Mundo de ficçãoIniciar sessãoYuna Belov
O ar frio b**e em meu rosto quando a lâmina dos patins rasga o gelo, gerando um som agudo. Cada giro faz com que o som do gelo sendo riscado se assemelhe a cristais estilhaçados pela força que exerço para realizar cada movimento, com a pretensão de não falhar nenhum. Paro por alguns instantes, respiro fundo e começo a patinar para trás, ganhando impulso suficiente para iniciar um giro, mantendo o ritmo constante e tomando cuidado para não machucar minhas mãos. Levanto uma das minhas pernas em um ângulo preciso e seguro a lâmina do patim, erguendo-a aos poucos até estar totalmente firme, mantendo-a no ar, girando sem parar e mantendo os movimentos constantes e rítmicos. Solto a lâmina do patim e, com o mesmo cuidado, volto minha perna para o chão, no mesmo instante em que realizo outro salto. Ao fazê-lo, sinto meus olhos arderem, não só pelo frio cortante, mas também pelas lágrimas que começam a se formar ao imaginar a primeira vez que dei um salto e caí. Naquela época, meu pai estava lá para me amparar e me dizer para não desistir. Hoje, ao ir mais alto, quase sinto ele perto de mim, segurando-me para não cair novamente e fazendo algo perfeito. Por alguns instantes, sorri. Contudo, ao aterrissar, o sorriso desaparece ao notar que meu pai não está aqui. Ele não estava me segurando, e isso fez com que as lágrimas caíssem sem que eu tivesse forças para detê-las. Ergo meu corpo e olho em volta, para todo o ringue. Um novo sorriso surge no meu rosto ao ver minha mãe me observando e sorrindo com os olhos brilhantes. Fiquei ainda mais emocionada ao vê-la batendo palmas junto com minhas madrinhas, demonstrando o orgulho que ela tem por mim. Meu pai infelizmente não está aqui, mas minha mãe está, e isso me faz imensamente feliz. Deslizo sobre o gelo para perto delas, saio do ringue e retiro os patins antes de me aproximar delas. — Bom dia, mamãe. — Bom dia, meu amor. — Mamãe sorriu ainda mais e chegou mais perto, apertando-me em seus braços. — Você foi incrível! — Você tem um talento maravilhoso, meu bem. Sorri ainda mais e encaro as duas melhores amigas da minha mãe, minhas madrinhas. Apesar de ser a primeira vez que vivo aqui, não é a primeira vez que venho para este país, ao contrário da minha mãe. Quando eu era criança, eu sempre gostava de viajar com meu pai para passar mais tempo com ele, já que suas viagens às vezes duravam muito tempo e eu não gostava de estar longe dele. Então, em uma dessas viagens, viemos para aqui, porque meu pai tem empresas aqui também, e foi nessa viagem que conheci minhas madrinhas, pois quando elas saíram da Rússia eu era muito pequena para lembrar delas. Meu pai e eu passamos uma semana na casa da minha madrinha Ayanna, e foi muito divertido, principalmente ficar com a madrinha Sydney, porque madrinha Ayanna parece um pouco com a mamãe na sua proteção e cuidado, enquanto madrinha Sydney me deixava comer doces e ver TV até tarde. Foi muito divertido. — Estou feliz por ver vocês novamente e estar mais perto. — Sorri, e as duas me abraçaram com carinho. — Nós também estamos felizes de ter vocês duas aqui, princesa. — Minha bebê está tão grande, já não dá para dar doces escondido da Ayanna. — Ri ao ver a cara dela mudar totalmente. — Você é uma irresponsável, Sid. E se ela ficasse doente? — Pois é, mas ela ficou. — O quê?! — Minha mãe e madrinha Ayanna gritam em uníssono. Pronto, vai dar errado. — Não tive culpa, mas depois de comer tantos doces, Yuna teve dor de barriga. E como era madrugada e eu não queria você e o Nikolai berrando nos meus ouvidos, levei ela ao hospital e ficou tudo bem pela manhã. — Não acredito nisso, Sidney. — Mamãe, foi há muito tempo e não foi tão grave assim. — Seu olhar foi dirigido a mim e decidi calar a boca, melhor ter