Mundo de ficçãoIniciar sessão(Livro II – Continuação de Marcada pelo Alfa Cruel) Ela não é mais apenas uma fêmea marcada. Ela é o estopim da guerra. Liah sobreviveu à marca. Mas ninguém sobrevive ileso ao que ela desperta. Foi quebrada pelo Alfa mais cruel dos clãs. Marcada no corpo. Ferida na alma. E presa a um amor que nasceu da violência. Agora, seu nome ecoa como ameaça. Os clãs se levantam. Profecias despertam. E seu corpo passa a valer mais do que tronos. Magnus a quer de volta. Não por redenção. Mas por posse. Rhaziel a protege. Não por desejo. Mas por escolha. Entre dois alfas, Liah carrega algo capaz de coroar reis… ou reduzir reinos inteiros a cinzas. Nesta história, ela não será salva. Não será domada. E não será apenas amada. Amada. Temida. Desejada. Nesta guerra, Liah não é o prêmio. Ela é o campo de batalha. E quando sangue, poder e profecias colidem, uma verdade se impõe: Não vence quem ama mais. Vence quem está disposto a destruir tudo.
Ler maisPOV Liah
A sala dos ritos ficou vazia rápido demais, como se o próprio castelo quisesse engolir de volta aquilo que viu. Os ecos da minha voz, dos três nomes proclamados e do silêncio que se seguiu ficaram presos nas pedras. Eu ainda sentia o peso das coroas invisíveis pousadas no topo das minhas mãos, não as de ouro, mas as de sangue, destino e perda. Eu não olhei para trás quando eles foram embora. Não ousei. Se visse Rhaziel com aqueles olhos marejados, eu quebraria. Se encarasse Magnus com aquela máscara de ossos calados, eu cairia. E eu não podia. Não agora. A Primeira Lua Sangrenta pendia do céu como uma lâmina ergueu voto sobre nossas gargantas, e qualquer fraqueza seria um convite à decapitação. Meus filhos se aproximaram primeiro, como sempre. Aelyra, branca como a própria noite quando decide ser neve, tocou minha barriga com a seriedade de uma anciã. Rael, quente como um sol preso em corpo miúdo, encostou a testa no meu ombro e respirou fundo, como se quisesse aprender de cor o cheiro do futuro. — Mamãe, já demos os nomes — ele sussurrou, temendo acordar as paredes. — Agora falta o mais difícil. — O quê? — Aprender a não odiar sozinha — disse Aelyra no meu lugar, a voz tão baixa que quase não existiu. Mas existiu. Sempre existe. Eu queria dizer a eles que eu não odiava sozinha, que o ódio era um bicho de muitos dentes mastigando cada canto deste reino; que os corredores tinham inveja; os salões, cobiça; as muralhas, medo; e os leitos, ambições esfomeadas. Mas meus filhos aprendem com o que eu faço, não com o que eu digo. Eu apenas os abracei. E, por um instante breve demais, a Primeira Lua pareceu menos cruel. Quando os levei aos quartos, Aelyra se movia como quem já conhece o mapa de um sonho antigo. Deitou-se, mãos sobre o peito, olhos abertos para o teto, e eu soube que ela não dormiria. Rael lutou contra o sono, recuando, espiando a porta, como se esperasse que um lobo atravessasse a madeira só para dizer a ele qual lado escolher. Beijei as testas, as pálpebras, a ponta do nariz. Eles riram baixinho, e eu guardei esse som dentro da boca, como quem segura um feitiço com a língua. — Três luas — Aelyra disse, quando já estava quase do lado de fora. — A terceira vai pedir um preço. Não deixe que paguem por você. — Quem? — perguntei. — Os que amam você demais para fugir. Fechei a porta. Fiquei parada alguns segundos no corredor, ouvindo os passos que não vinham. Nem os dele, nem do outro. O castelo respirava no meu ouvido, lento e grosso, como um animal velho tentando não ser percebido pelos caçadores. Voltei ao salão vazio. O incenso tinha morrido nas tigelas de ferro. Algumas pétalas de heléboro resistiam no chão, esmagadas por botas, por pressa, por decisões. Debrucei sobre o altar de pedra e apoiei as mãos. O frio subiu e me encheu até o fundo dos ossos. Não