Sétimo capítulo

Yuna Belov

Adentro a empresa junto com minha mãe e faço de tudo para não ser reconhecida por ninguém. Não gosto de pessoas me olhando ou tentando conversar comigo; falar com os outros nunca foi meu forte.

Entramos no elevador, e aperto ainda mais a mão dela. Sinto um frio na barriga e tento respirar fundo. Quando as portas automáticas do elevador se abrem, seguimos caminhos diferentes.

— Entre na minha sala. Eu já volto, está bem

Assenti e peguei as coisas da minha mãe para que ela não carregasse peso. Enquanto ela ia para a reunião, segui até sua sala. Não foi difícil encontrá-la: "CEO" estava escrito na porta em letras douradas.

Ao abrir a porta, pouso as coisas dela e observo o ambiente. Dos móveis à decoração, tudo ali parecia evidenciar que não foi pensado para uma mulher, e sim para um homem.

A sala é grande, com duas janelas de vidro imponentes cobertas por persianas castanhas e brancas. Ao lado delas, há uma enorme planta. Em frente às janelas, uma mesa de madeira polida e uma cadeira preta atrás dela. Há duas cadeiras pretas à frente da mesa e, abaixo delas, um tapete escuro. A única tentativa de cor no ambiente são as duas cadeiras brancas em uma mesa menor com um vaso de planta sobre ela. De resto, a sala é dominada por tons neutros e apagados. Não tem nada a ver com minha mãe — ao menos, não com quem ela era antes.

Suspiro e continuo caminhando pela sala, mas de repente meus pés parecem colados ao chão. Meu corpo inteiro treme como se estivesse com frio, mas não é isso. Minha visão fica turva e uma tempestade de emoções invade meu peito, fazendo meu coração disparar. Tento iniciar o exercício de respiração que minha psicóloga ensinou, mas meus pulmões se recusam a colaborar, e minha garganta se fecha em dor e agonia.

Nas fases do luto que minha psicóloga mencionou, não consigo me encaixar em nenhuma. Quando criança, talvez eu não tivesse maturidade para entender, mas agora, na adolescência, sinto que pulei todas elas e me perdi em um estado indefinível. Achei que estava na fase de aceitação; cheguei até a concordar em doar as coisas dele, mas talvez fosse só porque elas não me lembravam mais nada. Talvez porque, para mim, se tornaram apenas pedaços de pano.

Mas isso... isso é diferente. Entre doar roupas e encarar esse quadro, prefiro a primeira opção. Na minha frente, vejo um quadro personalizado com slides do meu pai: momentos dele com funcionários, sorrisos, poses para fotos. Imagens de coisas que ele nunca mais poderá fazer. Memórias transformadas em pedaços de papel, e só.

Duas lágrimas deslizam pelo meu rosto. Abraço meu próprio corpo, tentando sufocar o vazio que ele deixou em mim — um vazio que nunca será preenchido. Tento olhar para o quadro novamente, mas é em vão. Respiro de forma irregular, e as lágrimas continuam caindo.

Sem saber o que fazer, saio da sala às pressas e volto para o elevador. Aperto um botão qualquer, e as portas se fecham. Meu corpo desliza pela parede do elevador enquanto soluços e dores incontroláveis me dominam.

Quando o elevador para, as portas se abrem para revelar um lugar escuro e frio. Levanto e saio, caminhando por um corredor vazio cheio de peças descartadas e coisas aparentemente inúteis — como me sinto agora.

No final do corredor, vejo uma sala aberta, iluminada. Entro e encontro apenas uma cadeira e uma guitarra elétrica branca. Sento na cadeira, pego a guitarra e ajusto suas cordas antes de começar a tocar. O som é alto, quase agressivo. Paro por um instante, mas logo volto, dedilhando as cordas com mais força. É como se cada nota abafasse os sentimentos que gritam dentro de mim, me jogando em um mar sem lua, sem sol, sem luz.

Anya Belov

Ao chegar à empresa, não tive tempo de entrar na minha nova sala por causa de uma reunião de última hora com todos os diretores. Enquanto minha filha leva minhas coisas, sigo direto para a sala que mandei preparar.

