Quarto capítulo

                   Anya Belov

Saí do carro e observei a linda residência à minha frente, a majestosa casa na qual nunca pensei em viver. Era um sonho do meu marido, um sonho que se intensificou após a guerra que achávamos que nunca iria acabar, a guerra que quase o fez perder tudo. Mas, como o incrível guerreiro que era, conseguiu resistir a tudo e se manteve de pé, como sempre fazia.

Essa casa era o sonho dele, e viver aqui será a realização desse sonho. Cada detalhe, cada pedra foi pensada com a intenção de proteger sua família e trazer felicidade, mas isso nunca vai acontecer. E, como todas as coisas que ele deixou para trás, agora eu tenho que viver isso sozinha.

Encarei a casa à minha frente, e uma lágrima quase escorreu quando as lembranças tentaram ultrapassar a barreira que imponho a elas. São essas lembranças que mais doem, os momentos rotineiros ou as conversas sobre um futuro que nunca teremos.

Pisquei algumas vezes, tentando me manter firme.

"Estou bem, estou bem."

Repeti esse mantra para mim mesma e respirei fundo, tentando recuperar a força daquela mulher que tomou a decisão de sair da Rússia, a mulher que prometeu que ficaria bem.

Balancei a cabeça e, ao tentar colocar o pé direito à frente do esquerdo para finalmente começar a caminhar, mãos pequenas abraçaram as minhas, desviando minha atenção para a pessoa ao meu lado, a pessoa pela qual prometi ser forte e corajosa.

— Tenho medo.

— Eu também tenho, mas vamos fazer isso juntas.— Apertei sua mão e sorri para ela.

Juntas, com um pé à frente do outro, começamos a caminhar para dentro da casa. Os portões majestosos se abriram, revelando a visão da casa por dentro, deixando-me completamente boquiaberta. Na planta original que ele havia mostrado, a casa não era assim. Era muitíssimo diferente e mais... colorida do que a visão à minha frente.

Na parte de fora, havia uma linda piscina, e ao lado dela uma fogueira com chamas acesas dançando ao ritmo do vento. Próxima à piscina, estavam espreguiçadeiras brancas e uma piscina menor, aparentemente infantil. As paredes em tons neutros e o chão cheio de pedras davam um charme à área externa que me impressionou. Nikolai nunca me mostrou esse projeto; acho que ele queria fazer uma surpresa, uma que ele nunca chegou a fazer enquanto esteve vivo. Suspirei e sorri ao ver o rinque de patinação, um pouco afastado da casa, com proteções cuidadosamente incorporadas.

— O papai fez para mim.

Yuna falou com a voz embargada, segurando o choro, e eu fiquei exatamente igual a ela.

— Ele sabia que você amaria patinar para sempre. Essa casa... Ele fez pensando na gente.

Falei, também emocionada. Todas as construções foram feitas por Nikolai pensando única e exclusivamente na família.

— Vamos entrar?

— Sim.

Ainda mais unidas, entramos na casa. Mal tive tempo de admirar o interior quando ouvi gritos vindos da sala:

— Surpresa!

Levei um leve susto ao ver minhas duas amigas sentadas nas cadeiras, mas elas não permaneceram sentadas por muito tempo. Logo correram até mim, jogando-se nos meus braços e apertando-me enquanto riam e choravam, sem deixar um sentimento se sobrepor ao outro.

— Anya!

— Meninas!

Apertei as duas também e deixei lágrimas escorrerem dos meus olhos, sem conseguir decifrar exatamente por que razão elas caíam.

— Como vocês sabiam?

— Achamos que você poderia querer vê-las.

Ouvi a voz do meu pai e olhei para ele, sorrindo sem me desgrudar das duas.

— Obrigada.

Eles sorriram para mim e pegaram na mão da minha filha, que também me lançou um lindo sorriso.

— Nós vamos subir, não se preocupe com nada.

— Filha?

