Capítulo 5 – A Espada Escolheu Sua Rainha

O brilho da espada demorou vários instantes para desaparecer.

Mesmo depois que a luz se dissipou, ninguém ousou levantar a cabeça.

O silêncio que dominava o Santuário da Lua era diferente de qualquer outro.

Não havia medo.

Era reverência.

Elara continuava parada diante do espelho d'água, incapaz de desviar os olhos da arma.

A lâmina negra parecia absorver a própria luz do ambiente. Pequenos veios prateados percorriam o metal como se sangue luminoso corresse em seu interior.

Ela nunca havia visto algo parecido.

— O que... é isso?

Sua voz saiu baixa.

Seraphine respirou profundamente antes de responder.

— A espada dos soberanos da Lua Negra.

— Ela pertenceu à última rainha.

Orion completou:

— Dizem que nenhum outro lobo conseguiu sequer tocá-la desde a queda do antigo reino.

Elara olhou para a mulher.

— Então por que apareceu diante de mim?

Seraphine sorriu.

— Porque reconheceu sua verdadeira dona.

Elara balançou a cabeça.

— Ainda estão cometendo um erro.

— Não sou rainha.

— Nem sei lutar além do treinamento básico que recebi na Fortaleza do Norte.

Cedric soltou uma pequena risada.

— Isso pode ser resolvido.

— Liderança também se aprende.

Ela cruzou os braços.

— E se eu não quiser?

A pergunta fez todos se entreolharem.

Seraphine permaneceu serena.

— Você é livre para partir.

Elara arqueou as sobrancelhas.

— Livre?

— Sempre.

— Ninguém será obrigado a carregar uma coroa.

A resposta a surpreendeu.

Durante toda a vida ouvira que o dever vinha antes da vontade.

Na Fortaleza, recusas eram vistas como fraqueza.

Ali...

Ninguém parecia disposto a prendê-la.

Seraphine caminhou até a beira do lago.

— Existe apenas um detalhe.

— Qual?

— Assim que deixar este vale, todas as alcateias sentirão o despertar da Lua Negra.

Elara franziu a testa.

— Como assim?

Orion respondeu.

— Seu poder já começou a despertar.

— Quanto mais forte ele ficar, mais difícil será escondê-lo.

Cedric apontou para o pulso dela.

A marca brilhava intensamente.

Muito mais do que horas antes.

— Essa energia atravessa montanhas.

— Alfas antigos conseguem percebê-la.

— Curandeiros também.

— E quem a procura acabará encontrando você.

Elara permaneceu em silêncio.

Não havia pensado nisso.

Fugir parecia a solução mais simples.

Agora compreendia que talvez não existisse lugar seguro.

Seraphine aproximou-se da espada.

— Toque nela.

— Não.

— Não tenha medo.

Elara respirou fundo.

Aproximou-se lentamente.

Quando seus dedos envolveram o cabo prateado, uma onda de calor percorreu seu corpo.

Seu coração acelerou.

A marca em seu pulso brilhou com tanta intensidade que obrigou todos a fechar os olhos.

Então a espada saiu da água sem oferecer qualquer resistência.

Leve.

Equilibrada.

Como se tivesse sido feita exclusivamente para suas mãos.

No instante em que a ergueu, imagens começaram a invadir sua mente.

Campos cobertos por neve.

Milhares de lobos ajoelhados.

Mulheres usando armaduras negras.

Uma enorme cidade cercada por muralhas de cristal.

Depois...

Fogo.

Muito fogo.

Gritos.

Espadas se chocando.

Sangue escorrendo pelas escadarias de um palácio.

Uma mulher usando uma coroa negra enfrentava dezenas de guerreiros sozinha.

Ela estava ferida.

Mesmo assim continuava lutando.

Antes de cair, olhou diretamente para Elara.

Era o mesmo rosto que aparecera na água.

A rainha.

Sua voz ecoou dentro da mente da jovem.

"Não permita que a história se repita."

As imagens desapareceram.

Elara cambaleou.

Orion conseguiu segurá-la antes que caísse.

— O que aconteceu?

Ela respirava com dificuldade.

— Eu...

Vi uma guerra.

Seraphine não demonstrou surpresa.

— A espada guarda as memórias dos antigos soberanos.

— Ela mostrou aquilo que julgou necessário.

— Quem era aquela mulher?

— Lyra.

A última Rainha da Lua Negra.

Elara fechou os olhos por alguns instantes.

As cenas ainda pareciam reais.

Conseguia sentir o cheiro da fumaça.

Ouvir o som das espadas.

Era como se tivesse vivido tudo aquilo.

Na Fortaleza do Norte...

Kael permanecia sozinho na biblioteca.

A carta encontrada dentro da pulseira continuava aberta sobre a mesa.

Ele a relera tantas vezes que quase decorara cada palavra.

A porta se abriu.

Darius entrou sem pedir permissão.

O conselheiro mantinha a postura elegante de sempre.

— Supremo.

Kael não respondeu.

Continuou olhando para o pergaminho.

Darius aproximou-se.

— Os capitães aguardam novas ordens.

— Ainda não.

— As buscas precisam continuar.

Kael ergueu lentamente o olhar.

— Continuarão.