Ao ler os relatórios recentes, notei pequenas inconsistências, como se tivessem sido feitos às pressas. Resolvi investigar até onde os responsáveis sabiam disso. Como esperado, os diretores mal conheciam os detalhes, deixando tudo nas mãos dos subordinados.

A reunião foi longa e desgastante, mas resolvi o problema. Assim que acabou, voltei para minha sala. Minhas coisas estavam pousadas em uma poltrona preta, mas minha filha não estava lá, como havia prometido.

Caminhei pela sala, analisando a decoração. Eles tiveram semanas para prepará-la, mas mantiveram a esperança de que o próximo CEO seria um homem. Essa sala reflete isso.

Ao encarar o enorme quadro na parede central, engoli seco. Meus dedos apertaram meus braços enquanto eu tentava não desmoronar.

— Aqui não. É só um quadro, Anya. Aqui não.

Fechei os olhos e tentei focar no presente. Respirei fundo, apertei as alianças no meu dedo, procurando um ponto fixo. Aos poucos, recuperei o controle e apertei o interfone.

— Senhora Petrova? — respondeu minha secretária.

— Chame todos os diretores à minha sala. Agora.

— Sim?

— Quem colocou esse quadro aí? — pergunto sem rodeios e vejo todos os olhares virarem para a parede. Após alguns segundos, voltam para mim.

— Nós só achamos que seria uma excelente homenagem ao grande homem que foi o senhor Nikolai, que jamais será esquecido ou substituído.

O sorriso presunçoso que consigo capturar ao focar no rosto do homem que acabou de falar me deu certa raiva. Eles usaram a imagem do meu marido para me desestabilizar? A raiva foi substituída por escárnio, e provavelmente isso foi perceptível pela súbita mudança nas expressões mansas deles.

— Vocês usaram a imagem do meu marido para me desestabilizar?

Agora, a surpresa é a emoção que assumiu o controle em todos eles.

Não me admira que eles não saibam disso; na verdade, quase ninguém fora do círculo social russo sabe, notícias russas não são facilmente acessíveis, principalmente aqui nos Estados Unidos.

— Acredito que vocês não sabiam disso; vossas expressões faciais indicam isso. Então, vamos deixar algumas coisas bem claras: Eu sou Anya Petrova, esposa do finado Nikolai Petrova. Ou seja, eu não sou vossa CEO por acaso, não vim ocupar o cargo de ninguém, eu sou a dona de tudo isso e, como tal, mereço respeito, gostem vocês ou não. Então, meus caros diretores, tenham cuidado com os passos que vocês dão e as ações que executam, porque não terei remorso algum em mandá-los para o olho da rua.

— Desculpe, senhora, não foi nossa intenção fazer…

— Com intenção ou não, vocês já o fizeram. E eu já dei meu aviso. Agora, saiam. — corto o discurso e dou por encerrada qualquer discussão.

Do mesmo jeito que entraram, foi do mesmo jeito que saíram: exatamente pela pose que perderam no decorrer do tempo aqui dentro.

Todos eles saíram, e eu finalmente fiquei novamente sozinha, submersa no meu próprio mar de escuridão

"Eu te amo."

Ouço as palavras, mas não tenho coragem de me virar para retribuí-las, ao menos não agora.

Um suspiro escapa pelos lábios dele, seguido pelo som da porta ao bater, sinalizando sua partida. Passo os dedos pelo rosto e limpo uma lágrima intrusa que insiste em escapar. Odeio brigar com ele, mas, desta vez, ele realmente me machucou muito.

Sento na cama e, enquanto mais lágrimas escorrem pelo meu rosto, abraço minhas pernas, abaixando a cabeça entre elas, e choro ainda mais.

Abro os olhos devagar, tentando sair do meu mar. As lembranças, toda vez que fecho os olhos, retornam à superfície, acompanhadas pelas lágrimas e pela tristeza. Até mesmo a centelha das boas lembranças – aquelas carregadas de sorrisos e amor – é lentamente apagada pelas águas da dor, sem chance de sobrar nem sequer fumaça delas.

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