Capítulo 3 – O Cerco da Lua Negra

O silêncio que tomou conta da cabana durou apenas alguns segundos.

Mas foram suficientes para que Elara percebesse a gravidade da situação.

Orion afastou discretamente a cortina da janela.

Lá fora, homens e mulheres cruzavam o pequeno vilarejo escondido entre as montanhas. Ninguém corria em desespero. Não havia gritos. Todos se moviam com rapidez e disciplina, como se estivessem acostumados a enfrentar perigos muito maiores.

Era um povo treinado.

Um povo que sobrevivera séculos escondido.

— Toquem o terceiro sino — ordenou Seraphine.

Uma jovem que aguardava do lado de fora fez uma reverência e desapareceu correndo.

Poucos instantes depois, um som grave atravessou todo o vale.

Diferente dos anteriores.

Mais longo.

Mais profundo.

Os lobos negros espalhados pelo bosque responderam com uivos sincronizados.

O chão pareceu vibrar.

Elara aproximou-se da janela.

A vila era muito maior do que imaginara.

Entre as árvores erguiam-se dezenas de construções de pedra escura, cobertas por musgo e trepadeiras. Pequenos riachos cortavam o terreno, enquanto pontes de madeira ligavam um lado ao outro do vale.

Tudo permanecera escondido do restante do mundo.

Até aquele momento.

— Como encontraram este lugar? — perguntou ela.

Orion continuava observando a movimentação.

— É exatamente isso que precisamos descobrir.

Seraphine caminhou até uma parede e pressionou discretamente uma pedra.

Um compartimento secreto se abriu.

Dentro havia espadas de lâmina negra, arcos esculpidos em madeira branca e pequenas adagas gravadas com o mesmo símbolo que marcava o pulso de Elara.

A mulher retirou uma espada.

Apesar da idade aparente, seus movimentos eram firmes.

Elegantes.

Não havia qualquer hesitação.

— Faz muito tempo que não usamos estas armas.

Orion sorriu de lado.

— Eu estava começando a acreditar que enferrujariam penduradas na parede.

Seraphine lançou-lhe um olhar severo.

— Nunca deseje uma guerra.

Ela respirou fundo.

— Principalmente quando ainda não sabemos quem é o verdadeiro inimigo.

Elara observava tudo em silêncio.

Até poucos dias atrás, sua maior preocupação era tornar-se Luna.

Agora descobria uma linhagem esquecida, uma vila secreta e uma guerra prestes a começar.

Tudo parecia distante da vida que conhecia.

Ou talvez sua antiga vida jamais tivesse sido tão verdadeira quanto imaginava.

A porta da cabana abriu-se novamente.

Entrou um homem alto, de barba grisalha e expressão preocupada.

Vestia uma armadura antiga de couro negro.

Ao ver Elara, fez uma breve reverência.

— Minha Rainha.

Ela deu um passo para trás.

— Não me chamem assim.

O homem sorriu com respeito.

— Ainda não aceita.

É compreensível.

Mas isso não muda quem você é.

Seraphine aproximou-se.

— Cedric, o que descobriram?

— Os batedores retornaram.

Não são centenas.

São apenas quarenta guerreiros.

Orion franziu a testa.

— Quarenta?

— Sim.

— Então não vieram atacar.

Cedric concordou.

— Estão procurando alguma coisa.

Elara sentiu um aperto no peito.

— Estão me procurando.

Seraphine permaneceu pensativa.

— Talvez.

Ou talvez procurem outra pessoa.

Antes que pudesse continuar, outro guarda surgiu à porta.

— Encontramos pegadas.

Orion virou-se imediatamente.

— Onde?

— Atrás das montanhas.

Não pertencem aos guerreiros do Norte.

São de apenas um lobo.

Cedric estreitou os olhos.

— Um espião?

— Não sabemos.

Mas entrou no vale antes dos soldados.

Seraphine fechou lentamente os olhos.

— Então nossa suspeita estava certa.

Alguém revelou nossa localização.

Elara cruzou os braços.

— Vocês vivem escondidos há séculos.

Como podem confiar tão rapidamente em mim e desconfiar de pessoas que estão aqui há anos?

Seraphine sorriu discretamente.

— Excelente pergunta.

Ela caminhou até a janela.

— Não confiamos em ninguém apenas porque vive ao nosso lado.

Confiamos em quem prova merecer essa confiança.

Virou-se para Elara.

— Inclusive você.

A resposta surpreendeu a jovem.

Ela esperava encontrar pessoas cegamente devotas.

Em vez disso, encontrou prudência.

Seraphine continuou:

— O selo escolheu você.

Mas isso não significa que conhecemos seu coração.

Ainda terá muito a demonstrar.

Elara abaixou o olhar.

Era justo.

Ela também não confiava naquelas pessoas.

Nem em si mesma.

Ainda tentava entender por que sobrevivera ao rompimento do vínculo.

Lembrou-se de Kael.

