Mundo ficciónIniciar sesiónAxel White
Estupefacto. Assim me encontro neste momento e no próximo que se seguiu ao entrar na minha sala. Sento-me na cadeira e encaro a mulher que, novamente, está de frente para mim com a mesma expressão que eu. - Como é que não sabia disso? A pergunta é dirigida a mim por um motivo. Eu era estagiário do senhor Nikolai quando entrei nesta empresa, e, por isso, tinha que saber tudo sobre a sua vida. Não era uma regra obrigatória, mas, para ser um bom estagiário, eu tinha que conhecer as coisas que ele não gostava, por exemplo, assim eu evitava cometer muitos erros. Todavia, ele nunca mencionou uma esposa e, muito menos, havia uma aliança visível no seu dedo. Esta era uma notícia da qual nunca tive conhecimento. Nunca. - O senhor Nikolai nunca mencionou nada disso. Mal havia uma aliança no seu dedo. - Porque é que ele escondeu isso? - Quer ir até ela perguntar? Adele negou veemente. O que a senhora Petrova tem de linda, ela tem de fria, e acho que, após os acontecimentos de minutos atrás, ninguém está disposto a ir lá trocar palavras com ela novamente. Ainda não dá para acreditar que os outros diretores fizeram aquilo. Como se não bastasse decorar a sala como se fosse de um homem, eles ainda tinham que decorar uma parede inteira como se fosse uma homenagem ao senhor Nikolai. Aliás, não teria problema nenhum se fosse assim, afinal, tem uma ala no primeiro andar com um mural de homenagem a ele. Mas na sala da nova chefe, aí eles foram longe demais. - Ela deixou claro que não dará segundas oportunidades. Desperto ao ouvir a voz e volto a concentrar-me na conversa. - A ela não deram sequer uma. Em vez de esconder o descontentamento com um sorriso, preferiram deixá-lo visível com aquele quadro. Olharam para ela como se fosse uma qualquer quando entrou na sala de reuniões e ainda a afrontaram. - Eles mal deram uma chance a ela de provar o que vale. - Pois não, e isso vai sobrar para nós. É melhor termos cuidado com tudo o que fazemos aqui dentro, ou seremos mais um na fila do desemprego. - Eu vou começar agora. Preciso voltar para a minha sala. Adele levanta-se da cadeira e caminha até à porta. Mas, antes de sair, olha para trás e fala por cima do ombro. - Ela fará uma visita guiada à empresa amanhã. Sinto o meu rosto perder a cor, e as minhas mãos começam a tremer. Evito olhar para ela, para lugar nenhum, na verdade. Ouço a porta bater e respiro fundo. E agora? Estou ferrado. Fecho os olhos e levanto-me da cadeira. Ando rápido até à porta, abro-a e tento sair, mas Blair surge à minha frente, impedindo a minha passagem. Sorrio forçado. - Blair. - Onde vais? - ... A lugar nenhum. O que precisas? - A equipa quer a tua supervisão para a implementação do novo software da empresa. O senhor Stevie quer saber como está o novo aplicativo que ele pediu e quando será entregue a ele. Fecho os olhos e suspiro. Mais trabalho. Como diretor de desenvolvimento de software, o meu trabalho triplicou. Trabalho mais agora do que quando era um simples programador, já que sou responsável por supervisionar o desenvolvimento e a implementação de aplicativos e sistemas de software. E isso é muito trabalhoso, não posso falhar nisso, principalmente quando se trata de algo relacionado à empresa, ou será um caos. - Vamos então. Desisto da primeira ideia e me junto à minha equipe para começar o trabalho. O dia parece mais longo do que o habitual. Cada tarefa concluída é rapidamente substituída por outra, e as horas voam enquanto a minha mente tenta equilibrar a pressão de ser o responsável por tantas entregas. Quando finalmente olho para o relógio, percebo que já passou das oito. Depois de finalizar os últimos detalhes do relatório para Stevie, despeço-me da equipa com um aceno cansado e saio do edifício. O estacionamento está vazio, exceto pelo meu carro, que me espera como um refúgio silencioso. No caminho para casa, a rua pouco movimentada permite-me diminuir a velocidade e suspirar, mas ao fazer isso, os meus pensamentos vão diretamente para ela. Na postura altiva e no olhar frio, ela impõe respeito até nas pessoas que tentaram desrespeitá-la, demonstrando que está habituada a lidar com aqueles que constantemente duvidam dela. Isso deixou-me desconfortável, mas não de uma forma má... Era diferente. "Porque é que o senhor Nikolai nunca mencionou uma esposa? Porque é que ele não usava aliança?" Suspiro, sem saber como obter uma