Mundo de ficçãoIniciar sessãoA rachadura no céu continuava aumentando.
O círculo negro girava lentamente sobre as montanhas, enquanto filamentos de luz dourada escapavam de seu interior como rios luminosos atravessando uma antiga muralha.
O vale inteiro estremecia.
Pequenas pedras deslizavam pelas encostas.
O lago sagrado formava ondas cada vez mais altas.
Os animais da floresta fugiam em todas as direções.
Até os lobos de Nythar permaneciam inquietos.
Elara observava aquela fenda com o coração acelerado.
A energia que saía dela era diferente de tudo que já sentira.
Não carregava ódio.
Nem violência.
Era uma presença esmagadora.
Antiga.
Como se o próprio tempo tivesse adquirido forma.
Mirena caminhou até sua frente.
— Não olhe diretamente para a fenda durante muito tempo.
— Por quê?
— Porque ela desperta lembranças que ainda não pertencem a você.
Elara desviou o olhar.
Mesmo assim, fragmentos surgiram em sua mente.
Um enorme salão branco.
Sete tronos vazios.
Um homem caminhando lentamente entre eles.
Seu rosto permanecia escondido pela luz.
Mas sua voz...
Era exatamente a mesma que ouvira momentos antes.
Ela levou a mão à cabeça.
A lembrança desapareceu.
Mirena percebeu.
— Você viu alguma coisa?
— Apenas uma sombra.
E sete tronos.
A sacerdotisa fechou os olhos.
— Então o selo realmente está enfraquecendo.
Lucien aproximou-se de Nythar.
— Se o Oráculo está preso...
Quem construiu essa prisão?
O dragão permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu:
— Nós.
— Nós?
— Dragões Lunares.
Lobos Celestiais.
Sacerdotisas.
Guardiões.
E os dois antigos reinos.
Selene completou:
— Lua Negra e Lua Sombria.
Kael franziu a testa.
— Então vocês lutaram juntos?
Selene assentiu.
— Durante algum tempo.
Cassian abaixou lentamente a cabeça.
— Antes de sermos divididos.
Nythar olhou para todos.
— Essa é outra mentira que precisa ser corrigida.
O dragão ergueu lentamente a cabeça em direção ao céu.
Sua voz tornou-se ainda mais grave.
— Nunca existiu uma guerra entre a Lua Negra e a Lua Sombria.
O silêncio tomou conta do grupo.
Lucien foi o primeiro a reagir.
— Como assim?
Selene respirou fundo.
— Porque nunca chegamos a lutar.
Elara arregalou os olhos.
— Mas...
Todas as histórias...
Mirena respondeu.
— Foram alteradas.
A verdadeira guerra começou depois da morte de Lyra.
Depois da queda do palácio.
Antes disso existiam apenas conflitos políticos.
Não uma guerra.
Cassian apertou os punhos.
— Eu passei séculos acreditando que derrotara um reino.
Selene olhou para ele.
— E eu passei séculos acreditando que você havia iniciado aquele conflito.
Os dois permaneceram em silêncio.
Mais uma mentira desaparecia.
Aiden caminhou lentamente até Mirena.
— Então chegou a hora.
Ela concordou.
— Sim.
O velho Guardião voltou-se para todos.
— Existe uma pergunta que ninguém fez.
Kael cruzou os braços.
— Qual?
— Por que chamamos aquela entidade de Oráculo?
Todos ficaram em silêncio.
Parecia uma pergunta simples.
Mas ninguém possuía a resposta.
Nythar soltou um longo suspiro.
— Porque esquecemos seu verdadeiro nome.
Lucien franziu a testa.
— Isso é possível?
— Sim.
Respondeu Mirena.
— Existe uma magia capaz de apagar um nome da história.
Quando isso acontece...
As pessoas continuam lembrando da existência daquele indivíduo.
Mas esquecem quem ele realmente era.
Elara sentiu um arrepio.
— Então...
O Oráculo não nasceu sendo chamado assim.
Selene confirmou.
— Não.
Esse era apenas o título que recebeu.
Cassian olhou novamente para a fenda.
— E o verdadeiro nome?
Nythar balançou lentamente a cabeça.
— Está escondido dentro do Cofre Real.
Aldren permaneceu observando toda a conversa.
Seu semblante estava mais sério do que nunca.
Elara voltou-se para ele.
— Você sabia disso?
— Sabia.
— Então por que não contou?
O líder dos Coletores respondeu sem hesitar.
— Porque sem o nome verdadeiro ninguém consegue destruir o Oráculo.
Mirena concordou.
— Ele está dizendo a verdade.
Kael olhou para a sacerdotisa.
— O nome possui tanto poder assim?
Ela aproximou o cajado do chão.
As runas voltaram a brilhar.
— Nas antigas leis da magia...
