Mundo ficciónIniciar sesiónAs palavras de Aldren permaneceram suspensas no ar.
Ninguém se moveu.
O brilho da esfera de cristal iluminava o rosto abatido da mulher aprisionada, tornando impossível ignorar o desespero estampado em seus olhos.
Aiden permanecia imóvel.
Seu peito subia e descia em respirações curtas.
Durante vinte e cinco anos, carregara a culpa por não ter conseguido proteger Lívia.
Chorara sua morte.
Erguera um túmulo vazio.
Agora descobria que ela passara todo aquele tempo viva.
Sozinha.
Prisioneira.
Mirena aproximou-se lentamente.
Seu olhar permaneceu fixo na esfera.
— Como conseguiu manter tantas pessoas vivas durante tanto tempo?
Aldren respondeu com absoluta serenidade.
— Elas não vivem como vocês imaginam.
Lucien estreitou os olhos.
— Explique.
O líder dos Coletores ergueu a esfera alguns centímetros.
— Existe um lugar chamado Santuário do Crepúsculo.
Foi construído muito antes das alcateias.
O tempo corre de maneira diferente naquele lugar.
Um ano aqui...
Representa apenas alguns dias dentro dele.
O silêncio tomou conta do vale.
Selene respirou fundo.
— Então era verdade...
Cassian voltou-se para ela.
— Você conhecia esse lugar?
— Apenas pelas histórias.
Diziam que havia sido criado para proteger os últimos descendentes das linhagens antigas caso o mundo mergulhasse no caos.
Nythar soltou um som grave.
— E deveria permanecer oculto para sempre.
Aldren sorriu.
— Permaneceria.
Se vocês não tivessem transformado o continente em um campo de guerra.
Elara observava atentamente cada palavra.
Havia algo estranho naquela conversa.
Aldren parecia convencido de que estava protegendo aquelas pessoas.
Não falava como um conquistador.
Nem como um homem sedento por poder.
Falava como alguém que acreditava cumprir uma missão.
Ela deu um passo à frente.
— Se realmente queria protegê-los...
Por que nunca permitiu que voltassem?
A expressão dele tornou-se mais séria.
— Porque o mundo nunca esteve preparado.
— Quem decidiu isso?
— Eu.
— Não.
Elara sustentou seu olhar.
— Você decidiu por eles.
A diferença é enorme.
Aldren permaneceu calado.
A observação atingira um ponto que ele evitava enfrentar.
Kael caminhou até ficar ao lado de Elara.
Desta vez ela não recuou.
Também não se aproximou.
Os dois apenas permaneceram lado a lado.
Observando Aldren.
O Supremo do Norte falou com firmeza.
— Se essas pessoas ainda vivem...
Nós as traremos de volta.
Aldren balançou a cabeça.
— Não é tão simples.
— Por quê?
— Porque o Santuário foi selado.
Só existe uma maneira de romper a barreira.
Mirena fechou os olhos.
Já imaginava a resposta.
— O Cofre Real.
— Exatamente.
O líder dos Coletores voltou a encarar Elara.
— Dentro do Cofre existe a Chave dos Véus.
Não é a chave que você carregava.
Aquela era apenas um selo criado por Aurora.
A verdadeira Chave dos Véus nunca saiu do Cofre.
Ela é capaz de abrir qualquer prisão construída pela magia ancestral.
Cassian franziu a testa.
— Então eu procurei o artefato errado durante décadas.
Selene respondeu sem esconder o amargor.
— Porque alguém queria que você procurasse o artefato errado.
O antigo Guardião baixou a cabeça.
Mais uma peça se encaixava.
Mais uma mentira era desfeita.
Enquanto os líderes discutiam, Orion aproximou-se discretamente de Cedric.
— Está acreditando nele?
Cedric observava Aldren com atenção.
— Ainda não.
— Nem eu.
Orion cruzou os braços.
— Mas aquela mulher na esfera...
Cedric suspirou.
— Não parecia uma ilusão.
Os dois voltaram a olhar para Aiden.
O velho Guardião não conseguia desviar os olhos de Lívia.
Seraphine aproximou-se dele.
— Respire.
Ele respondeu quase num sussurro.
— Passei metade da minha vida desejando apenas mais alguns minutos ao lado dela.
Agora descubro que ela esteve viva o tempo inteiro.
Seraphine segurou sua mão.
— Então lute por esses minutos.
Não desperdice o que acabou de descobrir.
Elara voltou a olhar para a esfera.
Lívia continuava observando Aiden.
Mesmo separada por aquela prisão de cristal, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
Ela ainda o reconhecia.
Ainda se lembrava dele.
Aquilo fez o coração de Elara apertar.
Se Aldren dizia a verdade...
Quantas famílias haviam sido separadas daquela mesma maneira?
Quantos filhos cresceram acreditando que seus pais estavam mortos?
Quantos companheiros passaram décadas lamentando perdas que jamais aconteceram?
Ela respirou profundamente.
— Quero uma prova.
Aldren inclinou a cabeça.
— Que tipo de prova?
— Leve-nos até o Santuário.
O líder dos Coletores sorriu.
— Ainda não.
Lucien ergueu a lança.
— Então não espere que confiemos em você.
— Não preciso da confiança de vocês.
Preciso apenas que Elara abra o Cofre.
Mirena deu um passo à frente.
— O Cofre não será aberto sob ameaça.
— Nem pretendo ameaçá-la.
Aldren abriu lentamente a mão livre.
Uma pequena pedra transparente surgiu entre seus dedos.
— Reconhece isto, Mirena?
A sacerdotisa empalideceu.
— Uma Pedra da Memória...
— Sim.
Ele entregou a pedra para um dos Coletores ao seu lado.
— Mostre a eles.
O homem aproximou-se devagar.
Assim que tocou a pedra no chão, uma imagem surgiu diante de todos.
Não era uma ilusão comum.
Parecia uma lembrança viva.
Uma enorme construção escondida entre montanhas.
Jardins preservados.
Centenas de pessoas caminhando tranquilamente.
Crianças brincando.
Velhos conversando.
Guerreiros treinando.
Todos usavam símbolos pertencentes às antigas linhagens.
Havia integrantes da Lua Negra.
Da Lua Sombria.
Do Norte.
Do Oeste.
Pessoas que deveriam estar mortas.
Kael arregalou os olhos.
— Isso...
Mirena observava cada detalhe.
As lágrimas escorreram silenciosamente.
Reconheceu rostos que não via havia décadas.
Companheiros.
Sacerdotes.
Guardiões.
Todos vivos.
A imagem desapareceu.
O vale voltou ao silêncio.
Ninguém podia negar que a Pedra da Memória mostrava um lugar real.
Essas pedras não criavam ilusões.
Apenas reproduziam acontecimentos.
Nythar permaneceu observando Aldren.
Havia algo que continuava incomodando o velho dragão.
Muito.
— Ainda falta uma resposta.
Aldren voltou-se para ele.
— Qual?
— Se realmente desejava proteger essas pessoas...
Por que enviou caçadores atrás de Elara e Kael?
O líder dos Coletores demorou alguns segundos antes de responder.
— Porque sem eles o Cofre jamais seria aberto.
— Isso não explica os ataques.
Aldren respirou fundo.
— Eu ordenei que fossem capturados.
Nunca mortos.
Lucien respondeu imediatamente.
— Muitos morreram tentando fugir.
O semblante de Aldren tornou-se pesado.
— Eu sei.
E cada uma dessas mortes pesa sobre mim.
Mas já não havia outro caminho.
Elara percebeu algo importante.
Todas as vezes em que Aldren falava sobre mortes, sua expressão mudava.
Era sincera.
Ela então fez a pergunta que ninguém havia feito.
— Quem o obrigou a agir dessa maneira?
A pergunta surpreendeu até Mirena.
Aldren ficou em silêncio.
Depois sorriu de forma cansada.
— Você realmente se parece com Aurora.
Não procura apenas o culpado.
Procura a origem da culpa.
Ele ergueu lentamente os olhos para o círculo negro que ainda girava acima das montanhas.
Sua voz perdeu toda a firmeza.
— Porque, se eu falhasse...
Ele despertaria.
Todos acompanharam seu olhar.
O círculo começou a pulsar.
Uma.
Duas.
Três vezes.
As runas negras mudaram de posição.
Nythar abriu completamente as asas.
Selene fechou os olhos.
Cassian levou a mão ao cabo da espada.
Mirena apertou o cajado com tanta força que a madeira estalou.
Então uma enorme rachadura surgiu bem no centro do círculo.
Dela escapou uma luz dourada.
Não era uma luz sombria.
Nem uma energia maligna.
Era antiga.
Majestosa.
E poderosa o suficiente para fazer o chão tremer sob os pés de todos.
Nythar encarou a abertura e murmurou com uma preocupação que nenhum deles jamais ouvira em sua voz:
— É tarde demais...
O selo do Oráculo começou a se romper.