resposta, já que quem poderia dar-me uma, agora não está mais aqui. Estaciono o carro em frente à minha casa. Fecho os olhos, recosto o corpo no encosto do banco do carro e respiro fundo, tentando recuperar as forças que perdi durante o dia. Após alguns minutos, saio do carro e entro em casa. O silêncio que me recepciona é sinal claro de que não tem ninguém. Exceto por um corpo pequeno e rápido que entra nas minhas calças, subindo pelo meu corpo com rapidez e entusiasmo. Ao chegar no topo do meu ombro, ele se aninha a mim e eu sorrio. - Oi, Jimin. Ele aninha-se ainda mais e abandona meu ombro para subir até a minha cabeça e pousar entre os meus cabelos, seu lugar favorito no meu corpo. Jimin é o meu porquinho-da-índia, a coisinha peluda mais fofa e carinhosa que existe neste mundo. Tenho ele desde que nasceu. Nossa vizinha tinha um porquinho, a mãe do Jimin. Mas, infelizmente, ela acabou morrendo por causa do gato odioso do nosso outro vizinho. Quando ela ficou prenha, deu à luz muitos porquinhos, e ela não tinha condições de cuidar de todos, então vendeu alguns e ofereceu-me este. Ela disse: "Quero que fiques com ele, pela bondade de cuidar de mim e da minha bebé." Eu fiquei muito emocionado naquele dia, principalmente ao ver algo tão pequeno e lindo nas minhas mãos. Foi o melhor dia da minha vida. - Você comeu? Ele mal responde, então presumo que sim. Se não tivesse comido, ele não estaria com essa preguiça toda. Subo com ele até o meu quarto, abro a porta e pouso-o sobre a minha cama, junto com minhas coisas de trabalho. Tiro a roupa e entro no banheiro para tomar um banho. Jogo minhas roupas no cesto. Passo rapidamente na frente do espelho, ponho a banheira para encher e começo a pegar os produtos que uso na água. Termino de colocar tudo e volto ao lugar. Todavia, ao voltar, o último sal de banho acaba caindo na frente do espelho. Engulo seco e, com passos hesitantes, me aproximo e pego o produto, mas ao levantar meus olhos, meu reflexo me congela. Meu lábio começa a tremer levemente, engulo seco e meus olhos marejam com a visão. Minhas mãos estão frias e úmidas. Eu disse a ela que não queria um espelho no meu quarto, que não queria espelho, principalmente no meu banheiro. Então, por que ela pôs um? Minhas mãos sobem lentamente pelo meu corpo, até pousar na última cicatriz, aquela que mais doeu e deixou rastro de sangue e dor em mim. A cicatriz que... Uma lágrima escorre pelo meu rosto. - Traz ela de volta! Eu fiz tudo certo... Eu... Eu... Tento lutar contra a minha irmã para me soltar de seus braços e, com essa força, sinto os fios se romperem e o sangue escorrer da minha pele, quente, vigoroso e doloroso. - Eu faço outra vez, mas traz ela de volta. Traz. Todo meu esforço foi inútil então? Eu não fiz nada certo, nunca faço nada certo. Arranhões na minha pele me fazem voltar ao presente e encarar o espelho totalmente quebrado pelo produto que antes estava nas minhas mãos. Sinto um nó na garganta e lágrimas grossas escorrem pelo meu rosto. Meu corpo desaba no chão e começo a hiperventilar. Com isso, Jimin começa a arranhar mais minha pele no braço, fazendo-me sentir dor e me lembrando que estou no presente, com ele, agora. Abraço-o e mais lágrimas caem. Sinto algo molhar o meu calção e penso que são minhas lágrimas, mas não, é a água da banheira transbordando. - Não, não. Levanto rapidamente e fecho a torneira. Suspiro e passo as mãos pelo rosto. - Vamos descer, Jimin. Desisto do banho e saio do banheiro. Troco o calção de banho por outro e coloco roupas de moletom confortáveis. Saio do quarto e desço as escadas, mas paro no meio delas ao ouvir vozes no andar de baixo. Respiro fundo uma, duas, três vezes até cessar a sensação de soluço e passo o moletom pelo rosto para certificar-me de que não há vestígios de lágrimas. Volto a respirar e, enfim, coloco um sorriso no rosto. - Está tudo bem, Axel. Respira e sorri que vai ficar tudo ótimo. - Axel! Abro os olhos e fito minha irmã. - Oi, finalmente chegaste. - Estava trabalhando. Estive a um passo de acreditar nela, se o empecilho do namorado dela não aparecesse logo atrás dela. - Trabalho, sei. Termino de descer as escadas e torço o nariz ao ver a outra pessoa na sala. - O que ela faz aqui? - Oi, criança. - Não sou criança, fã revoltada. Ayana revira os olhos e Airon sorri, sabendo que vai começar uma pequena briga entre nós dois. Sydney é amiga da minha irmã, uma linda mulher negra com