Capítulo 28 – O Primeiro Portão de Arkan

A voz de Aurora desapareceu.

O medalhão permaneceu aquecido entre os dedos de Elara.

Ela continuou imóvel por alguns segundos, tentando organizar a enxurrada de emoções que atravessava seu peito.

Aurora havia preparado tudo.

Cada lembrança.

Cada selo.

Cada pista.

Como se soubesse exatamente quais perguntas a filha faria ao longo do caminho.

Mirena percebeu o brilho diferente nos olhos da jovem.

Aproximou-se sem fazer perguntas.

Esperou.

Foi Elara quem rompeu o silêncio.

— Minha mãe deixou outra mensagem.

Todos voltaram a atenção para ela.

Até Nythar interrompeu o voo e pousou novamente sobre uma formação rochosa próxima ao grupo.

O enorme dragão observava a jovem atentamente.

— O que ela disse?

Elara abriu lentamente a mão, revelando o medalhão prateado.

— Disse que não devo confiar em tudo o que encontrarmos dentro de Arkan.

Cassian estreitou os olhos.

— Inteligente.

Lucien olhou para ele.

— Por quê?

O antigo Guardião respondeu:

— Porque Arkan foi construída para testar quem entrasse nela.

Não apenas protegê-la.

Mirena confirmou com um leve movimento da cabeça.

— As histórias antigas falavam sobre isso.

Ninguém atravessava seus portões apenas usando força.

Era preciso merecer continuar.

Elara respirou fundo.

— Ela também disse outra coisa.

Todos aguardaram.

— O verdadeiro Cofre Real não fica sob Arkan.

O silêncio voltou a dominar o vale.

Cedric foi o primeiro a reagir.

— Como assim?

Orion franziu a testa.

— Passamos todo esse tempo tentando chegar ao Cofre...

E agora descobrimos que ele nem está lá?

Mirena sorriu discretamente.

— Não.

Descobrimos que Arkan é apenas o começo.

Selene permaneceu olhando para o medalhão.

Havia algo familiar naquele objeto.

Muito familiar.

Ela aproximou-se.

— Posso vê-lo?

Elara entregou o medalhão sem hesitar.

Assim que Selene o segurou...

Seu semblante mudou.

Ela fechou os olhos.

Respirou profundamente.

Depois abriu um pequeno compartimento escondido na parte traseira da peça.

Todos ficaram surpresos.

Ninguém havia percebido aquela abertura.

Dentro dela existia um fino fragmento de cristal azul.

Pequeno.

Quase transparente.

Mirena levou a mão à boca.

— Não acredito...

Selene retirou cuidadosamente o cristal.

— Aurora...

Você conseguiu esconder até isto...

Kael aproximou-se.

— O que é?

A antiga líder da Lua Sombria ergueu o cristal contra a luz.

— Uma Chave de Memória.

Aiden arregalou os olhos.

— Pensei que todas tivessem sido destruídas.

— Quase todas.

Respondeu Selene.

— Cada guardião possuía uma.

Elas registravam acontecimentos impossíveis de alterar.

Aurora deve ter escondido a dela aqui.

Elara voltou a segurar o medalhão.

— Então podemos assistir às lembranças dela?

Selene balançou a cabeça.

— Ainda não.

— Por quê?

— Porque a memória foi lacrada.

Só poderá ser aberta dentro de Arkan.

O grupo iniciou a marcha pouco antes do amanhecer.

Nythar voava acima das montanhas.

Lucien liderava a dianteira ao lado de Orion.

Cedric organizava a retaguarda com os guerreiros da Lua Negra.

Kael mantinha os soldados do Norte distribuídos entre as laterais da coluna.

Magnus caminhava em silêncio.

Cassian seguia alguns metros atrás.

Nenhum dos dois trocava palavras.

A antiga relação entre mestre e discípulo havia mudado completamente.

Magnus ainda respeitava Cassian.

Mas já não aceitava tudo sem questionar.

Depois de quase uma hora de caminhada, o terreno começou a mudar.

As árvores tornaram-se mais altas.

Os troncos eram escuros como carvão.

Musgos prateados cobriam as pedras.

Não existiam pássaros.

Nem insetos.

O lugar parecia suspenso no tempo.

Elara sentiu a marca em seu pulso aquecer.

O medalhão respondeu imediatamente.

Pequenas linhas luminosas começaram a surgir em sua superfície.

Mirena sorriu.

— Estamos perto.

Lucien observava tudo com atenção.

— Não vejo nenhuma passagem.

Nythar pousou sobre uma enorme rocha.

— Porque ela ainda está escondida.

Aiden caminhou até a parede da montanha.

