Capítulo 27 – A Cidade Enterrada

A peça de ônix permaneceu imóvel sobre a relva.

Ninguém se aproximou imediatamente.

Mesmo sem emitir qualquer brilho, sua simples presença fazia o ar parecer mais pesado.

Mirena observava o pequeno rei esculpido como se estivesse diante de uma lembrança que jamais desejara reviver.

Elara caminhou devagar até ela.

— Você reconheceu a inscrição.

A antiga sacerdotisa demorou alguns instantes antes de responder.

— Reconheci.

— O que está escrito?

Mirena respirou profundamente.

— Arkan.

Nythar fechou os olhos.

O enorme dragão permaneceu completamente imóvel.

Até suas asas deixaram de se mover.

Lucien percebeu.

— Esse nome significa alguma coisa.

O dragão respondeu sem desviar os olhos da peça.

— Significa muito.

Selene cruzou lentamente os braços.

— Arkan não era um homem.

Kael franziu a testa.

— Então quem era?

Cassian respondeu antes dela.

— Era uma cidade.

O silêncio voltou a dominar o vale.

Elara olhou novamente para a peça.

— Uma cidade?

Mirena confirmou.

— A cidade onde nasceu a antiga Aliança.

Ela ajoelhou-se diante da peça de ônix.

Passou delicadamente os dedos sobre a inscrição.

— Antes da Lua Negra.

Antes da Lua Sombria.

Antes mesmo dos Supremos.

Existia apenas Arkan.

Todos permaneceram atentos.

Até Aldren parecia interessado.

Mirena continuou.

— Lobos.

Dragões.

Sacerdotes.

Ferreiros.

Curandeiros.

Todos viviam juntos.

Era a maior cidade que este continente já conheceu.

Elara sentiu um arrepio.

Mais uma vez, a história ensinada durante toda a vida revelava-se incompleta.

Aiden aproximou-se.

— Achei que Arkan tivesse sido destruída.

Mirena balançou a cabeça.

— Não foi.

— Então onde está?

Nythar respondeu.

— Debaixo dos nossos pés.

Todos olharam para o chão.

Cedric arregalou os olhos.

— Está dizendo que...

O dragão confirmou.

— A capital da Lua Negra foi construída sobre as ruínas de Arkan.

Lucien passou a mão pelos cabelos.

— Então o Cofre Real...

Selene completou.

— Não pertence à Lua Negra.

Pertence a Arkan.

A revelação fez até Cassian permanecer em silêncio.

Durante décadas, acreditara que o Cofre era apenas um tesouro da família de Lyra.

Agora compreendia que aquele lugar era muito mais antigo.

Muito mais importante.

Elara voltou a olhar para o mapa formado pelas runas.

Agora conseguia distinguir duas cidades.

A primeira era Noctis.

A segunda aparecia sob ela.

Muito maior.

Com muralhas gigantescas.

Templos.

Praças.

Torres circulares.

Era como se toda uma civilização tivesse sido soterrada.

— Então minha família apenas protegeu esse lugar.

Mirena sorriu.

— Exatamente.

Sua família nunca foi dona do Cofre.

Foi apenas sua guardiã.

A jovem permaneceu em silêncio.

Aquilo fazia sentido.

Aurora jamais tratava o Cofre como uma herança.

Sempre falava dele como uma responsabilidade.

Outra lembrança surgiu.

Ela ainda era pequena.

Caminhava ao lado da mãe por um corredor iluminado por cristais.

— Um dia isso tudo será meu?

Aurora havia parado.

Ajoelhara diante dela.

Segurara delicadamente suas mãos.

— Não.

Será sua obrigação proteger.

Jamais possuir.

A lembrança desapareceu.

Elara abriu lentamente os olhos.

Um sorriso triste surgiu em seus lábios.

Finalmente compreendia aquelas palavras.

Enquanto isso...

Aldren observava Cassian.

— Agora entende por que nunca lutei para conquistar reinos?

Cassian respondeu sem desviar o olhar do mapa.

— Porque nenhum reino importava.

— Exatamente.

O continente inteiro é apenas a superfície.

O verdadeiro legado permanece enterrado.

Magnus aproximou-se discretamente.

— Então todas aquelas guerras...

Aldren respondeu.

— Distrações.

Os reinos brigavam entre si enquanto Arkan permanecia esquecida.

Magnus baixou a cabeça.

Outra convicção desmoronava.

Lucien caminhou até Mirena.

— Ainda existe alguma entrada para essa cidade?

A sacerdotisa apontou para o mapa.

— Três.

Ela tocou uma das runas.

Um pequeno brilho destacou uma passagem.

— A primeira foi destruída durante a queda do palácio.

Tocou outra.

