Mundo de ficçãoIniciar sessãoYuna Belov
Numa noite de neve, minha mãe saiu apressada porque dois policiais chegaram para avisar sobre um acidente ocorrido na empresa do meu pai. Naquela noite, fiquei com meus avós, que me fizeram companhia. Era uma semana antes do Natal. Mamãe saiu apressada, e eu fiquei feliz por estar com meus avós. Minha avó tinha o costume de fazer bolachas amanteigadas sempre que meus pais não estavam presentes, pois eles não gostavam que eu as comesse. Eram proibidas em casa, quase um vício para mim, e por isso eles colocavam limites. Mas a noite que eu imaginei ser divertida, recheada de bolachas e sorrisos, transformou-se rapidamente em um pesadelo quando vi minha mãe chegar chorando, devastada. Por ser criança, meus avós me tiraram da sala para conversarem com ela, mas, curiosa, me escondi no topo da escada para ouvir o que diziam. Pela primeira vez, ouvi a palavra morte. Não sabia o que significava nem por que estava associada ao meu pai, mas, pelo estado da minha mãe, percebi que não era algo bom. Guardei minhas perguntas, mas a principal delas permanecia: por que meu pai não voltou com minha mãe? Onde ele estava? Papai nunca dormia fora de casa. Ele podia até chegar tarde, mas sempre voltava, e nunca fazia minha mãe chorar. Então, onde ele estava? Quando perguntei à minha mãe onde estava meu pai, ela desabou a chorar. Fiquei mal por fazê-la chorar. Prometi que não faria mais perguntas e fui dormir. Pela primeira vez, não foi minha mãe quem me colocou na cama. Nos dias seguintes, minha mãe não melhorou, e meu pai não voltou. Senti uma tristeza profunda, mas evitava perguntar para não vê-la chorar. Minha curiosidade só aumentou quando muitas pessoas vestidas de preto começaram a entrar e sair de nossa casa, sempre com lágrimas nos olhos. Diziam palavras como: "pêsames", "perda", "morte", "sinto muito". Eu não entendia o significado dessas palavras, mas sabia que traziam tristeza. Então, chegou o momento em que minha curiosidade foi saciada da pior maneira possível. - Mamãe, o papai? Traz o papai, por favor. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, minha mãe apertou minhas mãos com força. - Meu amor... o papai... ele virou uma... Ela tentou falar, mas parou ao ver meus avós balançando a cabeça, discordando. - Anya, ela precisa saber - disse meu avô. - E uma criança! - Que precisa saber - respondeu minha avó. Lágrimas já escorriam pelo meu rosto. Meu pai sempre dizia que princesas não deveriam chorar, mas eu não conseguia evitar. - Meu amor... Lágrimas escorrem pelo rosto da mamãe. Sua voz, antes forte e animada, agora soa baixa e rouca, como se cada palavra a ferisse. - O papai teve um acidente no trabalho... ele... está no céu agora. Ele não vai mais voltar. As palavras dela me deixaram confusa, como se o chão sumisse debaixo dos meus pés. "Morar no céu" significa que meu pai nunca mais vai me dar beijos de boa noite? Nunca mais vai me chamar de princesa? Minhas mãos escapam das dela, e eu olho para baixo. Primeiro para meus avós, que estão imóveis, depois de volta para mamãe. - Mas ele estava aqui! Por que levaram ele embora? Traga ele de volta, mamãe! Mamãe dá um passo em minha direção, e sinto outra presença se aproximando. Talvez seja a vovó, mas eu não consigo enxergar nada. As lágrimas escorrem pelo meu rosto como um rio descontrolado. - Yuna, me ouve! - a voz de mamãe treme. - O papai... ele morreu. - Mas ele estava aqui, e levaram ele embora! Agora ele está sozinho... Ele não pode estar sozinho, mamãe! E... e se o papai estiver com frio? Traz ele de volta, por favor! Traz, traz ele de volta! Me afasto dela e corro até a porta para trazer ele de volta - Papai! Quero meu pai! Minha mãe me segurou com força e me puxou para o peito. Eu soluçava enquanto sentia algo estranho e doloroso no peito. Antes que pudesse entender ou perguntar, minha visão ficou turva, minha cabeça doeu, e tudo escureceu. Bip bip bip O som é irritante, como um sino insistente batendo para marcar as horas. Minha cabeça dói, e a repetição me incomoda. Abro os olhos apenas para fechá-los novamente ao ser atingida pela luz forte. Respiro fundo e tento outra vez. Agora consigo enxergar o branco predominante ao meu redor. Uma sala de hospital A lembrança do porque estou aqui me atinge, meu papai.. - Ela vai ficar bem? - ouço a voz da minha mãe, mais baixa e pior do que estava antes. Fecho os olhos novamente. - Sim, foi um desmaio causado por impacto emocional.