Mundo ficciónIniciar sesiónEle é como os poema de Shakespeare. Ela é como a melodia mais linda que podia soar em um instrumento, a melodia que bateu a porta da minha mente e aprofundou-se ali. E juntos, eles formaram algo que o mundo nunca viu.
Leer másAnya Belov
Às vezes, em momentos de dor, o ser humano não sabe expressar bem o que sente, porque, apesar de ser a mesma notícia, as pessoas reagem de formas muito diferentes. Sempre ouvi isso, mas nunca acreditei de verdade. Achava que, diante da dor, todos demonstravam as mesmas emoções. Como estava enganada. Agora, diante da mesma dor que todos sentem, eu não consigo mais chorar. Mesmo vendo todos chorarem e até se debruçarem sobre o caixão que desce para debaixo da terra – aquela caixa de madeira que agora leva meu marido e uma parte de mim junto –, eu não consigo derramar uma lágrima sequer. A dor simplesmente se instalou dentro de mim, criando um buraco vazio no lugar onde antes estavam minha alegria e todo o meu amor. A dor... uma dor que eu nunca imaginei sentir está agora tomando conta de mim. Ela aperta minha garganta, prende minha mente e leva consigo tudo o que havia de bom em mim. Por que isso chegou tão cedo? Por que o universo não permitiu que eu e meu amor envelhecêssemos juntos e, talvez, até morrêssemos lado a lado, numa cadeira de balanço ou na nossa cama, um olhando para o outro? Assim, nenhum de nós precisaria sofrer com a partida do outro. Mas nem o universo, nem o destino e nem Deus quiseram assim. Agora, ele está morto. Estou vendo-o partir, enquanto a terra cobre o caixão que leva o homem mais gentil, amoroso, compreensivo e bondoso que já conheci. O homem com quem sonhei envelhecer. Com todo o pesar do meu coração, beijo a flor vermelha em minha mão e a jogo no caixão, que é rapidamente preenchido pela terra. Aos poucos, a visibilidade desaparece, deixando apenas o abraço amargo do vazio e a solidão. Após o enterro, as pessoas começam a ir embora. Algumas me dão os pêsames, outras lamentam por uma mulher tão jovem já ter ficado viúva. No entanto, nem os pêsames, nem os comentários fazem sentido para mim. Eu ouvia, mas as palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Minha mente não estava pronta para raciocinar. Pelo menos, não hoje. Fiquei encarando a lápide, passando a mão pelas letras gravadas, enquanto engolia seco. Ele estava mesmo ali, e agora não podia mais sair. Não era mais uma de suas viagens, daquelas que duravam dias. Essa duraria para a eternidade. — Filha, meu bem, precisamos ir. — Será que está frio lá embaixo? Será que ele vai ficar bem aqui sozinho? — Filha... Senti braços ao redor dos meus ombros e um carinho nos meus cabelos, mas ainda assim, eu me sentia fria e vazia por dentro. — Meu amor, ele já não está mais aqui. Precisamos ir. Yuna precisa de você agora. Por favor, minha filha. Levantar e deixá-lo ali parecia impossível, mas tentei. Olhei para frente, implorando que meu cérebro desse o comando às minhas pernas para me mover. Algo tão automático e, ainda assim, tão difícil. — Eu... eu não... As lágrimas, antes desaparecidas, voltaram com força, arrancando de mim um grito preso na garganta. Desabei no chão, sem forças. Minha testa tocou o barro, e minhas lágrimas regaram a terra com dor e tristeza. Não permaneci assim por muito tempo. Braços fortes me ergueram, afastando-me dele, do meu amor. Fui colocada em algo macio, mas não sabia o quê, porque minha visão permanecia presa no cemitério, na lápide dele, na terra que agora o abrigava. Logo, o cemitério ficou para trás. As coisas que antes me traziam alegria agora estavam tão sem vida quanto eu. Depois doque pareceu uma eternidade, o carro parou novamente. Fui retirada de dentro, ainda sem forças para me mover. Os mesmos braços que me colocaram no carro me carregaram com cuidado até dentro de casa e me deitaram em algo macio, como se temessem que até o toque pudesse intensificar minha dor, me quebrar. Minha mente queria desligar e nunca mais despertar. Porém, uma voz infantil e chorosa me tirou do transe. — Mamãe, o papai? Por que deixaram o papai? Ele... ele precisa ficar com a gente. Está frio e ele está sozinho. Traz o papai, mamãe, por favor. As lágrimas escorriam pelo rostinho miúdo, e eu a puxei para um abraço forte, tentando conter minhas próprias lágrimas. — Meu amor, o papai não vai voltar mais. Agora ele está no céu, junto