era um frio do corpo. Era o frio de ser Rainha e fêmea, mãe e arma, ferida e ponte, tudo ao mesmo tempo. De quem é? A pergunta não saiu da minha boca, mas a pedra parecia escutar. O que cresce em mim carrega mais do que sangue; carrega guerra. Carrega memória. Carrega aquilo que eu tive medo de ser desde o começo: escolha. Eu me lembro da primeira noite em que Magnus me tomou. Lembro porque não há como esquecer quando uma vida é partida ao meio com as mãos. Também me lembro da noite em que eu escolhi Rhaziel. Lembro porque é raro, raríssimo, o mundo permitir que eu seja eu. Entre as duas noites há todas as versões de mim; a que foi caçada, a que foi coroada, a que aprende a mandar, a que ainda treme quando alguém fecha a porta atrás de mim. — Minha Rainha? — a voz veio da sombra, macia demais para a hora. — Entre — disse, sem perguntar quem era. Eu sabia. Há vozes que a gente aprende com o corpo, como aprende a prever a dor antes dela chegar. A anciã das ervas entrou em passo curto, os cabelos como palha de lua, os olhos de poço sem fundo. — Eu não te chamei, Irmaline. — Foi o cheiro que me chamou. E os antigos não precisam de convite quando o destino cantou primeiro. Virei metade do rosto, o suficiente para não negar nem aceitar. Ela se aproximou do altar, fitou as tigelas vazias, a faca embainhada, os três fios de fita, branco, cinza, escarlate, que usei na cerimônia dos nomes. — Vocês, rainhas novas, sempre tentam resolver com silêncio o que exige rito — ela murmurou, um pequeno riso sem dentes. — Não é hora de ritos, é hora de guerra. — Guerra é só o rito dos homens. — E o que você quer de mim? Ela respirou, lenta. — Que coma. Que durma. Que sangre quando for a hora. E que pare de achar que esconder é proteger. — Está todo mundo faminto por uma fraqueza minha — retruquei, sentindo a vela corroer o próprio pavio só para me contradizer. — Se souberem, usam. Se não souberem, inventam. Escolho o menor veneno. Irmaline inclinou a cabeça, os dedos deformados pela idade roçando o altar como se ele fosse um gato grande. — O menor veneno é o que você já engoliu. O segredo cresce com o menino. E segredo, Rainha… segredo dá à luz monstros. Ela me olhou como quem pesa o crânio de um rei. — Não estou pronta para isso — eu disse, mais baixo do que queria. — Não ainda. — Ninguém está. Só que a lua não pergunta. A lua convoca. Ela tirou do manto uma pequena bolsa de couro e deixou ao lado da faca. — Para enjoos, para os ossos, para os sonhos. Não há erva para Magnus, nem para Rhaziel. Esses dois… são uma doença que só cura com tempo. Ou com sangue. — Eu não posso perder nenhum. — Então aprenda a perder a si mesma um pouco menos. Ela virou as costas. Antes de sair, deixou cair uma última frase: — Não guarde o nome por raiva. Nome segura o espírito no corpo. E o seu já tem gente demais tentando puxá-lo para fora. Fiquei sozinha com as tigelas vazias, as fitas e a bolsa de couro. O cheiro de raiz e mel ferveu por um segundo, depois sumiu, como fazem as coisas que só existem para dar recado e ir embora.POV Liah O Salão Alto nunca foi feito para silêncio. As colunas largas carregavam séculos de vozes — juramentos, mentiras, promessas quebradas — e naquela manhã pareciam ansiosas por beber algo novo. O chão de pedra estava limpo demais. As bandeiras, alinhadas demais. Quando um lugar se prepara tanto para parecer ordeiro, é porque espera desordem. Entrei sem anúncio. Não por descuido. Por escolha. Os murmúrios se espalharam como vento em capim seco. Alguns conselheiros se levantaram. Outros fingiram indiferença. Os representantes dos clãs menores se entreolharam, inseguros, como quem foi convidado para uma mesa que nunca permitiu sua voz antes. Magnus ficou um passo atrás de mim. Rhaziel, do outro lado. Não como guarda. Como testemunhas.