- ouço a voz do médico e luto para não me mover- Fisicamente, ela esta bem. Mas seria bom considerar acompanhamento psicológico para ajuda-la a lidar com isso. Não ouço mais vozes, porque sinto a mão quente da minha não segurar a minha. Abro os olhos e encara-o-a, seus olhos estão profundos e seu rosto marcado pelas lágrimas. Mas olhar para mim, tentou sorrir, nas fracassou. - Mamãe..- minha voz sai acompanhada de um soluço, mamãe chega mais perto e me abraça. - Estou aqui,meu amor. Você me assustou.. - seus dedos fazem carinho no meu rosto- Você vai ficar bem, só precisa descansar um pouco. Seu olhar baixo, a voz rouca fez com que engolisse meu choro e mesmo sem palavras promete ser forte como ela está sendo agora. Mais algumas horas se passam, antes de sairmos do hospital. No caminho para casa, mamãe não soltou minha mão, como se tivesse medo de alguma coisa, ao mesmo tempo em que seus olhos me pedia força e paciência para tudo que ainda vem. Quando voltamos para casa, o silêncio era pesado, como se a casa, antes cheia de vida, estivesse agora vazia de algo que eu não conseguia nomear. Mamãe me sentou ao seu lado e, com a voz mais suave do que eu nunca imaginei que poderia ter, me explicou o que era a morte. "Seu pai não vai voltar", ela disse, "Ele agora mora no céu, com Deus." Suas palavras estavam carregadas de uma tristeza que ela tentava esconder, mas eu podia ver no brilho dos seus olhos, mesmo que ela sorrisse. Ela me abraçou forte, como se pudesse me proteger de tudo o que ainda estava por vir, prometendo que tudo ficaria bem. Mas, mesmo naquele abraço, eu sabia que não ficaria. Eu não sabia como, mas sentia que nada mais seria como antes. E não foi. Após aquele dia, nada mais foi o mesmo. Aquela vida feliz desabou e se foi junto com meu pai. Vi minha mãe ser internada no hospital, meus avós chorarem pelo filho que perderam e pela filha que desejava se perder junto ao marido que se foi. O Natal, antes feliz e cheio de risos alegres, em um instante, em uma noite, se transformou em uma data marcada por dor e luto. E o pior foi tentar voltar ao normal. Normal... isso é algo que minha família nunca mais foi, porque, entre tentar não chorar todos os dias e me adaptar a tudo, a vida de todos deu uma grande reviravolta. Nos primeiros dias de aula, eu sempre me atrasava, porque quem cuidava disso era o meu pai. Para minha mãe, não foi fácil se adaptar e também cuidar das empresas que meu pai deixou, especialmente lidar com minha avó, que achava que tudo o que era do meu pai deveria ser dela por direito, algo com o qual o testamento discordava, já que ele deixou tudo para mim e para minha mãe. A escola se tornou um tormento. As matérias não faziam sentido, e eu simplesmente não conseguia me adaptar. Um ano após a morte do meu pai, decidi parar de ir. Por orientação da psicóloga, voltei ao lugar onde meu pai e eu passávamos momentos felizes: o rinque de patinação. Porém, ver aquele ringue tomado por gelo e tão frio me fez lembrar da primeira vez que vi alguém patinar e do que eu senti, a sensação maravilhosa que tomou conta de mim, a forma extremamente carinhosa com que meu pai me apresentou esse lugar, como ele me ensinou a patinar e os bons momentos que passamos juntos ainda estão vivos em mim. E, de repente, uma tristeza profunda se instalou em mim principalmente quando quase conseguia visualizar nós dois ali, patinando e rindo. Isso me trouxe à memória a minha primeira vez em um ringue. " Papai e eu estávamos sentados no sofá. Eu estava no colo dele enquanto assistíamos à TV em algum canal qualquer. Na verdade, eu não me importava, só queria estar com meu papai e nada mais. Porém, quando ele