Mundo ficciónIniciar sesiónAxel White
O arrependimento por ter vindo trabalhar hoje é grande. Algo no fundo do meu âmago sussurrava para que eu não viesse, mas ignorei e decidi seguir em frente, o que agora vejo como um erro enorme. Infelizmente, esqueci que a empresa está uma loucura esses dias por causa da chegada da nova CEO, uma mulher que ninguém conhece — pelo menos não aqui nos Estados Unidos. A empresa é russa, e a filial de todas as unidades fica na Rússia. Mas por algum motivo, ela decidiu transferir a sede para cá. Só sei que é uma mulher, simples assim. Conheci o ex-líder, senhor Nikolai. Ele era um homem gentil, amável com todos, e não havia ninguém na empresa que não o respeitasse. Já a nova executiva... Todos têm suas dúvidas sobre suas capacidades. Questionam o motivo de ela ter assumido o cargo após a morte do senhor Nikolai. Eu acho que é só inveja por ver uma mulher no poder. Afinal, é raro ver mulheres ocupando altos cargos por aqui, e os homens nem sempre ficam felizes com isso. Homens estúpidos, eu diria. Bebo um gole do meu café enquanto entro no elevador. Aperto o botão para o meu andar e suspiro. Mais um dia em que eu queria estar fazendo outra coisa, mas preciso me desgastar no trabalho. O elevador para no meu andar, e eu saio, cumprimentando as pessoas com um sorriso. Entro na minha sala, deixo minhas coisas na mesa e me sento na cadeira. Antes de abrir o computador, continuo bebendo meu café e observando o movimento lá fora. As pessoas parecem agitadas, como abelhas em uma colmeia, preparando a geleia real para a abelha rainha. Sorrio com o pensamento. Ela está chegando, e todos aqui giram ao redor dela, já que as empresas da família Belov geram milhares de empregos, só aqui. Sem contar os outros países. Ela, sem dúvida, é uma abelha rainha. — Por que esse caos todo? —Adele pergunta ao entrar na minha sala, fechando a porta atrás de si e trazendo o silêncio de volta. —A chegada da abelha rainha. Lembras? — Todo o prédio está um caos. Os diretores de cada setor estão quase morrendo de infarto ou derrame por causa dos relatórios que precisam preparar e das reuniões de avaliação que cada um terá.— rimos disso. Adele é bonita de um jeito único. Seus cabelos naturalmente loiros agora estão tingidos de castanho e vermelho porque, segundo ela, "as loiras no mundo são demais e ela não quer ser uma delas". Algo bem diferente para uma mulher de 24 anos. As unhas dela estão sempre pintadas de preto ou branco, e as roupas, bem ajustadas, ressaltam as curvas do corpo. Mas o que realmente a torna linda é sua autoconfiança, inteligência e lealdade. Eu gosto disso nela, e ela se orgulha de ser assim. As pessoas que têm a sorte de tê-la na vida delas sabem o quanto é valioso. — Eles não são os primeiros a criticar nossa CEO por ser mulher? — Sim, mas nenhum deles quer perder o emprego que sustenta suas famílias. — Enfim, hipocrisia. Termino o café e jogo o copo no lixo. Eu e Adele estamos mais relaxados porque já terminamos nossos relatórios com nossas equipes, e nossos setores são os únicos com uma aparente "paz". Não sobrecarregamos o trabalho e sempre mantemos tudo em ordem. — Como ela será? Será que é igual ao senhor Nikolai? — Duvido muito, ninguém é igual a ninguém, e pelo jeito com que as pessoas estão se arrumando para recebê-la, deve ser casca dura. Ela concorda e continua olhando o caos lá fora, que, para mim, até certo nível, é divertido. Talvez assim eles aprendam a não menosprezar o trabalho ou deixar para a última hora. — Quando ela chega? — Hoje. Os sites de notícias estão eufóricos com a vinda dela. É a primeira vez que ela pisa nos Estados Unidos, e ninguém quer perder a oportunidade de fazer negócios com ela. — Ser uma mulher poderosa é assim. Nos entreolhamos e rimos, apreciando a paz que, claro, não durou muito, já que Blair, minha secretária, entra na sala eufórica, quase sem fôlego. — Correu uma maratona, Blair?