POV Liah O círculo se apagou quando a lua passou do centro do rasgo no teto. Não com estrondo. Não com luz. Apagou como se nunca tivesse existido, o que é sempre o sinal mais perigoso dos ritos verdadeiros. A prata no chão voltou a ser apenas chão. A Câmara da Lua respirou de novo como um espaço comum. Mas nada em mim era comum agora. Senti antes de ver. O ventre contraiu num aviso curto, seco, como uma mão invisível fechando-se por dentro. Não dor. Presságio. — Chega — eu disse, e minha voz não tremeu. Magnus e Rhaziel recuaram no mesmo instante. Não porque eu pedi, porque aprenderam. Isso, mais do que qualquer beijo, foi a vitória da noite. Virei-me primeiro para Rhaziel. — O Sul está inquieto demais para coincidências — falei. — E inquietação demais sempre vem com alguém sussurrando promessas erradas no ouvido certo. Ele assentiu, sério. — Há movimentação que não é de exército — confirmou. — É de ideias. E ideias atravessam muros melhor que soldados. Depois encarei
POV Liah A Câmara da Lua cheirava a pedra molhada e incenso antigo, como se a noite tivesse sido moída em pó e soprada para dentro daquele salão. Tochas prendiam sombras nas colunas de obsidiana; no centro, um círculo gravado com fios de prata pulsava devagar, como um coração que não sabe se ainda pertence aos vivos. O vento não entrava ali. Só a luz pálida, derramada por um rasgo no teto, a lua atravessando a sala como uma lâmina de gelo. Eu fui a primeira a cruzar o círculo. A pele arrepiou onde a prata encontrou meus passos. Senti a criança em meu ventre responder num tremor leve, uma marola silenciosa. Levei a mão à barriga, um gesto que já não me cabia, mas que era meu, e fechei os olhos por um instante, como quem reza sem saber a quem. — Hoje, eu escolho — disse à pedra, à lua, à mulher que fui e à que me tornei. As portas pesadas suspiraram. O som espalhou-se pelo salão como um anúncio. Ele entrou primeiro: Magnus. Vinha sem coroa, sem placas de guerra, sem a armadura que
POV LiahEles respiraram juntos, como se o meu pulmão fosse batuta. Magnus encostou o nariz no meu cabelo, inspirando fundo, e disse:— Posso te carregar até seus aposentos?— Não hoje. — respondi com carinho, tocando a boca na dele num selinho pequeno, doméstico, quase indecente de tão simples. — Caminha ao meu lado.Virei para Rhaziel. Ele sorriu daquele jeito que acalma guerras. Beijei o canto da boca dele, o beijo que se dá quando se agradece algo que não tem preço.— Fica? — perguntei, mas não como quem implora; como quem oferece mesa.— Sempre. — Ele olhou meu ventre, depois meus olhos. — A seu tempo. Ao nosso.Saí do pátio entre eles. Não como troféu, não como sentença, como centro de gravidade. O corredor respirava conosco. Meus pés tocaram pedra, depois tapete, depois madeira. A noite não brilhou menos por eu ter dito “basta”; brilhou mais. No limiar dos meus aposentos, me virei.— Ouçam o que vou dizer agora, porque isto é governo. — O timbre da minha voz mudou; a loba e a r
Último capítulo