Capítulo 30 – O Homem Sem Nome

As palavras de Aldren desapareceram entre as antigas muralhas de Arkan.

Ninguém abaixou a guarda.

Os Sentinelas Eternos continuavam despertando por toda a cidade. O som de engrenagens ocultas ecoava sob o mármore negro, enquanto dezenas de estátuas abandonavam a imobilidade. A pedra transformava-se lentamente em uma liga prateada, revelando guerreiros com armaduras gravadas por runas ancestrais.

Cada um carregava uma lança.

Cada um mantinha os olhos fixos em Aldren.

Não em Elara.

Não em Kael.

Nem em Cassian.

Somente nele.

Lyssara ergueu a mão.

Sua voz perdeu toda a delicadeza.

— Todos permaneçam onde estão.

Qualquer movimento contra os Sentinelas será interpretado como uma invasão.

Lucien baixou a lança apenas alguns centímetros.

— Eles vão atacá-lo?

— Se confirmarem a identificação...

Sim.

O silêncio tornou-se ainda mais pesado.

Aldren olhava para as próprias mãos.

As rachaduras luminosas aumentavam.

A luz dourada escapava por seus braços como pequenos rios, desenhando símbolos que nem Mirena conseguia reconhecer.

Ele respirava com dificuldade.

Como alguém que tentava impedir alguma coisa de despertar.

Magnus aproximou-se de Cassian.

— Mestre...

Cassian não desviou os olhos.

— Continue atento.

— Ele está mudando.

— Eu sei.

— É o Oráculo?

Cassian respondeu após alguns segundos.

— Não.

Se fosse, Arkan estaria tentando destruir aquela energia.

Mas os Sentinelas estão tentando capturá-la.

Isso significa que ainda existe uma chance.

Elara deu um passo à frente.

Kael segurou delicadamente seu braço.

Ela voltou o rosto para ele.

— É perigoso.

— Eu preciso entender o que está acontecendo.

Kael sustentou seu olhar por alguns instantes.

Depois soltou lentamente seu braço.

Não tentou impedi-la novamente.

Já compreendia que Elara jamais ficaria escondida enquanto alguém precisasse de ajuda.

Ela caminhou até parar a poucos metros de Aldren.

— Você realmente não sabe quem é?

O líder dos Coletores levou a mão à cabeça.

Seu rosto demonstrava dor.

— Existem lembranças...

Fragmentos.

Vozes.

Mas sempre desaparecem antes que eu consiga alcançá-las.

Elara percebeu que ele não mentia.

Mirena também.

A sacerdotisa aproximou-se.

— Há quanto tempo isso acontece?

— Desde que consigo recordar.

— E qual é sua memória mais antiga?

Aldren fechou os olhos.

Tentou buscar a resposta.

Depois falou lentamente.

— Escuridão.

Correntes.

E alguém dizendo...

Sua voz falhou.

As mãos começaram a tremer.

— "Você esquecerá quem é... para que ele nunca encontre seu nome."

Nythar abriu completamente as asas.

— Correntes do Esquecimento.

Lyssara voltou-se imediatamente para o dragão.

— Você as conheceu?

— Sim.

Foram proibidas antes da fundação da Lua Negra.

Selene franziu a testa.

— Eu nunca ouvi falar dessa magia.

Mirena respondeu.

— Porque todos os registros foram destruídos.

Nythar caminhou lentamente até Aldren.

Os dois ficaram frente a frente.

— Essa magia não apagava apenas memórias.

Apagava identidades.

Lucien compreendeu antes dos outros.

— Então Aldren...

O dragão confirmou.

— Talvez nunca tenha sido Aldren.

Os Sentinelas começaram a se mover.

Não corriam.

Avançavam lentamente.

Como se aguardassem uma ordem invisível.

As lanças apontavam para o líder dos Coletores.

Lyssara fechou os olhos.

Pequenas inscrições apareceram diante dela.

Ela parecia ler algo que apenas sua consciência podia enxergar.

Subitamente sua expressão mudou.

— Não...

Mirena percebeu.

— O que foi?

A guardiã respirou fundo.

— O sistema encontrou um registro.

Todos aguardaram.

— Identidade parcialmente restaurada.

Nome atual...

Aldren.

Nome verdadeiro...

As palavras desapareceram.

Como se alguma força tivesse apagado aquela informação antes que pudesse ser pronunciada.

As runas flutuando diante de Lyssara começaram a queimar.

Transformaram-se em cinzas.

Ela arregalou os olhos.

— Alguém continua apagando os registros...

Mesmo depois de tantos séculos.

Cassian apertou os punhos.

— O Oráculo.

Lyssara assentiu.

— Ele não apagou apenas pessoas.