com as estrelas. Ele vai proteger você e amar você de lá. — Não, mamãe! Traz o papai! Eu quero o papai! Ela chorou mais, soltando um soluço sofrido que partiu meu coração ainda mais. Meu Deus, por quê? — Meu carinho... Ela apertou o que conseguiu alcançar, e eu a abracei ainda mais forte, tentando confortá-la. Mas quem, exatamente, eu estava tentando confortar? Após uma semana do enterro do meu marido, eu não conseguia sair da cama, muito menos tomar banho. Minha vida era ficar deitada na cama e sentir o cheiro do meu marido em suas roupas, cheiro este que já começava a desaparecer e deixava as roupas totalmente vazias e carentes, assim como eu. Após um mês, nem mais a luz do sol entrava no meu quarto, e nem meus pais, já que minha porta se encontrava trancada e ninguém mais tinha a chave, pois eu nunca achei apropriado ter uma outra chave de um quarto que era de casal. Mas, ainda assim, meus pais não desistiram de tentar me alimentar ou de falar comigo para saber se eles ainda estavam ali, apesar de tudo. Um deles sempre batia à porta e eu sempre ignorava, querendo me fechar na minha solidão e no abrigo do meu quarto. Mas eles deram um basta nisso quando, por desidratação e anemia, eu fui parar no pronto-socorro e tive que ficar internada por vários dias até conseguirem fazer a reposição líquida. Os médicos e enfermeiros passando sempre não me deixavam esquecer que estavam ali. Porém, eles também eram descuidados ao deixar objetos afiadas ao meu alcance. Eles não sabiam que não podiam deixar coisas desse tipo perto de pacientes, que talvez estivessem tratando uma possível suicida? E esses objetos eram convidativos, tão convidativos que as veias pulsavam mais forte e quase se tornavam visíveis, como se quisessem ser rasgadas por elas, como se quisessem desinflar o sangue que corria por elas. — Nem penses nisso, Anya. A voz grossa tirou minha visão do objeto cortante e minha mente dos pensamentos suicidas. — Não estou pensando em nada. — Em que você estava pensando? Você... eu não acredito nisso. Meu pai pegou o objeto e jogou-o bem longe de mim, assustando a mim e à minha mãe. Ele nunca foi assim, mesmo em seus momentos mais difíceis e estressantes. — Você não pode ficar assim, você precisa se recuperar. Nikolai nunca poderia querer que você agisse assim. — Não fala dele. Queria gritar, mas minhas cordas vocais mal tinham forças para deixar minha voz sair como deveria. — Tudo bem, não falarei dele, mas e sua filha? Ela também não importa? Também não devo falar dela? Meu coração pesou ao ouvir o nome da minha filha, e mais lágrimas foram derramadas. — Eu... — Yuna é uma criança, Anya. Ela também precisa de você. Ela já perdeu o pai, não vai conseguir perder a mãe. Nós não vamos conseguir perder nossa única filha. Encarei minha mãe, e dessa vez me senti culpada. — Desculpa, eu estou sendo fraca, mas é que... — Você não está sendo fraca, perdeu o teu marido e isso é compreensível, é muito doloroso, mas você não pode ir também. Se não quer pensar em ti para se recuperar, pensa na tua filha, pensa no teu carinho. Chorei ainda mais e tentei respirar fundo para que o ar entrasse nos meus pulmões. Passei as mãos pelo rosto e limpei as lágrimas, engoli seco e tentei buscar forças. — Eu vou cuidar dela, vou tentar me recuperar, eu prometo. Tentei sorrir, mas não consegui. Minha promessa soou muito fraca, assim como eu. Depois de duas semanas internada no hospital, eu finalmente saí, mas com uma lista de recomendações médicas e o nome de uma psicóloga para que eu e minha filha frequentássemos. Achei estritamente desnecessário, mas meus pais não tiveram a mesma opinião, argumentando que precisamos disso e que nos fará muito bem. Decidi não contrapor. Chegamos em casa e meus pais me ajudaram a chegar até meu quarto, abriram as persianas e deixaram a luz entrar, assim como o ar puro. Abri as portas da varanda e sentei na cadeira que tanto amava por me proporcionar uma vista maravilhosa de toda a minha casa. Impulsionei a cadeira para balançar e fiquei assim até ouvir passos tímidos se aproximando. Virei levemente meu corpo e vi minha filha, agora tímida demais e magra também, evidenciando a negligência da minha parte em relação a ela. — Vem aqui, meu carinho. Um passo de cada vez, ela chegou até mim e ficou ao meu lado. Peguei seu pequeno corpo e a coloquei em meu colo, abracei-a e beijei seus