cabelos pretos que estão sempre presos em uma trança ou curtos até os ombros, olhos castanhos escuros, corpo volumoso, e sempre, sempre muitíssimo bem vestida, seja em que ocasião for. Ela sempre está bem vestida. Sydney é treinadora de basquetebol de uma equipe feminina muito famosa e amiga da minha irmã nos tempos vagos. Mas, tirando os pontos bons dela e colocando os maus, ela é extremamente irritante e, quando está aqui em casa, seu passatempo predileto é atormentar a minha vida. - Não tinhas nada para vestir? Eu te empresto roupa. - Minha querida, as roupas da sua avó já saíram de moda. Posso até achar que ela veste muito bem, mas dizer isso? Nunca. - Já chega, vocês dois, hoje não. Sento no sofá junto deles e começo a fazer carinho no Jimin. Observo as duas e ignoro meu cunhado. Noto o semblante das duas e a falta de continuação das provocações da parte da Sydney, o que não é normal. - Aconteceu algo? Tem a ver com a vossa amiga? As duas saíram ontem para ver a amiga que acabou de chegar aqui nos Estados Unidos e estavam muito empolgadas para isso, mas agora isso sumiu. - Tem sim, estou preocupada com ela. - Por quê? - Ela não é a mesma, cresceu claro, porem, eu vejo que algo quebrou dentro dela, para sempre. - Talvez seja só o tempo, pelo que sei vocês não se veem há anos. - Não é o tempo, nunca será o tempo para nós. - Sabes aqueles amigos que não estão sempre juntos? Aqueles que nem sempre vão falar ao telefone, mas, quando se veem, é como se o tempo nunca tivesse passado? Essas somos nós. - Mesmo que o tempo passe, mesmo que o mundo mude, eu vou sempre conhecer minhas amigas, por isso sei que ela não está bem, não estará por um bom tempo. Uma característica delas que gosto é a lealdade que têm umas com as outras, o amor que cada uma cultiva, ao menos no caso delas, já que não conheço a outra. - Mas pensem pelo lado bom, ao menos agora ela tem vocês duas aqui. - Sim. A voz delas não me convenceu neste momento. - Axel, voltas a tocar no restaurante quando? Airon tenta mudar o foco da conversa, para algo mais leve, e eu agradeço mentalmente por isso. - Não sei ainda. - As pessoas têm saudades de ti, não param de perguntar por você. - Ayana sorri e eu faço o mesmo. Ela e Airon trabalham juntos no restaurante que pertence aos dois. Ambos são chefs muito talentosos. A comida deles é maravilhosa e eu amo comer. Sem contar que ter uma irmã chef me dá a vantagem de não cozinhar, nunca. Já que ela sempre acha que minha comida nunca está boa o suficiente. Na cabeça dela, é um insulto. Na minha, é um alívio. - Talvez no final de semana eu vá lá. Há dois anos que toco no restaurante. Comecei como um passatempo, uma forma de me divertir nas sextas-feiras, sem ter que ir a uma balada ou ficar em casa. Era um bom hobby que nunca achei que as pessoas iriam gostar, mas, com o passar do tempo, as pessoas começaram a ir lá para me ver tocar guitarra e isso foi incrível para mim na época, ver pessoas indo lá para ouvir meus solos ou as adaptações que faço com músicas de cantores famosos. Mas parei de tocar com frequência quando fui promovido a diretor na empresa. O trabalho era tanto nos primeiros meses que chegava em casa totalmente cansado e sem forças, só queria dormir e nada mais. Sem contar que, nos dias em que eu tocava, o restaurante fechava muito tarde e isso afetava meu sono, o que, por sua vez, afetava meu trabalho e minha produtividade, então tive que parar por um tempo. - Aproveita a única coisa boa que você sabe fazer. - Não enche, velhota. - Olha aqui, criança, eu estou melhor que você! - Aham, sei. - Começo a rir ao ver seu rosto totalmente vermelho. - Cuidado, Syd, olha as rugas. - Ah, não. Ela levanta e tenta vir até mim, mas minha irmã fica na frente dela e eu volto a rir. Tirar a Sydney do sério é meu maior passatempo. - B**e nele. - Não posso. - Você é a mais velha. - Mas não vou bater nele. - Vocês dois são muito infantis, puta merda. - Olha, você não tem casa? - Aqui é a casa da minha noiva. - Namorada, nunca vi uma aliança de noivado no dedo dela. - Airon morde o lábio e baixa a cabeça por alguns segundos. Eu sei que ele quer pedir minha irmã em casamento, mas também sei que ele não tem coragem. Ou, como ele mesmo diz, não tem o "momento certo". - Mudando de assunto, chefes, vamos cozinhar. - Falo uma das minhas frases favoritas de Masterchef. - Folgado. - Esfomeado, isso sim. Nós rimos e vamos para a cozinha.