— A segunda desabou séculos antes.

Restava apenas uma.

Escondida entre as montanhas.

Elara reconheceu imediatamente o local.

Era exatamente o caminho mostrado por suas memórias.

— O Desfiladeiro dos Ecos.

Nythar confirmou.

— Sim.

Por isso ele sempre foi considerado amaldiçoado.

Não era uma maldição.

Era um sistema de defesa.

Kael olhou para o mapa.

— Então os Sentinelas de Pedra...

Mirena respondeu.

— Nunca protegeram a montanha.

Protegem Arkan.

O enorme círculo negro no céu continuava emitindo pequenos estalos.

A rachadura aumentava lentamente.

Selene observava aquela abertura com preocupação.

Algo não se encaixava.

Muito do que haviam descoberto nas últimas horas desmontava as antigas versões da história.

Mas uma pergunta permanecia sem resposta.

Ela voltou-se para Aldren.

— Você sabia que Arkan existia.

— Sim.

— Sabia que o Cofre era mais antigo que a Lua Negra.

— Sim.

— Então por que esperou tanto tempo para agir?

O líder dos Coletores permaneceu calado durante alguns segundos.

Depois respondeu.

— Porque a cidade estava adormecida.

Todos o encararam.

— Somente um descendente direto da última guardiã poderia despertar seus mecanismos.

Elara compreendeu imediatamente.

— Aurora.

Aldren confirmou.

— Depois da morte dela...

A cidade voltou a dormir.

Todos acreditavam que jamais despertaria novamente.

Até...

Ele olhou diretamente para Elara.

— Você recuperar parte das próprias memórias.

Mirena fechou os olhos.

Tudo fazia sentido.

As lembranças de Elara não eram apenas recordações.

Eram chaves vivas.

Cada memória restaurada despertava outra parte de Arkan.

Cada verdade descoberta removia um selo criado por Aurora.

Nythar rugiu baixo.

— E é exatamente isso que o Oráculo deseja.

Kael aproximou-se do dragão.

— Se recuperar as memórias fortalece o inimigo...

Então deveríamos parar.

Nythar balançou lentamente a cabeça.

— Não.

Seraphine respondeu antes que ele continuasse.

— Porque também fortalece Elara.

Aiden assentiu.

— Aurora não criou apenas barreiras.

Criou um caminho.

Cada lembrança devolvida entrega uma resposta.

Mas também aproxima todos do confronto inevitável.

Lucien soltou um longo suspiro.

— Ou seja...

Não existe mais retorno.

Mirena respondeu com firmeza.

— Nunca existiu.

O sol começava a desaparecer atrás das montanhas.

As sombras aumentavam.

Os guerreiros reorganizavam os equipamentos.

Os cavalos estavam inquietos.

Até os lobos permaneciam em alerta.

Mirena fechou lentamente o mapa de runas.

— Partiremos agora.

Cedric arregalou os olhos.

— Agora?

— Sim.

Quanto mais esperarmos...

Mais fraco ficará o selo.

Ninguém contestou.

Os guerreiros começaram a desmontar o acampamento.

Kael distribuiu seus capitães entre a retaguarda.

Lucien organizou os batedores.

Orion assumiu a frente da coluna ao lado de Cedric.

Selene caminharia próxima a Mirena.

Cassian permaneceu alguns metros atrás.

Magnus decidiu acompanhá-lo.

Nythar sobrevoaria as montanhas.

Aiden protegeria Elara.

Tudo parecia pronto.

Foi então que Elara voltou os olhos para a peça de ônix esquecida sobre a grama.

Algo a incomodava.

Ela aproximou-se.

Abaixou-se.

No instante em que seus dedos tocaram a pequena escultura...

A peça se desfez em poeira negra.

Sob ela havia outro objeto.

Muito menor.

Um medalhão de prata antiga.

No centro existia o mesmo símbolo gravado na porta que aparecia em suas lembranças de infância.

Assim que segurou o medalhão, uma voz feminina ecoou apenas em sua mente.

Era Aurora.

Clara.

Serena.

"Se está ouvindo minha voz, significa que conseguiu chegar mais longe do que eu consegui."

As lágrimas brotaram imediatamente nos olhos de Elara.

Ninguém ao redor ouvira aquela mensagem.

A voz continuou.

"Não confie em tudo o que encontrar dentro de Arkan."

Elara apertou o medalhão contra o peito.

A emoção quase a impedia de respirar.

Aurora fez uma breve pausa.

Então pronunciou as palavras que mudariam completamente o rumo da jornada.

"Minha filha... o verdadeiro Cofre Real não fica sob a cidade."

O coração de Elara disparou.

A voz concluiu:

"Arkan inteira... é apenas a primeira porta."

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