Mundo ficciónIniciar sesiónO salão permaneceu mergulhado em um silêncio pesado.
As palavras de Nolan ainda ecoavam entre as colunas de pedra.
"O Supremo quer encontrá-la viva."
Elara permaneceu imóvel.
Seu coração parecia dividido entre a revolta e uma esperança que ela se recusava a alimentar.
Cinco dias antes, Kael havia destruído sua vida diante de toda a alcateia.
Agora enviava guerreiros para procurá-la.
Por quê?
Porque descobrira um erro?
Porque finalmente decidira ouvi-la?
Ou porque precisava dela para algum interesse político?
Nenhuma dessas possibilidades apagava a dor da rejeição.
Seraphine caminhou lentamente ao redor do prisioneiro.
Seus passos eram silenciosos.
Seu olhar analisava cada expressão de Nolan.
— Você está omitindo alguma coisa.
O guerreiro sustentou seu olhar.
— Não.
— Está.
Ela parou diante dele.
— Conheço pessoas há mais tempo do que você imagina.
Sei reconhecer quando alguém fala apenas parte da verdade.
Nolan abaixou os olhos.
Respirou fundo.
— O Supremo...
Hesitou novamente.
Orion cruzou os braços.
— Continue.
— Desde a cerimônia ele praticamente não dorme.
Elara levantou a cabeça.
Nolan continuou:
— Cancelou reuniões.
Recusou banquetes.
Interrompeu negociações entre as alcateias.
Passa horas trancado na antiga biblioteca da fortaleza.
Procura qualquer registro sobre rejeições de companheiros.
Cedric franziu a testa.
— Estranho.
— Todos comentam que ele mudou.
Ninguém entende o motivo.
Elara fechou os punhos.
Durante anos sonhara em ouvir que Kael sentia sua falta.
Agora essas palavras não lhe traziam conforto.
Apenas despertavam novas perguntas.
Seraphine percebeu seu conflito.
— O arrependimento não desfaz uma injustiça.
Elara concordou em silêncio.
Era exatamente isso.
Mesmo que Kael estivesse sofrendo...
Ela também sofrera.
E ninguém movera um dedo para defendê-la.
Na Fortaleza do Norte...
A biblioteca permanecia completamente vazia.
Centenas de livros antigos cobriam as enormes estantes de madeira escura.
Kael estava sentado diante de uma mesa repleta de pergaminhos.
Seu aspecto mudara nos últimos dias.
A barba começava a crescer.
Os olhos carregavam profundas olheiras.
Desde a rejeição, uma sensação estranha o acompanhava.
Não era culpa.
Ainda acreditava que havia feito justiça.
Mas alguma coisa não se encaixava.
Pegou mais um pergaminho.
Leu rapidamente.
Nada.
Outro.
Também nada.
Todos diziam a mesma coisa.
Quando um Alfa rompia o vínculo com sua companheira...
A ligação desaparecia.
Para sempre.
Então por que...
Levou a mão ao peito.
A dor voltou.
Forte.
Como uma lâmina atravessando suas costelas.
Respirou com dificuldade.
A sensação durou poucos segundos.
Depois desapareceu.
Kael fechou os olhos.
Aquilo acontecia várias vezes ao dia.
Sempre no mesmo lugar.
Sempre da mesma forma.
A porta abriu-se.
O velho Ancião entrou lentamente.
— Ainda procurando respostas?
Kael nem levantou a cabeça.
— Preciso entender.
— Entender o quê?
— Por que continuo sentindo o vínculo.
O Ancião permaneceu em silêncio durante alguns instantes.
Depois aproximou-se da mesa.
— Porque talvez ele nunca tenha sido completamente rompido.
Kael ergueu os olhos.
— Isso é possível?
— Não deveria.
— Mas?
O velho suspirou.
— Existem histórias muito antigas.
Quase todas foram proibidas pelo Conselho.
Falam sobre uma linhagem diferente.
Uma família cujo vínculo jamais podia ser destruído.
Kael levantou-se imediatamente.
— Que linhagem?
Antes que o Ancião respondesse, alguém bateu à porta.
Era um mensageiro.
Estava ofegante.
— Supremo...
Kael voltou-se para ele.
— Fale.
— Encontramos isto entre os pertences da senhorita Lyanna.
O homem entregou um pequeno embrulho envolvido em tecido.
Kael abriu cuidadosamente.
Dentro havia uma pulseira de prata.
Reconheceu o objeto imediatamente.
Era de Elara.
Ela costumava usá-la todos os dias.
Mas havia algo diferente.
Dentro da pulseira existia um pequeno compartimento secreto.