a mamãe chateada com ela do que comigo. — Então, né, eu vou me vestir para sairmos e comer algo. Tchau. — Yuna! Não me deixa aqui. — Boa sorte, madrinha. Saí correndo para dentro de casa e sorri ao ouvir minha mãe. Isso vai demorar muito. Entro em casa às pressas para não me atrasar e corro para o meu quarto para poder tomar banho. Ao entrar, paro no meio do quarto e encaro o ambiente todo branco, não parece nada comigo. — Vovó? Saí do quarto e caminhei pelo corredor de mármore branco, que contrasta com as paredes cinza e os quadros coloridos nas paredes. Alguns são de família e outros de pintores russos renomados. Todos eles dão um toque diferente ao corredor. Parei de frente ao quarto dos meus avós e bati à porta duas vezes. — Entra, querida. Abri a porta e sorri ao ver os dois. Andrey e Svetlana são os melhores avós que alguém poderia ter. Eles me apoiaram quando papai se foi e cuidaram de mim e da minha mãe em vários momentos, principalmente quando mamãe não conseguia cuidar dela ou de mim nos primeiros meses após a morte do meu pai. Eles foram cruciais para nós duas naquele momento. Dédushka Andrey é um homem alto, com um metro e oitenta e cinco, cabelos pretos, tomando os tons cinza pela idade, e a barba da mesma cor. Seus olhos são castanhos claros, e a pele é clara. Dédushka Andrey é sempre controlado e muito amoroso, protetor comigo, minha mãe e minha avó, principalmente depois que meu pai se foi, já que ele assumiu a responsabilidade de cuidar da filha e da neta, principalmente quando as pessoas começaram a importunar minha mãe por ser viúva. "Da minha filha e minha neta ninguém vai se aproximar ou fazer mal enquanto eu for vivo." Lembro dessas palavras ditas quando eu tinha 11 anos, e agora, com 14, nunca vi essa promessa ser quebrada. Completamente diferente de meu avô, está bábushka Svetlana, com um metro e oitenta, cabelos ruivos como os da minha mãe e olhos violetas, que sempre me lembram minha cor preferida e causam uma calma instantânea, principalmente quando estão repletos de amor, como agora. — Algum problema, solnyshko? Me aproximo da minha avó e seguro suas mãos. — Preciso muito pedir um favor, mas não quero... — Fala, e nós fazemos para você. — Sorri para meu avô. — Meu quarto, ele é muito branco e eu não gosto. — Faz uma lista do que você quer e nós tratamos disso. Assim aproveitamos também para sair um pouco de casa. Sorri e peguei uma folha e uma caneta para escrever tudo o que eu queria. Ao terminar, entreguei para eles. — Nós vamos cuidar disso. — Vovó beijou meus cabelos e sorriu ainda mais. — Agora vou tomar banho. Saí do quarto deles e voltei para o meu. Entrei, fechei a porta e retirei toda a roupa. Depois, entrei no banheiro. Tomei um banho demorado e logo saí. Limpei meu corpo e abri meu guarda-roupa para tentar achar algo bonito para vestir. Mamãe disse que vou com ela conhecer a empresa do papai, então preciso vestir algo bonito, porque aposto que minha mãe estará bonita como sempre, e eu quero estar igual a ela. Mudei a direção para o lado do closet em que estão as roupas mais formais, mordi o lábio, indecisa. — O que será que minha mãe usaria aqui? Olhei em volta novamente, tentei imaginar o estilo dela. É bem diferente do meu, e minhas roupas mostram isso agora. Porém, ela quem fala para eu escolher o que quero ser, não é? Sorri e peguei uma camisa rosa com laço preto e uma saia preta. Peguei meus cremes e passei pelo corpo, vesti a roupa que escolhi de frente ao espelho e sorri ao pegar as botas pretas de cano curto. Vesti-as, me ergui e me encarei no espelho, peguei um laço roxo e prendi meu cabelo. — Será que está bonito? — Está lindo. Tomei um susto ao ouvir a voz e me virei rapidamente, dando de cara com minha mãe. — Mãe! — Desculpa, não queria ter te assustado. Mamãe