— pergunto, rindo. — Ha, ha. Muito engraçado.— Ela não parece achar graça.— Ela chegou. Meu sorriso desaparece e olho para Adele. Ela me encara de volta, e ambos engolimos em seco, respiramos fundo. Levanto da cadeira, ajeito meu terno e atravesso o espaço entre a mesa e Adele. — Vamos conhecer nossa CEO. — Vamos. Saímos da sala, com nossa secretária nos seguindo, e entramos no elevador. Aperto o botão para o "Olimpo", nome carinhoso que os funcionários deram ao último andar do prédio, por ser exclusivo da presidência e das equipes que fazem parte dela. Todos acham que têm o rei na barriga. Quero ver como vão se comportar agora. O elevador para, e a porta se abre. Todos os diretores estão ali, reunidos, antes mesmo de sairmos. O que está acontecendo aqui? — Perdemos algo? — Reunião de emergência com todos os diretores. — Todos? — Todos. O que ela quer? Deixo essa pergunta para lá enquanto seguimos para a sala de reunião. Cada um ocupa sua cadeira correspondente. A tensão na sala é palpável. Mal ela chegou e já conseguiu criar esse clima? Impressionante. Após alguns minutos de espera, a porta se abre. O som de saltos batendo contra o mármore da sala cessa os burburinhos, e todos levantam o olhar. Ao fazer o mesmo, pisco algumas vezes para processar a imagem na minha mente. Essa é nossa nova CEO? Encaro-a caminhar até sua respectiva cadeira, ao mesmo tempo que novos burburinhos começam. Se já era complicado imaginar ela comandando a empresa, imagine saber que uma companhia tão grande será gerenciada por uma mulher tão... tão nova. Dona de cabelos ruivos naturais, pele clara, um nariz fino, lábios vermelhos e um corpo emoldurado por vestes pretas, com um sobretudo que esconde uma camisa social. A imagem dela a faz parecer uma miragem no meio do deserto, mas a forma com que todos a encaram e a postura altiva que ela evidencia, deixa claro que ela é muitas coisas, mas uma miragem definitivamente não é uma delas. Seu olhar recai sobre cada um de nós. Limpo minhas mãos na calça na tentativa de extravasar o nervosismo. Ela conseguiu nos deixar assim e sequer abriu a boca ainda. — Boa tarde a todos. Sou Anya Belov, a nova CEO. Sua voz é calma, mas forte, e impõe respeito. Ela consegue fazer com que o burburinho da sala se cale instantaneamente, só com o som dela. Puta merda, que mulher. — Vamos começar a reunião, mas peço que os secretários se retirem. Quero conversar apenas com os responsáveis de cada setor. — Axel! — sinto dor na minha perna e olho para baixo, vejo as unhas compridas e olho para Adele, que me encara com os olhos semicerrados.— Você está babando nela, concentre-se! Ela sussurra e acena com a cabeça. Ergo o olhar e vejo os secretários em pé, saindo um a um, mas, antes, lançam olhares para nós como votos de boa sorte. A porta se fecha quando o último sai, mergulhando a sala no silêncio cortante e na tensão palpável. — Diretores, me apresentem os relatórios que prepararam. A tensão só aumenta. Metade das pessoas aqui não sabe o que está em seus relatórios. Os secretários, sim. Olav levanta primeiro, mas a postura confiante de antes já não está presente, assim como a autoridade em sua voz. Ele pega o papel sobre a mesa para tentar ler o conteúdo do relatório e respira fundo antes de começar. Porém, ao mínimo olhar gélido de Anya, ele pousa o papel e engole seco. Tenta novamente, mas falha miseravelmente, assim como o segundo diretor que se levanta em seguida. Um a um, cada diretor, antes tão altruísta e altivo, agora está acuado em sua cadeira, parecendo uma criança colocada de castigo. Quando chega a minha vez, o olhar dela se fixa em mim. Engulo seco e tento sustentar seu olhar, mas minha concentração me abandona sem cerimônia. Respiro fundo e agradeço mentalmente a Adele, minha Santa Maria do livramento, quando ela me cutuca e me força a desviar o olhar. Isso me ajuda a retomar o foco e a atenção. Após todas as apresentações, Anya se levanta e começa a caminhar lentamente pela sala, parando atrás de cada cadeira, observando cada um de nós com atenção. — No relatório do setor de Marketing, consta um desempenho muito produtivo. Todos os processos realizados até o ano passado estão bem detalhados. No de Inteligência e Criação... Ela começa a listar o conteúdo de cada relatório, descrevendo detalhes que nem os próprios diretores pareciam cientes. Vejo alguns erguerem as folhas à frente, como se quisessem confirmar o que ela está dizendo. A expressão embasbacada de alguns é clara: ela conhece o conteúdo melhor do que eles. — Vocês têm equipes excelentes— continua ela.— Mas vejo que não estão a par do trabalho que elas realizam. Vocês perdem o rumo sem seus secretários, o que me faz refletir se eles não seriam mais aptos para ocupar seus cargos do que vocês. Prendo a respiração ao ouvir isso. — Porém, esta é minha primeira reunião com vocês. Não farei críticas agora. Mas espero que isso não se repita. Caso contrário, haverá despedimentos. Com um sorriso frio, capaz de congelar até a Sibéria, ela pega seu sobretudo e, sem mais uma palavra, sai da sala, deixando-nos com o peso do silêncio. O que aconteceu aqui? Olav levanta com raiva e b**e na mesa.- Mas quem ela pensa que é? — A CEO. Cuidado com a língua ou vai perder muito mais do que a pose.— Martina, diretora do setor de recursos humanos, responde, levantando-se para deixar a sala. Faço o mesmo e sigo pelo mesmo caminho. Ao caminhar de volta para o elevador, minhas engrenagens começam a trabalhar para processar tudo que aconteceu dentro daquela sala. As palavras dela ainda giravam na minha cabeça, fazendo eco. Essa reunião foi um desastre completo, e o pior é que a tensão no ar ainda não havia se dissipado, mas também, como poderia? Ninguém até agora acredita que a nova CEO colocou uma sala inteira de homens em completo silêncio, espanto e surpresa. Até agora, parece que sua figura ainda está presente aqui. A presença, a voz, a autoridade inquestionável... minha pele arrepia, e sinto um leve formigamento. — Axel! — ouço uma voz abrupta. Tomo um susto e olho em volta, observando que ainda estou parado no elevador, assim como os outros que não param de cochichar entre si, menos o Olav, que não se importa em impor sua opinião que ninguém pediu. — Uma mulher, uma maldita mulher fez isso com a gente. O tom agressivo carrega indignação e raiva. Olav não gosta de ser contrariado. Ele é o mais difícil de trabalhar entre todos. E ser intimidado por alguém que não conhece, ainda por cima uma mulher, é muito para ele. — Tenha cuidado, Olav. Vai perder o emprego.— John fala, olhando de soslaio. Ele é o único membro dessa empresa que não fala completamente com ninguém. O elevador se abre finalmente, e todos saem desnorteados, menos a Martina, que caminha como se nada tivesse acontecido. Entramos na minha sala, e Blair senta ao lado da Adele. — Como foi? — Blair começa as perguntas com toda sua curiosidade evidente. — Foi, hum, diferente. — Foi intenso, perturbador...— completo, tentando verbalizar o que sinto no momento, mesmo sem encontrar palavras. — E você estava quase babando nela.— Adele fala com o tom brincalhão de sempre, mas tem algo mais nele. Talvez preocupação com as palavras da Anya, ou meu estado tenha despertado a preocupação dela. — Não, eu estava igual a todo mundo. São divagações suas. — Axel, não estive na reunião. Mas seu estado deixa claro que simples divagações não são. Mudo minha atenção para ela e tento, em vão, formular uma defesa crível. Mas logo desisto disso, porque ainda preciso ter certeza de que aquilo foi real, de que uma mulher fez com que todos nós ficássemos nervosos na presença dela. Que, pela primeira vez, perdi minha atenção só com um olhar e, principalmente, que fiquei admirado de um jeito que eu nunca achei ser possível.






