviada.
Então chegou a vez de Kael.
O cristal negro aproximou-se lentamente.
Ficou parado diante do Supremo do Norte.
Os segundos pareciam não passar.
Elara observava em silêncio.
Sem perceber, apertou os dedos.
A luz começou a oscilar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Lyssara permaneceu olhando para Kael.
Então anunciou:
— Kael Draven.
Culpa carregada sem fugir das consequências.
Entrada...
A luz apagou completamente.
Todo o corredor mergulhou na escuridão durante um breve instante.
Quando voltou a acender, Lyssara franziu a testa.
Aquilo jamais acontecera.
Ela repetiu a análise.
O cristal tornou a oscilar.
Mais intensamente.
Por fim, a resposta surgiu.
— Entrada autorizada...
Sob vigilância da Cidade.
Kael permaneceu imóvel.
— O que isso significa?
Lyssara respondeu sem hesitar.
— Seu coração mudou.
Mas ainda existe uma escolha que poderá definir quem você será.
O Supremo não insistiu.
Compreendeu que havia coisas que nem mesmo aquela guardiã podia explicar completamente.
Restava Aldren.
O líder dos Coletores caminhou calmamente até o centro do círculo.
Nenhum sinal de nervosismo.
Nenhum receio.
O cristal prateado aproximou-se dele.
No instante seguinte...
Estilhaçou.
O som ecoou por toda a avenida.
Todos sacaram as armas.
Lyssara deu um passo para trás.
Seu rosto perdeu completamente a serenidade.
Ela encarava Aldren como alguém que acabara de reconhecer uma ameaça esquecida.
— Isso é impossível...
Aldren franziu a testa.
— O que aconteceu?
Ela não respondeu.
Outros dois cristais aproximaram-se.
Também explodiram.
Runas começaram a surgir pelas paredes.
Sinos antigos tocaram ao longe.
Toda Arkan despertou.
A voz da guardiã ecoou pela cidade inteira.
Não era mais calma.
Era um aviso.
— Alerta máximo.
Alerta máximo.
Presença incompatível identificada.
Os enormes portões internos começaram a se fechar um após o outro.
Torres acenderam.
Estátuas de pedra espalhadas pelas avenidas abriram lentamente os olhos.
Centenas delas.
Talvez milhares.
Nythar ergueu a cabeça imediatamente.
— Não...
Mirena empalideceu.
— Os Sentinelas Eternos.
Lyssara voltou os olhos para Aldren.
Sua voz carregava um espanto impossível de esconder.
— Você não pertence ao mundo dos vivos...
Quem é você, de verdade?
O líder dos Coletores permaneceu imóvel.
Seu sorriso desapareceu.
Durante alguns segundos, pareceu lutar contra alguma coisa dentro de si.
Então levou lentamente a mão ao peito.
Sua pele começou a rachar.
Fios de luz dourada escapavam pelas fissuras, como se outro ser estivesse aprisionado dentro daquele corpo.
Ele fechou os olhos com força.
Quando voltou a abri-los, suas íris já não eram humanas.
Brilhavam em um dourado intenso.
Sua voz também havia mudado.
Mais grave.
Mais antiga.
— Essa resposta...
Nem eu consigo lembrar.







