Mundo ficciónIniciar sesiónKaya passou a vida acreditando que era apenas a filha problemática, sufocada pela mãe bruxa controladora e pelas dores que nunca conseguiu explicar. Ao retornar para sua cidade natal, cheia de segredos, lendas e sombras, ela descobre a verdade: foi enfeitiçada pela própria mãe, para impedir que seu verdadeiro poder despertasse. Filha de um híbrido poderoso, meio lobo e meio vampiro, Kaya é a chave que todos os clãs precisam para sobreviver ao caos que se aproxima. Agora, ela é desejada, temida… e necessária. Entre magia, sangue, guerra e destino, Kaya precisa escolher: continuar sendo a garota quebrada que tentaram controlar… ou abraçar o monstro poderoso que nasceu para ser.
Leer másO cheiro de terra molhada era a primeira coisa que ela sentia. Não vinha de um lugar específico, mas parecia subir do chão, das raízes, das sombras. A floresta era densa, escura, árvores altas se inclinavam como testemunhas silenciosas enquanto Kaya corria, sentindo os pés afundarem na lama fria enquanto galhos rasgavam sua pele, mas ainda assim ela não diminuía o ritmo. Não podia. O som vinha de trás, passos pesados, firmes, não humanos.
O ar vibrava com um rosnado grave, profundo, que fazia seus ossos tremerem e parecia se aproximar cada vez mais rápido. — Não… — sua voz saiu fraca, engolida pelo vento. — Socorro! Alguém me ajuda! Ela não olhava para trás, sabia o que encontraria se fizesse isso. Sabia desde o início do sonho, desde o momento em que seus pulmões começaram a queimar e o medo se alojou em seu peito como algo impossível de se ignorar, familiar demais para ser apenas imaginação. Parecia real, uma premonição talvez. A floresta parecia se fechar ao redor dela, as árvores se aproximavam, os troncos retorcidos formavam caminhos impossíveis, enquanto a lua grande e brilhante cheia, observava tudo de cima, indiferente, como se pouco se importasse com o terror que a garota vivia. O lobo uivou, e o som atravessou seu corpo como uma conexão. Kaya tropeçou e caiu de joelhos, com a lama grudando em suas mãos, fria e viscosa. O coração batia tão forte que parecia querer saltar de seu peito, ela tentou se levantar, mas era tarde demais. O lobo saltou. Ela sentiu o impacto antes de ver, sentiu o peso esmagador, o calor da respiração próxima ao seu pescoço, o cheiro forte de sangue e selvageria e, quando finalmente ergueu os olhos, encontrou os dele. Olhos dourados. Profundos. Não havia raiva ali, nem ameaça. Apenas conexão. Os dentes se aproximaram, brancos demais, afiados demais… e então os olhos dela se abriram para a claridade do dia. O ônibus deu um solavanco no exato momento em que seus olhos se abriram, e seu corpo estava tenso, com os dedos cravados no tecido da poltrona e o coração disparado como se ainda estivesse correndo pela floresta. Demorou alguns segundos para perceber onde estava. Não havia árvores. Nem lua. Nem lobo. Apenas o interior abafado de um ônibus de viagem, o zumbido constante do motor e o cheiro misturado dos passageiros, o perfume barato, salgadinho e cigarro. Pela janela, ela via o trânsito passando enquanto as primeiras casas começavam a surgir. Respirou fundo, passando a mão pelo rosto pálido, ainda sentindo o gosto amargo impregnado na boca, como se o sonho tivesse deixado um resíduo físico. — Droga… — falou para si mesma, antes de olhar novamente pela janela e suspirar. A placa surgiu à margem da estrada, grande e enferrujada, cercada de vegetação: “Bem-vindo a São Veridiano.” Depois de horas, haviam chegado, a cidade nova. Era um recomeço forçado. O lugar onde nada de bom, segundo seu instinto, poderia acontecer. Kaya observou enquanto o ônibus diminuía a velocidade, entrando pela estrada principal, e as construções surgiam aos poucos: sítios, casas antigas, fachadas desbotadas. Tudo parecia parado no tempo, como se a cidade estivesse esperando por algo. Ou alguém. Era uma cidade pequena e feia, insossa. Um