Mundo de ficçãoIniciar sessãoO inverno nunca foi apenas uma estação. Ele é um poder, um legado... e uma maldição. Rejeitada pelo alfa que deveria aceitá-la como sua luna, Lissandra aprendeu cedo que, para uma órfã, não existia lugar na alcateia além do de serva. Forçada a esconder quem realmente é, ela sabe que a liberdade tem um preço e que, para sobreviver, precisará jogar o jogo de seus inimigos até estar pronta para vencê-los. Quando a única chance de fuga surge, ela arrisca tudo. Mas escapar não significa estar a salvo. Cercada por traições, perseguida por aqueles que desejam possuí-la e guardando um segredo capaz de mudar o destino de um continente inteiro, Lissandra percebe que não nasceu para viver à sombra de nenhum alfa. Muitos tentarão reivindicá-la. Poucos serão dignos de conquistá-la. E, quando a verdade vier à tona, a garota que um dia foi rejeitada será a única capaz de decidir quem merece permanecer ao seu lado. Uma fantasia romântica repleta de lobos, magia, destino e segundas chances, em que uma mulher rejeitada descobrirá que o verdadeiro amor não apenas aquece o coração, mas também é capaz de transformar até o mais frio dos invernos.
Ler mais— Mia, mais rápido sua lesma! Precisamos acender a lareira antes que escureça! — gritou a senhora Ilda à porta da casa ao perceber que eu me distraíra olhando o céu.
De porte médio, cabelos grisalhos e pele em tom médio, Ilda era a responsável pelo orfanato que me recebeu. Seus olhos castanhos eram sempre pesados quando me via, mas não tanto quanto suas mãos quando decidia me punir sem motivo. Ela sempre dizia que eu deveria ser grata por ter um lar para morar, por não ter que passar frio e fome nas ruas. Provavelmente essa era a desculpa que dava para si mesma para colocar todos os jovens órfãos para trabalhar.
Os meninos geralmente saíam para caçar presas de pequeno porte, enquanto as garotas tinham a tarefa de coletar lenha. Embora os afazeres domésticos fossem divididos, quase sempre eu tinha que fazer tudo. Era injusto, mas eu era a garota amaldiçoada.
Eu não era de fato amaldiçoada, mas assim fui chamada pelas outras crianças por ser a única sobrevivente do massacre que ocorreu na aldeia em que eu morava. Tal atrocidade veio em decorrência do sofrimento causado pela catástrofe congelante.
Eu era um bebê quando a catástrofe congelante começou. Após os primeiros anos de nevasca intensa, a comida foi ficando escassa por todo o continente, o que levou bandidos a invadirem e saquearem as aldeias mais fracas e isoladas. Por serem muitos ataques em simultâneo, o alfa de nosso país não pôde proteger a todos, resultando em incontáveis perdas.
Adentrando a casa, aproximei-me da lareira e desajeitadamente me ajoelhei no chão e comecei a encher o depósito de lenha, separando alguns gravetos e pedaços de madeira para a fogueira. Enquanto eu ajeitava, fui empurrada de lado e chutada pela Ilda.
— Está tentando fugir de suas responsabilidades fazendo tudo tão devagar? — gritou aquela senhora, apontando para a cozinha. — Já era para estar preparando o jantar!
— Sim, senhora — falei em um tom monótono, colocando-me de pé e me dirigindo para a cozinha. Eu detestava esse lugar, detestava sentir dor. A dor diária era um lembrete de que esse lugar provavelmente era ruim, embora me dissessem o contrário.
Sei que para todos eu não deveria ser uma sobrevivente. Era o que os adultos diziam, que eu deveria ter morrido, que minha história não fazia sentido. As crianças viam as palavras dos adultos como uma verdade, razão pela qual eu não tinha um único amigo neste lugar, ninguém que ficasse ao meu lado quando Ilda decidia descontar suas frustrações em mim.
Independente de minha existência ser um fardo, eu continuaria me levantando, continuaria sobrevivendo custe o que custasse, apenas contando os dias para sair desse inferno. Faltava menos de uma semana para eu completar dezoito no papel e receber a minha liberdade.
Não sei o que era mais difícil, cozinhar sozinha ou ter uma ajudante irritante. Fran, uma órfã de dezesseis anos de pele em tom médio escuro e cabelos crespos estava sentada em cima da bancada. Ela começou a rir com malícia assim que entrei, sem esconder que fora responsável por atiçar a Ilda. Ela tinha uma marca de nascença, uma pequena pinta escura por baixo do seu olho direito.
— Mia, sua feiosa. Demorou a aparecer! — provocou ela. Mia? Todos pronunciavam esse nome com o mesmo tom irritante de desdém. Eu realmente detestava esse nome. — Já cortei a carne da caça de hoje. Deixo o resto com você.
Folgadamente ela desceu do balcão, se sentou à mesa e começou a fazer as unhas em vez de me ajudar a cortar os demais ingredientes.
— Está olhando o quê? Você não precisa disso. Nem que nascesse de novo ficaria bonita — disse ela revirando os olhos.
Fran estava longe de ser um padrão de beleza, mas de fato se cuidava mais do que eu. Eu não tinha tempo para isso. Olhei para minhas mãos, cheias de calos, os dedos tão finos que praticamente se podiam ver os ossos. Eu não tinha tempo para me arrumar, então sempre mantinha meus cabelos castanho-escuros curtos para facilitar a limpeza. Minha pele clara e pálida era considerada uma cor feia. Geralmente apenas os de classe inferior possuíam essa cor, uma vez que o sangue imperial e o sangue alfa predominavam o tom médio para o escuro.
Não respondi, não adiantaria. Em vez disso comecei a trabalhar, pensando no que eu faria com minha liberdade. Órfãs como eu costumavam ganhar uma pequena quantia de dinheiro após deixar o orfanato, e oportunidades de empregos medíocres na casa da alcateia. Trabalhar a vida inteira como uma humildade empregada nada mais era do que uma forma de sobreviver, mas não era isso que eu desejava para mim, ainda mais sabendo que eu provavelmente seria menosprezada e maltratada.
— Oh não, você fez de novo! — riu Fran antes de sair correndo. Pouco depois, voltou com a Ilda, apontando o dedo na minha direção e fazendo acusações infundadas. — Senhora, ela está se aproveitando para roubar comida antes da hora.
— Eu só estava provando o caldo para ver se o tempero está no ponto — respondi friamente. Era algo de rotina, então não entendia o motivo pelo qual sempre tinha alguém para fazer alarde sobre isso. Mas eu não podia fazer diferente, porque se eu errasse no sabor, seria agredida não só pela Ilda mas pelos meninos que tiveram dificuldades em conseguir a carne.
— Ela estava pegando carne junto — disse Fran. — Eu vi!
— Isso não...
— Calada! — gritou Ilda, como sempre sem me dar chance de defesa. — Parece que você nunca aprende. Saia! Sem jantar hoje para você! Como punição, passará a noite na rua.
Eu apenas queria dizer que não fiz o que ela me acusou. Eu estava fazendo um ensopado, e a carne foi desfiando no caldo. Eu simplesmente coletei um pouco de caldo sem me atentar a isso, o que não era nenhum crime, mas não era isso que pareciam pensar. Deixando a colher na pia, andei até a porta dos fundos.
Era preferível para mim passar a noite ao relento do que receber chutes e açoites daquela velha. Ultimamente vinha passando mais tempo fora do que no orfanato. Possivelmente ela não queria gastar energia me punindo e achava que o frio era o suficiente. Para dizer a verdade, todos diziam que o frio era muito pior, e sempre que ela queria castigar alguém dessa forma, imploravam para serem açoitados com medo de morrerem congelados. Diferente dos outros, eu nunca reagia a nenhum tipo de punição, não dizia uma palavra e não expressava emoções, mas a verdade era que o frio nunca me incomodou. Desde que me entendia por gente, frio e calor eram a mesma coisa para mim, e o frio, mesmo que extremo, era aconchegante.
Minha calça comprida estava com alguns rasgos no joelho, meu casaco de lã velho era fino e impróprio para dias de neve. O sapato em meus pés estava furado, então costumava entrar neve. Esta dificilmente se derretia, já que meus pés ficavam tão frios quanto a própria neve. Eu me acostumara ao frio e gostava de mantê-los assim.
Havia apenas uma única pessoa neste mundo que se importava comigo, e ele estava lá, como se estivesse esperando por mim. Uma humilde cabana no meio do bosque era nosso ponto de encontro, e nas noites frias quando eu não era castigada, fugia somente para vê-lo.
— Mia! — exclamou uma voz grave. Levantando-se da cadeira da varanda, correu até mim com uma manta, colocando-a sobre meus ombros e abraçando-me com suavidade. Nossos olhos se encontraram e senti minha respiração acelerar sutilmente. — Mia, você está muito gelada. Entre!
— Ryan... — sussurrei, mas as palavras não saíam. Eu não sabia bem o que sentia, mas gostava de vir aqui, gostava de estar com ele. Talvez por ele ser a única pessoa que me tratava como se eu fosse alguém.
Para um lobo reconhecer seu companheiro, era necessário apenas uma troca de olhar. O cheiro podia ser um indicativo de proximidade, já que para um companheiro o cheiro de seu par podia parecer o mais delicioso do mundo, no entanto, a confirmação só vinha após uma troca de olhares. Era como se através dele, as almas se conectassem. Me perguntava se um dia seria capaz de sentir essa conexão tão mágica, se seria capaz de amar tanto alguém.Permaneci com os pensamentos distantes enquanto concluía minha tarefa. Retirei-me do quarto, guardei o material de limpeza e comecei a circundar o lugar para me familiarizar. Ryan não voltou durante o dia, na verdade, descobri com as outras servas durante a refeição que ele quase sempre estava ocupado com trabalho, e que muitas vezes não retornava nem ao anoitecer. Mesmo quando ele estava presente, as refeições eram todas feitas com sua família na morada principal do clã e ele só voltava para dormir.Sem muito o que fazer voltei ao meu quarto, e treine
O quarto de Ryan era grande, e foi nele que descobri o verdadeiro significado de luxo. Pensei que seria um trabalho fácil, mas o espaço era maior do que o orfanato inteiro em que morei. A decoração era extravagante, com diversas relíquias em estantes e quadros nas paredes para juntar poeira. Isso significava que haveria sempre muito trabalho.Não havia uma lareira dentro do quarto, mas ele era estranhamente quentinho. Havia muitas cores pelo quarto, cortinas de cores quentes, e até a refinada colcha azul celeste sobre a cama possuía detalhes com bordados em dourado. Essas cores pareciam representar o anseio pelos dias de sol, um contraste ao céu quase sempre nublado e cinza.Aproximei-me de uma das janelas. Todas elas possuíam grades de proteção grossas, e por entre as grades, era possível ver o pátio externo, um local ao qual eu não estava permitida a sair. Não tive muito a fazer, já que o quarto estava quase impecável, então levei mais tempo sondando cada detalhe. Tal memória era ne
Respirei fundo e engoli o choro. Não adiantava lamentar o destino que eu não podia mudar.Enxuguei as lágrimas vestindo um dos uniformes de empregada. Eram compridos e macios, e o mais importante, novos. Até mesmo os sapatos cabiam perfeitamente no meu pé, uma surpresa agradável, uma esperança errônea de que talvez Ryan tivesse sentimentos por mim."Não dói." Pensei, enquanto caminhava ao encontro de Vanessa.Tanto as roupas quando os calçados no orfanato eram peças já usadas que foram descartadas e doadas, então nem sempre estavam em boa condição. Além disso, eu era sempre a última a recebê-los, então muitas vezes o sapato não tinha o tamanho certo para mim. O resto do resto, aquilo que não servia nas outras, era a minha parte e, mesmo quando estavam apertados, era aquilo ou nada.— Mia, vejo que tem boa memória, assim como o mestre Ryan disse — comentou Vanessa ao me ver entrar no cômodo. Ryan havia falado sobre mim para ela? Que outros elogios ele teria feito sobre mim?Geralmente
Em minha frente, uma imensa casa. Nunca a tinha visto pessoalmente, e era muito mais impressionante à primeira vista do que eu podia imaginar. Eu não sabia ao certo o que fazer, apenas seguia obediente Ryan através dos corredores, meus pés deslizando levemente nos pisos de madeira úmidos. Era tão bem polido que chegava a brilhar.Olhando bem por trás, reparei o quanto as costas de Ryan eram largas. Se seu nome não o tivesse denunciado, seu porte forte faria, pois ele claramente não era um lobo comum.Ninguém ousou interromper Ryan pelo caminho, que parecia se dirigir a uma zona bem específica. O lugar que entrei era uma construção em cerco com uma ilha central. Não pude deixar de pensar que se a porta de entrada fosse fechada, esse lugar não seria muito diferente de uma prisão.— Sei o que te parece, mas este é o lugar mais seguro para você. A não ser que eu ordene, você não tem permissão de sair deste lugar — disse ele em tom sério, gesticulando para uma empregada que passava ao long
Último capítulo