passou por um canal que mostrava uma mulher voando alto com coisas afiadas nos pés e depois pousando no gelo como um anjo, meus olhos brilharam. Eu desci do colo dele para me aproximar da TV e vê-la melhor. Ela parecia um anjo de tão linda e graciosa que era. - Uau! Papai, o que é isso? Ele sorriu, como sempre, e me pegou no colo novamente. - Isso é patinação no gelo, meu amor. Quer ver de perto? - Sim, sim, sim! Falei empolgada e muito feliz. Papai me levantou no colo e me vestiu com roupas de frio. Saímos de casa e caminhamos por entre as casas e as ruas até chegarmos a um lugar bonito. Entramos e o frio me fez estremecer um pouco; ali dentro estava mais frio do que lá fora. - Este é um ringue de patinação, meu amor, onde aquela moça estava voando. Soltei a mão do meu pai e corri para mais perto do ringue, vendo várias pessoas patinando. - O que é isso que tem nos pés? - São patins, filha. Sorri e continuei olhando para todo o lugar, achando tudo muito bonito, e meu coração se encheu de alegria e felicidade ao ver as moças saltando alto e voando como pássaros livres e felizes. - Que lindo. - Quer tentar? - Sim! Ele sorriu ainda mais pela minha emoção e nos levou até um lugar estranho onde nos deram os patins. Papai colocou em mim e nós entramos no ringue. Ao ver as moças, achei que fosse fácil fazer, mas não é. Mal toquei no gelo e me desequilibrei, caindo no chão e sentindo dor. Lágrimas vieram aos meus olhos. - Meu amor, não chora. - Cai! - Eu sei, mas é a primeira vez, você não podia ser boa logo de cara. Se você quer fazer isso, precisa tentar, tentar e não chorar quando cair. Vem aqui. Ele pegou minha mão e me ajudou a ficar em pé. Papai fazia isso tão bem, ficava tão bonito fazendo isso. - Vamos patinar com papai." Naquele momento, descobri minha paixão pela patinação e nunca mais soltei. Porém, meus sonhos quase foram destruídos quando, por engano, pensei que minha mãe acabaria com eles se soubesse. Ela sempre foi rígida em relação à escola e eu não queria que ela ficasse chateada comigo, e pior, decepcionada. Mas, ao ouvir aquelas palavras dela, só tive mais certeza de que tenho uma excelente mãe e os receios não tinham razão de existir. - Yuna! Uma voz distante me tira dos meus pensamentos e logo meu cérebro decifra como a voz da minha avó - Sim, vovó? - Estás bem? - Sim. Estou bem, estava só pensando. Sorri para ela, e ela sorriu também, mas seu sorriso não chegou aos olhos, tal como o meu. Suspiro e encaro o lado de fora do carro. Vejo minha mãe olhar para a nossa agora antiga casa e tento afastar a tristeza. Quando ela falou comigo sobre a mudança, eu não relutei muito, porque eu também precisava sair daqui, precisava deixar essa casa, esse país... tudo. Porque a neve que antes caía sobre essa terra e me dava alegria e gosto, hoje em dia já não tem mais a mesma cor e emoção. As ruas que antes eu passei inúmeras vezes com meu pai hoje me causam tristeza, e isso não é algo com o qual minha mãe e eu devemos viver. Perder meu pai foi horrível, mas temos que seguir em frente, querendo ou não. Levo ar aos pulmões, mas ainda assim me custa respirar e sinto como se o ar queimasse o meu íntimo, ao invés de trazer alívio. Então, decido colocar os auscultadores nos ouvidos e ouvir música. Aperto o play do celular e as primeiras notas da música, em harmonia com a voz do V, preenchem meus ouvidos, e eu tento me concentrar nela para, por fim, me acalmar. A voz de cada um dos sete começa a ressoar em meus ouvidos e, gradativamente, eu vou me acalmando e, aos poucos, consigo respirar minimamente bem. - Estás bem, carinho? Levanto e ergo o olhar para a única pessoa com quem não consigo mentir, com quem compartilho os mesmos sentimentos. - Sim, mamãe. Eu estou bem. Ela sorriu e me aconchegou em seus braços. - Estás a ouvir os coreanos de novo? - BTS, mãe. Corrijo pela milésima vez, e ela ri. - Sim, BTS. - Estou sim, eles me acalmam. - Que bom, meu amor. Apertou ainda mais seus braços ao redor do meu corpo, e o carro entrou em movimento, tirando-nos do lugar que um dia foi nossa casa.