Apagou a própria história.

Enquanto todos observavam Aldren, Elara sentiu o medalhão preso ao peito vibrar novamente.

Era diferente.

Mais intenso.

Ela retirou o objeto lentamente.

O pequeno cristal azul escondido em seu interior brilhava como nunca.

Uma voz suave ecoou apenas em sua mente.

Aurora.

"Filha...

Escute antes de agir.

Nem todo inimigo escolheu o lado em que luta."

Elara fechou os olhos.

A voz continuou.

"Existe um homem que perdeu até o próprio nome para proteger um segredo.

Quando encontrá-lo...

Não permita que seja julgado antes de recuperar a memória."

A jovem abriu os olhos imediatamente.

Seu olhar encontrou Aldren.

O coração acelerou.

Aurora estava falando dele.

Ela tinha certeza.

Mirena percebeu a mudança em sua expressão.

— O que Aurora disse?

Elara contou tudo.

O grupo mergulhou em silêncio.

Cassian respirou profundamente.

— Então ele também foi uma vítima.

Selene manteve a cautela.

— Ou está sendo usado como uma vítima.

Ainda não sabemos toda a verdade.

Kael concordou.

— Não podemos baixar a guarda.

Mas também não devemos condená-lo sem respostas.

Aldren observava aquela conversa sem entender.

Parecia ainda mais confuso do que todos ao redor.

Nesse instante, um dos Sentinelas aproximou-se.

Era mais alto que os demais.

Sua armadura possuía detalhes dourados.

No peito havia o símbolo de Arkan cercado por sete estrelas.

Ele parou diante de Elara.

Curvou-se.

A voz metálica ecoou pela avenida.

— Guardiã reconhecida.

Autorização para julgamento excepcional solicitada.

Lyssara demonstrou surpresa.

— Faz muitos séculos que esse protocolo não é utilizado.

Lucien olhou para Mirena.

— O que significa?

A sacerdotisa respondeu em voz baixa.

— Significa que o destino daquele homem será decidido pela Guardiã de Arkan.

Todos voltaram os olhos para Elara.

Ela permaneceu imóvel.

— Eu?

Lyssara confirmou.

— Apenas você pode autorizar a Cidade a acessar as memórias escondidas dele.

Nythar aproximou-se.

— Mas existe um risco.

— Qual?

— Se as Correntes do Esquecimento ainda estiverem ativas...

Elas podem se romper.

Mirena completou a frase.

— E tudo o que foi escondido dentro da mente dele voltará de uma só vez.

Selene respirou fundo.

— Inclusive aquilo que o Oráculo tentou apagar.

Cassian cruzou os braços.

— Ou aquilo que ele desejava manter preso.

As duas possibilidades eram perigosas.

Muito perigosas.

Elara caminhou lentamente até Aldren.

Ele levantou o rosto.

As rachaduras luminosas continuavam espalhando-se por sua pele.

Seu olhar transmitia apenas cansaço.

— Eu não sei quem sou.

Ela percebeu sinceridade em cada palavra.

Não havia arrogância.

Nem manipulação.

Apenas vazio.

— Tem medo de descobrir?

Ele demorou para responder.

— Tenho medo de lembrar... e deixar de ser quem sou hoje.

A frase atingiu todos.

Porque era um medo real.

Se recuperasse as lembranças, talvez descobrisse ter cometido atrocidades.

Talvez fosse alguém completamente diferente.

Talvez jamais voltasse a ser Aldren.

Elara permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois ergueu lentamente o medalhão de Aurora.

O cristal azul brilhou.

Os Sentinelas bateram simultaneamente as lanças contra o chão.

Toda a cidade respondeu ao chamado.

As ruas iluminaram-se.

As torres acenderam.

Ao longe, sinos antigos começaram a tocar.

Lyssara deu um passo para trás.

Sua voz carregava respeito.

— O Salão das Memórias foi despertado.

Nythar ergueu a cabeça.

— Isso não acontecia desde a queda de Arkan.

Uma enorme construção começou a surgir no centro da cidade.

Não estava sendo construída.

Estava apenas deixando de permanecer invisível.

Colunas gigantescas ergueram-se lentamente.

Portões de cristal apareceram entre elas.

E, acima da entrada, havia uma inscrição gravada na língua antiga.

Mirena traduziu em um sussurro:

— "Nenhuma verdade permanece enterrada para sempre."

O portão abriu-se lentamente.

Do interior do salão escapou uma luz prateada que envolveu Aldren por completo.

No mesmo instante, uma voz desconhecida ecoou por toda Arkan.

Firme.

Autoritária.

Antiga.

— Iniciando a restauração da identidade perdida...

Registro número sete...

Localizado.

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