arrepio percorreu sua pele e a deixou arrepiada, ao passar por um posto de combustível e ver um grupo de jovens, aparentemente ricos, com motos de trilhas e carros de luxo. — Acordou, bela adormecida? O chute veio logo em seguida, forte o suficiente para balançar sua poltrona. Kaya fechou os olhos por um instante, respirando fundo, enquanto atrás dela Nilufer se remexia no assento, claramente satisfeita com a provocação. Ela era sua irmã caçula, uma verdadeira pentelha. Mesmo sem olhar, Kaya conseguia imaginá-la perfeitamente: postura impecável, roupas delicadas, acessórios meigos, cabelo preso de forma elegante, tudo para impressionar as pessoas da cidade nova. Ela era a filha perfeita. A irmã boazinha. O oposto dela. — Vai começar cedo hoje? — respondeu com a voz baixa, controlada demais para alguém que queria virar e socar a cara da irmã. Nilufer riu, um som curto e irritante. — Só achei engraçado você babando enquanto dormia. Combina com esse visual depressivo. Eu te disse, deveria ter vindo, mais arrumada. Kaya esfregou os olhos devagar. Pensou em se virar, pensou em dizer algo cruel, algo que realmente machucasse, porque ela tinha um talento natural para isso, palavras eram chamas em sua boca, sempre prontas para queimar onde mais doía. Mas o gosto ruim voltou com força, amargando sua boca como carne crua pingando sangue. Não valia a pena. Nunca valia, pois a mãe delas, tinha uma filha preferida e não era Kaya. Ela apenas esticou a mão, pegou os fones de ouvido e os encaixou, isolando o mundo externo. A música começou a tocar, Lana Del Rey, era pesado, melancólico, com batidas profundas que vibravam em seu peito. Seu refúgio era sempre, se isolar. Olhou novamente para a cidade. São Veridiano se revelava pouco a pouco, pessoas caminhavam pelas calçadas, algumas paravam para observar o ônibus passar e havia curiosidade nos olhares. E algo mais. Algo que ela não gostou: Expectativa. “Ótimo”, pensou. “Uma cidade pequena, o paraíso do julgamento alheio. Não tinha um buraco melhor para minha mãe me enfiar?” Kaya passou os dedos pelos próprios braços, sentindo as mangas pretas cobrindo sua pele pálida, enquanto correntes discretas pendiam do pescoço e anéis diversos adornavam seus dedos. Seu estilo não era um pedido de atenção, estava mais para uma armadura, gostava de afastar as pessoas para que elas não enchessem seu saco com coisas que não valiam a pena. Ela nunca tentou se encaixar, e nunca foi perdoada por isso. Sua mãe odiava aquele seu jeito de ser e sempre quis que ela fosse mais como Nilufer, e pensar nisso fez ela soltar um risinho amargo, mesmo sem querer. A mente voltou, involuntariamente, ao sonho. Ela visualizava o lobo, perfeitamente. A forma como ele a perseguiu, não com pressa, mas como quem sabia exatamente o que estava fazendo. Como se soubesse exatamente onde ela estaria e como se não importasse o quanto ela corresse, porque ele sempre a alcançaria. O ônibus parou com um chiado alto. As portas se abriram. — Chegamos. — anunciou a mãe delas, sem entusiasmo. Kaya engoliu em seco. Algo dentro dela se contraiu, um pressentimento pesado, quase físico, como se o ar estivesse mais denso ali fora. Ela não acreditava em destino, muito menos em sinais. Mas acreditava em instinto. E o dela gritava, que algo ia acontecer. Enquanto se levantava, sentiu o olhar de Nilufer em suas costas, e não precisou virar para saber que a irmã carregava aquele sorriso contido, satisfeito. Nilufer adorava mudanças, novas chances, novas plateias para seu teatro de perfeição. Para Kaya, aquilo era apenas mais um exílio. Ela desceu do ônibus, o vento da cidade bateu contra seu rosto, trazendo consigo o mesmo cheiro de terra úmida do sonho. Seu estômago revirou. — Não é possível… — sussurrou. São Veridiano parecia silenciosa demais, sombria mesmo à luz do dia, misteriosa demais e, de alguma forma, lhe lembrava da floresta, do lobo, do sonho… Um arrepio subiu por