Não pode ser.
Angelina Da Costa
O despertador insistente parecia um martírio. O dia já nascia atribulado, e por mais que minha mente soubesse das responsabilidades, meu corpo suplicava por mais um minuto, mais uma hora... mais um século na cama. A noite havia passado em um piscar de olhos.
A exaustão era um peso denso sobre os meus ossos.
Sentada na cama, observei Ana Júlia revirando as gavetas com a energia inquieta dos seus dezenove anos. Cada ruído, cada arrastar de móvel, era uma agulha afiada nos meus ouvidos supersensíveis. Ela tagarelava sem parar sobre as Farias, sobre a luxúria do cenário montado para as fotos, mas suas palavras ecoavam distantes, como se viessem do fundo de um túnel.
Arrastei-me até o banheiro, me encarando no espelho. Café? O simples pensamento fez meu estômago se contorcer.
Contento-me com alguns biscoitos água e sal, a única coisa inócua que encontrei, já que o resto das compras do mês havia misteriosamente desaparecido. Júnior, com seu apetite de lobisomem, certamen