cabelos. — Desculpa, desculpa por não te dar atenção e te afastar. — Sinto saudades do papai também, mas não quero perder a mamãe. Erguei seu rosto miúdo e fixei os olhos castanhos-claro, iguais aos dele. — Não vais me perder, vamos fazer isso juntas, está bem? Nós duas. — Está bem. Ela beijou dois dedos e eu fiz o mesmo. Juntamos os dedos e, pela primeira vez em dias, eu consegui sorrir, nem que fosse minimamente.Yuna BelovO ar frio bate em meu rosto quando a lâmina dos patins rasga o gelo, gerando um som agudo. Cada giro faz com que o som do gelo sendo riscado se assemelhe a cristais estilhaçados pela força que exerço para realizar cada movimento, com a pretensão de não falhar nenhum. Paro por alguns instantes, respiro fundo e começo a patinar para trás, ganhando impulso suficiente para iniciar um giro, mantendo o ritmo constante e tomando cuidado para não machucar minhas mãos. Levanto uma das minhas pernas em um ângulo preciso e seguro a lâmina do patim, erguendo-a aos poucos até estar totalmente firme, mantendo-a no ar, girando sem parar e mantendo os movimentos constantes e rítmicos. Solto a lâmina do patim e, com o mesmo cuidado, volto minha perna para o chão, no mesmo instante em que realizo outro salto.Ao fazê-lo, sinto meus olhos arderem, não só pelo frio cortante, mas também pelas lágrimas que começam a se formar ao imaginar a primeira vez que dei um salto e caí. Na
Anya Belov Saí do carro e observei a linda residência à minha frente, a majestosa casa na qual nunca pensei em viver. Era um sonho do meu marido, um sonho que se intensificou após a guerra que achávamos que nunca iria acabar, a guerra que quase o fez perder tudo. Mas, como o incrível guerreiro que era, conseguiu resistir a tudo e se manteve de pé, como sempre fazia.Essa casa era o sonho dele, e viver aqui será a realização desse sonho. Cada detalhe, cada pedra foi pensada com a intenção de proteger sua família e trazer felicidade, mas isso nunca vai acontecer. E, como todas as coisas que ele deixou para trás, agora eu tenho que viver isso sozinha.Encarei a casa à minha frente, e uma lágrima quase escorreu quando as lembranças tentaram ultrapassar a barreira que imponho a elas. São essas lembranças que mais doem, os momentos rotineiros ou as conversas sobre um futuro que nunca teremos.Pisquei algumas vezes, tentando me manter firme."Estou bem, estou bem."Repeti
Yuna BelovNuma noite de neve, minha mãe saiu apressada porque dois policiais chegaram para avisar sobre um acidente ocorrido na empresa do meu pai. Naquela noite, fiquei com meus avós, que me fizeram companhia. Era uma semana antes do Natal. Mamãe saiu apressada, e eu fiquei feliz por estar com meus avós. Minha avó tinha o costume de fazer bolachas amanteigadas sempre que meus pais não estavam presentes, pois eles não gostavam que eu as comesse. Eram proibidas em casa, quase um vício para mim, e por isso eles colocavam limites.Mas a noite que eu imaginei ser divertida, recheada de bolachas e sorrisos, transformou-se rapidamente em um pesadelo quando vi minha mãe chegar chorando, devastada. Por ser criança, meus avós me tiraram da sala para conversarem com ela, mas, curiosa, me escondi no topo da escada para ouvir o que diziam. Pela primeira vez, ouvi a palavra morte. Não sabia o que significava nem por que estava associada ao meu pai, mas, pelo estado da minha mãe, perc
Cruzo os braços e observo minha filha arrumar as malas com a expressão séria e calma. Os olhos antes brilhantes, curiosos e vivos, agora está mais profundo, uma característica que infelizmente adquiriu com o tempo. Os dentes massacrando os lábios demonstram o conflito interno que ela enfrenta e eu ainda não tenho acesso. Desde que recebeu a notícia, ela tem se comportado assim. Não vejo no rosto dela nenhuma surpresa ou resistência pela mudança. Pelo contrário, quando conversamos, a única coisa que ela disse foi:— Quando chegar o dia, arrumarei minhas malas.Após isso, não tocou mais no assunto, nem fez perguntas, tampouco insistiu. Mas ao vê-la terminar de arrumar suas malas e começar a separar o que queria levar das coisas do pai, percebo pelo semblante dela que também precisa de uma mudança, de sair daqui por algum tempo. O país que antes nos dava felicidade, agora só nos proporciona tristeza e melancolia.Nesses três anos, Yuna deixou de ser a menina de onze anos e se tornou uma
Último capítulo