Passou lentamente a mão sobre a pedra.

Nada.

Apenas rocha sólida.

Cedric bateu duas vezes com o cabo do machado.

O som também parecia comum.

— Tem certeza de que é aqui?

Nythar confirmou.

— Tenho.

Passei por esse caminho muitas vezes.

Selene aproximou-se da parede.

Fechou os olhos.

Respirou profundamente.

Depois abriu um leve sorriso.

— Ela ainda está funcionando.

Kael franziu a testa.

— Ela quem?

— A Sentinela.

Antes que alguém perguntasse mais alguma coisa...

A montanha respondeu.

Um som grave percorreu toda a extensão do penhasco.

Como engrenagens gigantescas despertando depois de séculos.

As árvores começaram a balançar.

O chão vibrou.

E uma voz feminina ecoou entre as pedras.

— Identifique-se.

Todos levaram as mãos às armas.

A voz não parecia humana.

Também não era agressiva.

Era fria.

Precisa.

Como alguém cumprindo apenas uma função.

Mirena deu um passo à frente.

— Mirena.

Antiga Suma Sacerdotisa da Lua Negra.

Silêncio.

Depois...

— Identidade confirmada.

Uma pequena luz azul surgiu na pedra.

Em seguida, desapareceu.

A voz voltou.

— Acesso negado.

Cedric arregalou os olhos.

— Negado?

Selene respirou fundo.

— Ela não reconhece mais títulos antigos.

Aiden compreendeu imediatamente.

— O sistema reiniciou.

Nythar rugiu baixo.

— Então só resta uma pessoa.

Todos olharam para Elara.

A jovem aproximou-se lentamente.

Seu coração acelerava a cada passo.

Parou diante da montanha.

A voz falou novamente.

— Identifique-se.

Elara respirou fundo.

— Meu nome é Elara Ravencrest.

O silêncio permaneceu.

Nada aconteceu.

Lucien olhou para Mirena.

— Não funcionou.

Então a voz tornou a ecoar.

— Nome recusado.

Elara franziu a testa.

— Recusado?

Mirena empalideceu.

— Não...

Selene fechou lentamente os olhos.

— Ela está pedindo seu verdadeiro nome.

A jovem permaneceu imóvel.

— Eu não sei qual é.

A montanha voltou ao silêncio.

Nenhuma luz.

Nenhum movimento.

Cassian aproximou-se.

— Aurora apagou essa lembrança.

Aiden assentiu.

— Para protegê-la.

Elara abaixou a cabeça.

Sentia-se frustrada.

Estavam tão perto.

Mas não podiam avançar.

Foi então que o medalhão voltou a aquecer.

Aurora havia deixado mais do que uma mensagem.

Pequenas rachaduras surgiram no cristal azul escondido dentro dele.

Uma nova lembrança invadiu a mente de Elara.

Ela era apenas uma menina.

Aurora penteava seus cabelos diante de um enorme espelho.

— Nunca conte esse nome para ninguém.

A pequena Elara sorriu.

— Nem para a vovó?

Aurora riu.

— Sua avó já sabe.

— Nem para meus amigos?

— Também não.

— E se eu esquecer?

Aurora beijou sua testa.

— Então um dia seu coração lembrará por você.

A lembrança desapareceu.

Elara abriu os olhos.

Uma única palavra escapou de seus lábios.

Não porque tivesse decidido pronunciá-la.

Mas porque a memória simplesmente voltou.

— Elyra...

No mesmo instante...

Toda a montanha estremeceu.

Runas douradas surgiram por quilômetros de extensão.

As árvores inclinaram-se.

O lago distante começou a brilhar.

Nythar abaixou lentamente a cabeça.

Mirena deixou lágrimas escaparem.

Selene levou a mão ao peito.

Cassian permaneceu completamente imóvel.

Até Aldren perdeu a serenidade.

A voz da montanha voltou.

Mas já não era fria.

Havia respeito nela.

Quase emoção.

— Bem-vinda de volta...

Elyra de Arkan.

Última Guardiã da Cidade Eterna.

Diante dos olhos de todos, a parede de pedra começou a se dividir lentamente.

Não revelava apenas um túnel.

Revelava uma avenida inteira.

Construída em mármore negro.

Iluminada por milhares de cristais que acendiam um após o outro.

Ao longe, muito além da entrada recém-aberta, era possível enxergar as primeiras torres da cidade perdida.

Arkan finalmente despertava.

E, ao mesmo tempo, milhares de vozes antigas ecoaram pelas ruas vazias.

Como se os espíritos dos antigos guardiões soubessem que sua herdeira havia retornado para concluir a missão iniciada muitos séculos antes.

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