Jamais percebera aquilo.
Kael pressionou delicadamente a trava.
Um pedaço de papel dobrado apareceu.
Era uma carta.
Escrita com a caligrafia de Lyanna.
Suas mãos começaram a tremer enquanto lia.
"Elara,
Se alguma coisa acontecer comigo, nunca deixe Kael culpar você.
Descobri que existe alguém dentro do Conselho trabalhando contra nossa família.
Ainda não sei quem é.
Mas tenho medo.
Se eu desaparecer...
Prometa que fugirá.
Eles também irão atrás de você."
Kael parou de respirar.
Relia aquelas linhas inúmeras vezes.
Não.
Aquilo não podia ser real.
Se Lyanna escrevera aquela carta...
Ela sabia que corria perigo.
E tentara proteger Elara.
O Supremo apertou o papel entre os dedos.
A lembrança da cerimônia voltou como um golpe.
O olhar desesperado de Elara.
Sua voz implorando para ser ouvida.
As lágrimas.
O momento em que caiu diante de todos.
Ele nunca lhe dera uma chance de se explicar.
Nunca perguntara nada.
Apenas acreditara nas provas apresentadas pelo Conselho.
Seu estômago revirou.
Pela primeira vez desde a morte da irmã...
Kael começou a considerar uma possibilidade que sempre recusara.
E se Elara fosse inocente?
Enquanto isso...
No Vale da Lua Negra, Seraphine conduzia Elara por um caminho estreito entre as montanhas.
As duas caminhavam em silêncio.
A chuva da noite anterior dera lugar a um céu limpo.
O vale parecia ainda mais belo sob a luz do sol.
Pequenos lagos refletiam as montanhas.
Flores prateadas cobriam os campos.
Lobos negros corriam livremente entre as árvores.
Nenhum deles demonstrava medo da presença humana.
Pelo contrário.
Cumprimentavam Seraphine inclinando discretamente a cabeça.
Elara observava tudo.
— Este lugar é lindo.
Seraphine sorriu.
— Foi construído antes da fundação das alcateias.
— Quantas pessoas vivem aqui?
— Cerca de quatrocentas.
Elara arregalou os olhos.
Era muito mais do que imaginava.
Seguiram caminhando até chegarem diante de uma enorme construção circular.
Diferente das demais casas.
Era feita de pedra negra.
Grandes colunas sustentavam um teto aberto.
No centro existia um espelho d'água completamente imóvel.
A superfície refletia o céu com uma nitidez impressionante.
— O que é este lugar?
— O Santuário da Lua.
Elara aproximou-se.
A água parecia chamar por ela.
Sem perceber, estendeu a mão.
Assim que seus dedos tocaram a superfície...
O lago inteiro brilhou.
Ondas prateadas espalharam-se em todas as direções.
Símbolos antigos surgiram sob a água.
Runas.
Constelações.
Desenhos de lobos gigantes.
O chão começou a tremer.
Os guardas presentes recuaram imediatamente.
Seraphine permaneceu imóvel.
Como se esperasse exatamente por aquilo.
A água ergueu-se lentamente.
Transformou-se em uma enorme coluna luminosa.
Dentro dela surgiu a imagem de uma mulher usando uma coroa negra.
Seu rosto lembrava muito o de Elara.
Os cabelos escuros desciam até a cintura.
Os olhos possuíam um brilho prateado.
A figura observou Elara durante alguns segundos.
Então sorriu.
Sua voz ecoou por todo o santuário.
— Minha descendente...
Você finalmente voltou para casa.
Antes que Elara conseguisse responder, a imagem estendeu a mão em sua direção.
Uma intensa luz envolveu todo o santuário.
Quando o brilho desapareceu...
Uma espada de lâmina completamente negra repousava sobre a superfície da água.
Seu cabo era feito de prata.
No centro havia exatamente o mesmo símbolo marcado no pulso de Elara.
Os guerreiros presentes ajoelharam-se imediatamente.
Orion foi o primeiro.
Depois Cedric.
Em seguida todos os demais.
Seraphine inclinou a cabeça.
Seus olhos estavam marejados.
— A Espada da Lua Negra despertou...
Depois de cinco séculos.
Mas, enquanto todos contemplavam aquele momento histórico, ninguém percebeu a pequena sombra escondida entre as árvores além do santuário.
A figura mascarada observava tudo através das folhas.
Seus olhos fixaram-se na espada.
Em seguida, desapareceu silenciosamente entre a floresta.
Levava consigo a notícia que poderia iniciar uma guerra capaz de destruir todas as alcateias.







