Capítulo 7 – O Alfa Que Se Recusou a Caçar

Os sete uivos ainda ecoavam pelas montanhas quando o vale mergulhou em uma inquietação silenciosa.

Os guerreiros interromperam os treinamentos.

Ferreiros abandonaram as forjas apenas para observar o horizonte.

As crianças, que brincavam perto do riacho, foram conduzidas para dentro das casas.

Ninguém entrou em pânico.

A disciplina daquele povo impressionava Elara.

Era como se todos soubessem exatamente o que fazer.

Orion caminhava de um lado para o outro distribuindo ordens.

— Dobrem a guarda da passagem leste.

— Quero arqueiros nas torres antes do anoitecer.

— Ninguém entra ou sai do vale sem minha autorização.

Os guerreiros responderam em uníssono.

— Sim, Capitão.

Elara observava tudo em silêncio.

Durante anos vivera na Fortaleza do Norte.

Conhecia soldados experientes.

Comandantes habilidosos.

Mas havia algo diferente na Guarda da Lua Negra.

Eles não obedeciam por medo.

Respeitavam quem os liderava.

Era uma diferença pequena aos olhos de muitos.

Para ela, parecia enorme.

Seraphine aproximou-se lentamente.

— Está pensando demais.

Elara soltou um pequeno sorriso.

— É tão evidente assim?

— Bastante.

As duas caminharam até um pequeno mirante de pedra que permitia enxergar quase todo o vale.

Lá de cima, a vila parecia ainda mais escondida entre as montanhas.

Difícil acreditar que um lugar tão grande permanecera invisível durante séculos.

— Todos aqui confiam em você.

— E isso assusta.

Seraphine não pareceu surpresa.

— Porque acredita que ainda não merece essa confiança.

Elara permaneceu calada.

Era exatamente isso.

Ela mal conhecia aquelas pessoas.

Não entendia seus costumes.

Nem sequer aceitava o título que insistiam em lhe dar.

— Quando eu era criança...

Ela respirou fundo antes de continuar.

— Sempre imaginei que me tornaria Luna.

Aprendi etiqueta.

Política.

Estratégias para administrar uma alcateia.

Mas nunca pensei em governar um reino.

Muito menos liderar uma guerra.

Seraphine apoiou as mãos sobre a mureta de pedra.

— Talvez porque seu destino nunca tenha sido apenas ser Luna.

Elara abaixou o olhar.

— Destino...

Essa palavra já me causou sofrimento suficiente.

A mulher voltou-se para ela.

— Então deixe de acreditar no destino.

Acredite nas escolhas.

Elara franziu a testa.

— Não entendi.

— O selo escolheu seu sangue.

Mas quem decidirá que tipo de rainha será... é você.

As palavras permaneceram ecoando em sua mente.

Ela nunca havia pensado daquela forma.

Sempre ouvira que a Deusa da Lua decidia tudo.

Que o vínculo determinava o futuro.

Que os companheiros estavam destinados um ao outro.

Mas, se isso fosse verdade...

Por que Kael conseguira rejeitá-la?

Na Fortaleza do Norte...

O grande salão permanecia vazio.

Kael estava diante do enorme mapa das alcateias.

Sete estandartes marcavam os territórios dos Supremos.

Seu olhar permanecia fixo na região das Montanhas Nebulosas.

A porta abriu-se.

Nolan entrou ainda com o braço enfaixado.

Havia conseguido retornar antes dos demais guerreiros.

Curvou-se respeitosamente.

— Supremo.

Kael virou-se imediatamente.

— Encontrou alguma pista?

O capitão hesitou.

— Sim.

— Fale.

— Encontramos um vale escondido.

Os olhos de Kael estreitaram-se.

— Elara estava lá?

— Não consegui vê-la.

Kael percebeu a escolha cuidadosa das palavras.

— Não conseguiu... ou ela não estava?

Nolan respirou fundo.

— Havia pessoas protegendo aquele lugar.

Guerreiros muito diferentes dos nossos.

Nenhum carregava o brasão de qualquer alcateia conhecida.

O Supremo aproximou-se.

— Quantos?

— Pelo menos cem.

— Cem?

— Talvez mais.

Kael ficou em silêncio.

Era impossível.

Nenhuma alcateia escondida conseguiria reunir tantos guerreiros sem chamar atenção.

— O que mais viu?

— Lobos negros.

Muito maiores que os comuns.

Patrulhando toda a floresta.

Kael lembrou-se de uma história que ouvira quando ainda era menino.

Sua mãe costumava contá-la antes de dormir.

A lenda dos Guardiões da Lua Negra.

Na época acreditava ser apenas um conto.

Agora...

Talvez não fosse.

Nolan retirou cuidadosamente um pedaço de tecido do bolso.

— Encontramos isto.

Kael recebeu o objeto.

Era um pequeno fragmento de capa negra bordada com fios prateados.

No centro existia um símbolo.

Uma lua cercada por galhos.

Seu coração acelerou.

Já havia visto aquele desenho.

Não lembrava onde.

Mas conhecia aquele símbolo.

Muito bem.

Antes que pudesse organizar os pensamentos, outro capitão entrou apressado.

— Supremo.

Temos um problema.

Kael voltou-se para ele.

— O que aconteceu?

— Recebemos mensagens dos outros territórios.