— Então por que suspendeu metade das patrulhas?

— Porque quero homens vivos.

Não cadáveres.

Darius permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Ainda acredita que ela está escondida nas Montanhas Nebulosas?

Kael não respondeu imediatamente.

Seu olhar permaneceu fixo no rosto do conselheiro.

Algo nele parecia diferente.

Durante anos confiara cegamente naquele homem.

Agora...

Pequenos detalhes chamavam sua atenção.

O excesso de interesse.

As perguntas constantes.

A rapidez com que sempre apresentava respostas.

— Onde encontrou o colar de Lyanna?

Darius respondeu sem hesitar.

— Na antiga casa de Elara.

— Quem encontrou?

— Alguns guardas.

— Quais?

O conselheiro demorou um instante antes de responder.

— Não me lembro dos nomes.

Kael levantou-se.

— Estranho.

Darius franziu discretamente a testa.

— O que quer dizer?

— Você sempre lembra dos nomes.

O ambiente ficou pesado.

Os dois permaneceram em silêncio.

Até que Darius sorriu.

— Está desconfiando de mim?

Kael caminhou lentamente até a janela.

— Estou desconfiando de todos.

O conselheiro inclinou levemente a cabeça.

— Faz bem.

Vivemos tempos perigosos.

Ao sair da biblioteca, porém, o sorriso desapareceu.

Seu semblante endureceu completamente.

Assim que entrou em um corredor vazio, retirou do bolso um pequeno cristal vermelho.

A pedra não emitia qualquer brilho.

Darius apertou o objeto entre os dedos.

— Responda...

Nada.

A pedra permanecia apagada.

Ele respirou fundo.

— Então o espião falhou.

Guardou o cristal novamente.

Precisaria agir antes que Kael descobrisse muito mais.

No Vale da Lua Negra, a rotina mudava rapidamente.

A notícia sobre o despertar da espada espalhara-se por todas as construções.

Homens e mulheres trabalhavam reforçando muralhas escondidas entre as montanhas.

Arqueiros ocupavam pontos elevados.

Ferreiros produziam novas armas.

Curandeiras separavam ervas medicinais.

Elara observava tudo da varanda da cabana de Seraphine.

Aquilo parecia um preparo para guerra.

Não para uma simples defesa.

— Está assustada?

A voz de Orion surgiu atrás dela.

— Um pouco.

Ele apoiou os braços na cerca de madeira.

— Eu também fiquei quando descobri quem era meu pai.

Ela virou-se.

— Você?

— Era um guerreiro do Oeste.

Morreu defendendo este vale.

Elara sorriu discretamente.

— Achei que você tivesse nascido aqui.

— Quase ninguém nasceu.

Ela o encarou sem entender.

Orion apontou para as pessoas que caminhavam pela vila.

— Muitos foram encontrados ainda crianças.

Alguns eram órfãos.

Outros fugiram das próprias alcateias.

Alguns escaparam de guerras.

— Seraphine acolheu todos.

Elara observou novamente o movimento.

Pela primeira vez desde a rejeição... Não.

Ela interrompeu o próprio pensamento e respirou fundo, afastando aquela expressão que não queria repetir nem em sua mente.

Percebeu outra coisa.

As pessoas sorriam umas para as outras.

Conversavam.

Crianças brincavam perto do riacho sem medo.

Ninguém parecia viver sob constante vigilância.

Era um lugar simples.

Mas havia paz.

Uma menina de cabelos cacheados aproximou-se timidamente.

Trazia nas mãos uma pequena flor azul.

— É para você.

Elara sorriu.

— Obrigada.

— A senhora vai mesmo proteger a gente?

A pergunta apertou seu coração.

Ela ajoelhou diante da menina.

— Como você se chama?

— Nara.

— Quantos anos tem?

— Oito.

Elara acariciou delicadamente seus cabelos.

— Ainda não sei se consigo proteger alguém.

Nara sorriu com toda a inocência de uma criança.

— A vovó Seraphine disse que a Lua nunca escolhe a pessoa errada.

Antes que Elara respondesse, um forte toque de sino atravessou todo o vale.

Um.

Dois.

Três.

Orion ficou imediatamente alerta.

Não era o mesmo sinal usado durante o cerco.

Esse era diferente.

Mais urgente.

Um guerreiro apareceu correndo pela estrada principal.

Estava coberto de sangue.

Sua respiração era irregular.

Assim que alcançou a praça central, caiu de joelhos.

— Capitão...

Orion correu até ele.

— O que aconteceu?

O homem tentou recuperar o fôlego.

— Encontramos... o espião.

— Ele está morto?

O guerreiro balançou a cabeça.

— Não...

Sua voz falhou.

— Ele matou cinco dos nossos... e conseguiu fugir.

Orion fechou os punhos.

— Para onde?

O guerreiro apontou para o norte.

— Em direção à Fortaleza de Kael.

Elara sentiu um frio percorrer sua espinha.

Se aquele homem realmente estivesse indo ao encontro do Supremo...

Logo toda a região saberia que a Rainha da Lua Negra havia despertado.

E, dessa vez, a guerra deixaria de ser apenas uma lembrança das antigas lendas para se tornar uma ameaça real.

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