seu corpo, fazendo-a encolher os ombros enquanto ela erguia o olhar, observando as ruas, os guiches e as sombras longas projetadas pela luz do sol. Teve a sensação absurda de estar sendo observada, não por pessoas, mas por algo escondido entre a vegetação, entre as árvores … Ela colocou as mãos nos bolsos da blusa de moletom, com os dedos tremendo levemente. Algo estava errado. Algo estava prestes a mudar. E Kaya teve certeza de uma coisa: Aquele sonho não era apenas um sonho…Ficou com muita dó, olhando o quanto ela estava triste e com medo de Nilufer descobrir o que aconteceu. Acabou deitando junto, próxima, como não fazia há mais de vinte anos. Ficou fazendo carinho. Kaya estava arrasada, mas não deixou de notar o quanto era bom receber carinho. Se lembrou da infância, antes de Nilufer nascer. Perguntou se Yesenia tinha vontade de ter tido mais filhos. Ela disse que não. Perguntou se Kaya tinha essa vontade. Ter filhos. Ela respondeu pensativa. — Não, acho que não vou conseguir ser boa mãe e cuidar de alguém assim. — A Nilufer vai ser uma mãe perfeita, né? Ela sempre quis isso. Yesenia disse que ambas seriam ótimas mães. Foram para a casa delas, Kaya só foi deitar de madrugada, Yesenia também, preocupada com o futuro das filhas. Nilufer estava acordada, vigiando o sono de Rick, que passou mal a noite toda delirando com febre alta. Ote
Foi entrando rápido. Lorian também entrou, observando tudo. Abaixou perto de Rick, olhando ele agonizar de dor. — Faz quanto tempo que ele está assim? Tentando impedir que ele se machucasse mais, Kaya disse que não sabia. Lorian pegou um litro de bebida quebrado no chão. Disse que precisavam tirar ele de lá e rápido. Ela começou a procurar as chaves do carro. Lorian o carregou e colocou no banco de trás. Ela entrou pela frente e passou para trás. Começou a chorar, preocupada, pedindo para ele aguentar. Viu que ele estava com feridas pelo corpo todo. Perguntou se Lorian sabia o que estava acontecendo. Ele a olhou pelo retrovisor. — É veneno. Como você o encontrou? — Não é o namorado da sua irmã? O que fazia, com ele lá? Kaya pegou o celular. Falou percebendo o julgamento. — Eu saí pra correr e ouvi ele. — Como a ge
Kaya parou de desenhar e arrancou a folha. Falou séria. — Sou mais velha, eu preciso cuidar dela e ela faria muito por mim também. Jogou o desenho perto dele, amassado. — Por que veio aqui hoje? Começou a desenhar de novo. — Não tem nada melhor pra fazer? Você é bem popular né. Zay se sentou e empurrou sutilmente os pés dela para saírem da cama, assim abaixando suas pernas. — Eeee, já vai começar? Chata! — Por que é tão difícil? — Dormindo você era tão mais agradável. — Quer ficar sozinha? Ela não estava falando tão sério. Só perguntou à toa, tentando conversar. Se arrependeu, achando que estava sendo realmente chata. Começou a se sentir frustrada, ficou séria, cabisbaixa, desenhando. Levantou os ombros, tipo tanto faz, com a certeza de que ele iria embora. Zay se levantou e esticou a mão. — Posso ver? Ela deu o caderno. Estava desenhando ele.<
Ela estava indo encontrar alguns familiares de Callum. Parou o carro perto do velório e desceu. Nilufer encostou ao lado de Kaya na fresta dos bancos. — Olha só pra eles, tristes por aquele monstro. — Se soubessem quem ele realmente era. — Como eu posso ter sido tão cega? Kaya não gostou. Se virou para ver Nilufer melhor. Falou séria. — Não importa, só esquece isso. Não pode contar pra ninguém. Nilufer ficou emotiva. — Não vou contar. Então foi isso que aconteceu? — Quando mudamos pra cá? E você sumiu? — Quando ele fez aquilo? Ele que te bateu? — Você ficou com outra pessoa quando saiu escondida à noite? — Porque estávamos juntos antes na fazenda e no hospital disseram que era recente. — Você que colocou fogo em tudo e bateu nele, né? — Mas estava machucada antes! — O Zay sabe do que aconteceu? Estava saindo com ele antes de fugir e... Kaya foi fica
Último capítulo