Os seis Supremos começaram a se mover.

O salão mergulhou em absoluto silêncio.

— Todos?

— Sim.

Nolan arregalou os olhos.

Aquilo nunca acontecia.

Os Supremos raramente deixavam seus próprios domínios.

Kael caminhou lentamente até a janela.

Seu pressentimento piorava a cada instante.

Alguém estava reunindo todos os Alfas.

E isso jamais terminava bem.

Na fronteira oeste...

Uma enorme alcateia ocupava o topo de um penhasco.

Bandeiras vermelhas tremulavam ao vento.

No centro do campo de treinamento, um homem de cabelos dourados golpeava um tronco com tamanha força que a madeira se partiu ao meio.

Seu nome era Lucien Valerius.

Supremo Alfa do Oeste.

Conhecido por jamais perder uma batalha.

Um mensageiro aproximou-se correndo.

— Meu Alfa.

Lucien limpou o suor do rosto.

— Encontraram alguma coisa?

— Sim.

O selo despertou.

Ele permaneceu imóvel.

Durante alguns segundos, apenas o vento respondeu.

— Tem certeza?

— Os observadores confirmaram.

Lucien fechou lentamente os olhos.

Então sorriu.

Não era um sorriso de felicidade.

Parecia alívio.

— Achei que jamais viveria para ver este dia.

Seu braço direito, Dorian, aproximou-se.

— Vai reunir o exército?

Lucien negou.

— Não.

— Então iremos sozinhos?

— Também não.

Dorian pareceu confuso.

— O que pretende fazer?

Lucien olhou para o céu.

— Esperar.

— Esperar?

— Se os outros Supremos correrem atrás dela como cães famintos...

Terão exatamente o destino que merecem.

Dorian permaneceu em silêncio.

Conhecia aquele olhar.

Seu Alfa escondia muito mais do que demonstrava.

— O senhor conhece a Rainha da Lua Negra?

Lucien sorriu discretamente.

— Não.

Conheço apenas a promessa feita por meu avô antes de morrer.

Dorian arqueou as sobrancelhas.

— Que promessa?

Lucien respondeu sem desviar os olhos do horizonte.

— "Quando a herdeira despertar... lute ao lado dela."

Enquanto isso, muito longe dali...

Dentro de uma carruagem luxuosa coberta por cortinas negras, uma mulher observava a estrada com expressão serena.

Seu nome era Selene Voss.

Suprema Alfa do Sul.

A única mulher entre os sete governantes.

Elegante.

Inteligente.

Temida.

Uma criada aproximou-se.

— Minha Alfa.

Recebemos notícias da fronteira.

Selene fechou o livro que lia.

— Conte.

— Kael também iniciou buscas.

Ela sorriu.

— Imaginei.

— Acredita que ele encontrou a garota?

Selene levantou-se lentamente.

— Não.

Se tivesse encontrado...

Não estaria vivo para contar.

A criada arregalou os olhos.

— Então a herdeira realmente existe?

Selene caminhou até a janela da carruagem.

— Durante muitos anos esperei por ela.

Agora quero descobrir...

Se é digna da coroa que carrega.

No Vale da Lua Negra...

A noite caía lentamente.

Elara permanecia sozinha às margens do espelho d'água.

A espada repousava ao seu lado.

Desde que a tocara, uma estranha sensação a acompanhava.

Era como se pudesse ouvir sussurros muito distantes.

Fechou os olhos.

Respirou profundamente.

A água permaneceu imóvel durante alguns segundos.

Então pequenas ondas começaram a surgir.

Sem vento.

Sem qualquer motivo aparente.

Elara abriu os olhos.

Seu reflexo desaparecera.

No lugar dele surgiu outra imagem.

Uma menina.

Não devia ter mais de doze anos.

Estava correndo por um corredor de pedra.

Parecia assustada.

O vestido branco encontrava-se manchado de sangue.

Ela olhava para trás repetidamente.

Como se fugisse de alguém.

Então tropeçou.

Uma mulher mascarada apareceu diante dela.

Segurava uma adaga.

A menina ergueu o rosto.

Seus olhos eram exatamente iguais aos de Elara.

Antes que a lâmina a alcançasse, a imagem desapareceu.

A água voltou ao normal.

Elara ficou sem ar.

Aquela criança...

Parecia pertencer à sua família.

Talvez muito mais do que isso.

Passos aproximaram-se rapidamente.

Orion surgiu correndo.

Sua expressão era grave.

— Elara.

Ela levantou-se imediatamente.

— O que aconteceu?

— Nossos batedores voltaram.

— E?

O capitão respirou fundo.

— Os seis Supremos já cruzaram suas fronteiras.

Ela sentiu o coração acelerar.

— E Kael?

Orion sustentou seu olhar por alguns segundos.

— Ele foi o único que não saiu de seu território.

O silêncio tomou conta do santuário.

Elara não sabia se aquilo significava alívio... ou o prenúncio de algo ainda mais perigoso.

Naquele mesmo instante, sem que ninguém no vale percebesse, uma figura encapuzada atravessava os limites da barreira mágica que protegia a Lua Negra.

Ela não vinha com um exército.

Nem carregava bandeiras.

Caminhava completamente sozinha.

E sorria.

Como alguém que conhecia aquele lugar muito melhor do que qualquer um de seus habitantes.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App