Seu rosto sério.

A voz fria.

As palavras que jamais seriam esquecidas.

Sentiu a dor voltar.

Menor.

Mas suficiente para fazê-la cerrar os punhos.

— Ainda pensa nele.

Seraphine havia percebido.

Elara não respondeu.

— Não precisa sentir vergonha.

Amar alguém não é uma fraqueza.

Fraqueza é permitir que esse amor destrua quem você é.

Essas palavras permaneceram ecoando dentro dela.

Desde menina, aprendera que uma companheira existia para apoiar seu Alfa.

Para segui-lo.

Para protegê-lo.

Jamais lhe ensinaram que também merecia ser protegida.

Cedric rompeu o silêncio.

— Há outra informação.

Todos voltaram a atenção para ele.

— Um dos guerreiros do Norte foi capturado.

Orion arqueou as sobrancelhas.

— Vivo?

— Sim.

Foi encontrado sozinho perto do rio.

Estava ferido.

Seraphine refletiu por alguns instantes.

— Levem-no para o salão.

Quero interrogá-lo.

O prisioneiro permanecia ajoelhado no centro de uma grande construção circular.

As paredes eram iluminadas apenas por tochas.

No teto havia uma enorme abertura por onde a luz da lua entrava diretamente.

Elara acompanhava tudo à distância.

O guerreiro parecia jovem.

Seu rosto estava coberto por cortes.

As mãos permaneciam amarradas.

Mesmo assim, mantinha a postura firme.

Orion aproximou-se.

— Nome.

— Nolan.

— Patente.

— Capitão da Terceira Divisão.

— Quem enviou você?

— O Supremo Alfa.

Elara prendeu a respiração.

Orion continuou.

— Qual é sua missão?

Nolan permaneceu em silêncio.

Cedric aproximou-se.

— Se continuar calado, perderá a oportunidade de voltar vivo.

O guerreiro sorriu.

— Não vim para lutar.

— Então explique.

Ele respirou fundo.

Depois olhou diretamente para Elara.

— Recebemos ordem para encontrá-la.

Ela deu um passo à frente.

— Para me prender?

— Não.

— Então?

Nolan demorou alguns segundos antes de responder.

— O Supremo descobriu que as provas contra você podem ter sido falsas.

O salão inteiro mergulhou em absoluto silêncio.

Elara sentiu o mundo girar.

— O quê?

— Encontraram novos indícios sobre o desaparecimento da senhorita Lyanna.

Orion estreitou os olhos.

— Que indícios?

— Não sei.

O Conselho mantém segredo.

Só sei que o Supremo cancelou todas as caçadas da fronteira e ordenou que procurássemos Elara antes que qualquer outra alcateia a encontrasse.

O coração dela disparou.

Kael...

Estaria arrependido?

Ou havia outro motivo?

Seraphine permaneceu imóvel.

Seu olhar estava distante.

Como se analisasse algo muito além daquelas palavras.

— Isso aconteceu rápido demais.

Cedric concordou.

— Também achei estranho.

Ela voltou a encarar Nolan.

— Quando receberam essa ordem?

— Ontem ao amanhecer.

Seraphine respirou lentamente.

Então perguntou aquilo que realmente importava.

— O Supremo pediu que ela fosse trazida viva...

ou morta?

Nolan respondeu sem hesitar.

— Viva.

A qualquer custo.

Elara fechou os olhos.

Uma parte de seu coração insistia em acreditar que Kael havia descoberto a verdade.

Outra parte lembrava do olhar frio que ele lhe dirigira diante de toda a alcateia.

Não.

Ela não cometeria o erro de confiar novamente apenas por causa de algumas palavras.

Enquanto todos permaneciam concentrados no interrogatório, um vulto escondido entre as vigas do teto observava cada movimento.

Vestia roupas completamente negras.

O rosto permanecia oculto por uma máscara.

Em silêncio absoluto, retirou um pequeno cristal vermelho do bolso.

O objeto brilhou por um breve instante.

Uma mensagem silenciosa atravessou quilômetros de floresta.

Muito longe dali, dentro da Fortaleza do Norte, uma mulher elegante abriu um sorriso discreto ao sentir o cristal responder.

Ela caminhou até a janela de seus aposentos.

— Então ela está viva...

Seus dedos acariciaram o pingente dourado pendurado em seu pescoço.

No reflexo do vidro, seus olhos adquiriram um brilho avermelhado.

— Que pena, Elara.

Você deveria ter morrido naquela noite.

A mulher virou-se lentamente.

Sobre sua mesa repousava um retrato antigo.

Nele apareciam Kael ainda adolescente...

ao lado da irmã desaparecida.

E, discretamente escondida atrás da moldura, havia uma carta envelhecida.

A mesma carta que Lyanna recebera poucas horas antes de desaparecer.

A assinatura permanecia perfeitamente legível.

Não era de Elara.

Era da própria mulher que agora sorria diante da janela.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP