Estou bem...
Saulo Prado
Os dias desfilavam diante dos meus olhos em um turbilhão de papéis, reuniões e a nova realidade que se instalara no escritório. A nova recepcionista, Allana, era eficiente, mas cada minuto dedicado a ensiná-la era um minuto roubado de Angelina.
Era notória a paciência de aço que ela tinha, explicando uma, duas, quantas vezes fossem necessárias. Mas mais notório ainda era o cansaço que teimava em lhe roubar o vigor. Olheiras profundas, como sombras roxas, pintavam-se sob seus olhos outrora vibrantes, denunciando uma exaustão que ia além do físico.
E eu sabia, no fundo da alma, que não era só o trabalho. Era a sensação sutil e cortante de estar sendo substituída. Cada dúvida da novata, cada tarefa que lentamente migrava para outras mãos, doía nela. Eu via na maneira como ela se recolhia, como corria para o banheiro e voltava com o rosto lavado, mas incapaz de esconder a pele inflamada de vermelho, os olhos um pouco mais brilhantes, marcas de lágrimas que ela teimava em nega