Conhecer o verdadeiro nome de alguém significa compreender sua essência.
Enquanto chamarmos aquela entidade apenas de Oráculo...
Ela continuará escondida atrás do próprio título.
Lucien soltou um longo suspiro.
— Então estamos lutando contra alguém cuja identidade nem conhecemos.
— Exatamente.
Respondeu Nythar.
— E foi exatamente isso que ele planejou.
Magnus permanecia alguns metros atrás.
Tudo parecia cada vez mais distante das batalhas que conhecia.
Exércitos.
Conquistas.
Territórios.
Nada disso importava diante daquela verdade.
Aproximou-se de Cassian.
— Mestre.
Cassian sorriu discretamente.
— Ainda me chama assim?
— Ainda não encontrei outro nome.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.
Magnus voltou a falar.
— Se tudo isso começou antes mesmo da guerra...
Então nós nunca fomos os verdadeiros inimigos.
Cassian respondeu olhando para o céu.
— Não.
Fomos apenas peças.
A frase pesou sobre ambos.
Durante décadas acreditaram estar moldando o destino do continente.
Agora percebiam que também haviam sido manipulados.
Enquanto isso...
A marca no pulso de Elara voltou a brilhar.
Só que desta vez as runas não permaneceram sobre sua pele.
Elas começaram a flutuar.
Uma.
Depois outra.
Até formar um pequeno círculo luminoso diante dela.
Mirena arregalou os olhos.
— Isso nunca aconteceu.
Selene aproximou-se lentamente.
As runas começaram a girar.
No centro do círculo surgiu uma pequena imagem.
Era um mapa.
Nythar reconheceu imediatamente.
— O caminho.
Lucien olhou sem entender.
— Caminho para onde?
O dragão respondeu:
— Para o Cofre Real.
O mapa permanecia incompleto.
Algumas partes desapareciam como fumaça.
Outras surgiam novamente.
Elara aproximou a mão.
Assim que tocou uma das runas...
A imagem tornou-se mais nítida.
Agora era possível enxergar uma antiga cidade construída no interior das montanhas.
Torres de pedra.
Pontes suspensas.
Jardins.
E um enorme palácio esculpido diretamente na rocha.
Kael ficou impressionado.
— Isso tudo existia?
Mirena sorriu com nostalgia.
— Existia.
A capital da Lua Negra.
A cidade de Noctis.
Elara permaneceu olhando para aquelas construções.
Sem saber por quê...
Sentia que conhecia aquele lugar.
Sua respiração tornou-se mais lenta.
Outra lembrança surgiu.
Ela corria por um corredor repleto de flores negras.
Aurora ria enquanto tentava alcançá-la.
Lyra observava as duas de uma varanda.
A memória terminou quando uma grande porta dourada apareceu diante delas.
Aurora ajoelhou-se.
Segurou delicadamente o rosto da filha.
— Nunca entre aqui sem mim.
Prometa.
A pequena Elara assentiu.
A lembrança desapareceu.
Ela abriu os olhos.
As lágrimas escorriam silenciosamente.
— Eu estive diante do Cofre.
Mirena aproximou-se.
— Sim.
Aurora levou você até lá pouco antes do ataque ao palácio.
Elara respirou profundamente.
— Ela já sabia.
— Sabia que talvez não voltasse.
O silêncio voltou a dominar o grupo.
Ninguém conseguiu encontrar palavras.
De repente...
A enorme fenda no céu brilhou novamente.
Desta vez, uma única mão surgiu do outro lado.
Não era uma mão envelhecida.
Nem monstruosa.
Parecia a mão de um homem comum.
Longos dedos.
Pele clara.
Sem qualquer marca.
Mas, no instante em que atravessou parcialmente o selo, todo o vale tremeu.
Nythar rugiu.
Selene empunhou a espada.
Cassian fez o mesmo.
Aiden colocou-se diante de Elara.
Mirena ergueu o cajado.
Aldren fechou os olhos.
Como alguém que acabara de confirmar seu maior medo.
Então a voz voltou a ecoar.
Calma.
Quase gentil.
— Vejo que ainda se lembram de como construir prisões...
A mão recuou lentamente para dentro da rachadura.
Mas deixou algo cair.
Um pequeno objeto atravessou o céu e pousou suavemente sobre a grama.
Era uma peça de xadrez.
Esculpida em ônix negro.
Representava um rei.
Quando Elara se aproximou, percebeu um detalhe gravado em sua base.
Havia uma única palavra escrita em uma língua antiga.
Mirena empalideceu ao reconhecê-la.
— Não...
Lucien olhou para ela.
— O que significa?
A sacerdotisa respondeu quase sem voz.
— Esse não é o nome dele...
É o nome de quem o aprisionou.
E, se essa peça apareceu agora...
Significa que alguém está apagando as últimas proteções do Cofre Real.