entrou totalmente e ficou de frente para mim, virou meu corpo e soltou o laço que coloquei. — Mamãe... — Espera. Mamãe pegou um punhado do meu cabelo e prendeu em um rabo de cavalo alto e frouxo, prendeu o laço em volta dele e voltou a me virar, retirando alguns fios de cabelo e enrolando-os com os dedos até caírem em cascata pelo meu rosto. — Pronto. Encarei meu reflexo no espelho e sorri ao ver o quão bonito está. Mamãe é a única que sabe fazer penteados no meu cabelo que gosto, e que ficam bem em mim. — Está lindo, obrigada, mamãe. — Não precisa agradecer, meu coração. Agora vamos. Seguimos juntas para fora do quarto. Descemos as escadas e nos dirigimos até a sala de jantar, onde estavam meus avós e minhas madrinhas. — Nossa, tal mãe, tal filha. — Vocês estão lindas. Sorri e sentei à mesa ao lado da minha mãe. — Vamos tomar café então. Com isso, meus avós começaram a servir enquanto nós esperávamos para sermos servidas também. 🪷🪷 Anya Belov Embora o dia tenha amanhecido com o brilho suave do sol, a tranquilidade logo se desfaz. É uma segunda-feira, e hoje preciso me apresentar para uma empresa inteira, repleta de rostos desconhecidos. Pessoas que, mesmo sem me conhecer, já encontram prazer em tecer críticas. Não pelo meu trabalho ou pelas minhas decisões, mas pelo simples fato de ser uma mulher liderando um grupo tão grande. Para muitos, isso parece ser motivo suficiente para duvidarem de minha capacidade. Respiro fundo e lamento pela tarde que me espera, especialmente porque minha manhã havia começado tão perfeita. Assistir à minha filha patinando, compartilhar um café da manhã com minhas amigas e meus pais, relembrar bons momentos, rir das memórias e, por fim, sentir o mar e a areia sob meus pés... tudo isso me trouxe uma sensação de leveza que agora parece tão distante. Mas as segundas-feiras, ah, elas têm esse talento peculiar de estragar tudo. É em dias como este que sinto inveja dos meus pais, já reformados, desfrutando de uma vida tranquila, sem a pressão de responsabilidades como as que carrego. Suspiro mais uma vez, buscando forças para enfrentar mais um grupo de pessoas que, com toda certeza, vão testar minha paciência e minha competência. Se não fosse pelo legado que essa empresa representa, pelo esforço e sonho do meu Nikolai, talvez eu já tivesse me desfeito dela. Logo após o anúncio público da morte do meu marido, recebi diversas propostas de compra. Poderia ter vendido tudo, dado as costas para esse mundo. Mas não consigo. Não seria justo com ele, com seus sonhos, nem com a memória que deixou. Isso não é apenas uma empresa. É o trabalho árduo de Nikolai, uma realização que sustenta tantas famílias. Cada pedra, cada centímetro destes prédios carrega sua marca, sua dedicação. É por isso que continuo, mesmo quando tudo parece tão difícil. Trabalho dia após dia para manter esse legado de pé. E, em parte, faço isso também para provar a todos que duvidaram de mim que estão errados. Que sou capaz, sim, de liderar e preservar aquilo que ele construiu. Aceito as luvas que alguém coloca em meu braço e fecho os olhos por um breve momento. Quando os abro novamente, vejo a porta do carro sendo aberta para mim. A entrada do prédio, decorada e impecável, reflete o esforço e a expectativa para a minha chegada. — Vamos? — Yuna sorri, ajusta a máscara no rosto e faz um pequeno aceno. Ela está ansiosa para conhecer as empresas Belov, mas prefere manter o anonimato. Saímos do carro e caminhamos para dentro do prédio. Um pequeno grupo de pessoas nos aguarda na recepção, todos com sorrisos bem ensaiados. Retribuo com um sorriso discreto, cumprimentando-os minimamente. Passo por eles e entro no elevador, já sentindo o peso do ambiente. É sufocante, e mal se passaram alguns minutos desde que pisei aqui.