— Sorri, mamãe.

Mas lágrimas desceram ao entender o significado de cada palavra dela.

Os três subiram para o andar de cima, e minhas amigas me arrastaram para o sofá.

Sydney, Ayana e eu nos conhecemos quando elas foram estudar na Rússia. Éramos colegas de quarto no primeiro ano, mas não nos demos bem à primeira vista, como muitos pensam. Pelo contrário, nos odiávamos. Especialmente Sydney que achava que eu era como os outros estudantes russos que faziam piadas de mau gosto sobre o nome dela. Na verdade, eu sempre achei o nome dela lindo e até comentei que, quando tivesse uma filha, daria esse nome. Mas isso foi no segundo ano da faculdade, no segundo semestre, quando a professora nos colocou juntas para fazer um trabalho. Foi aí que nos conhecemos melhor e nos tornamos amigas.

Sydney é uma linda americana que, com muito esforço e dedicação, conseguiu uma bolsa de estudos para uma das melhores universidades russas. Sydney é inteligente, animada, carinhosa e muito amorosa, mas só com aqueles que conquistam sua simpatia. Dona de uma autoestima admirável, que infelizmente a tornou perfeccionista demais, o que as vezes complicado demais as coisas, tanto na vida dela quanto nas dos outros.

Ayana, por outro lado, é branca com olhos verdes e cabelos castanhos tingidos em azul e cinza. Ayana é mais contida que Sydney, mas igualmente animada e fiel. Sua alegria e seu sorriso iluminam qualquer ambiente.

— Ela está tão crescida, e você…

A emoção encheu os olhos delas, contagiando-me também. Ao olhar para as duas, senti um peso enorme de culpa, como se não tivesse sido uma boa amiga para nenhuma delas. Nunca sequer as visitei como tanto queriam e, agora, aqui estou eu, buscando conforto para curar minhas dores.

— Desculpem, meninas. Eu devia ter visitado vocês mais vezes, devia… fui uma péssima amiga.

— Você viveu uma guerra no seu país e perdeu seu marido. Não temos muito o que cobrar de você.

Mordi os lábios e deixei as lágrimas caírem, sabendo que ali não haveria censura por isso.

Ayana e Sydney conheceram Nikolai quando nos tornamos mais próximas. Na época, eu já tinha Yuna e estava em um relacionamento com ele. Os três se tornaram amigos, compreendendo o quanto cada um era importante na minha vida. Para me fazer feliz, eles organizavam programas juntos para se conhecerem melhor e evitar desconfortos. Com o tempo, Nikolai se tornou quase um irmão para elas enquanto estavam na Rússia.

— Dói tanto. Eu… eu não…

Não consegui terminar meu pensamento antes de as duas se levantarem e me abraçarem com força.

— Sabemos que dói. Sabemos que sempre vai doer, meu amor. Mas vai diminuir.

— A única coisa que restou após todos esses anos foi a saudade dele. Eu tive que ter coragem de doar tudo. Quando vai parar?

— Com o tempo.

Os olhos delas, cada um de cor diferente, me encararam com ternura. Logo, uma taça de vinho foi colocada na minha frente. Peguei e bebi tudo de uma vez.

— Sei que não devia fazer isso, mas…

— Durante todos esses anos, com quem você realmente desabafou?

Mordi os lábios, hesitante. Além da psicóloga que me ajudou no processo de luto e a lidar com Yuna, não falei com mais ninguém. Não queria me mostrar fraca para meus pais, muito menos para minha filha.

— Ninguém.

— Então coloque tudo para fora. Hoje, estamos aqui para ouvir você e ajudar nossa melhor amiga a curar suas feridas.

Sorri entre lágrimas, que vieram acompanhadas de uma enxurrada de sentimentos guardados. Peguei a garrafa de vinho, servi mais uma taça e deixei as lágrimas caírem sem controle. Ayana e Sydney seguraram minhas mãos e choraram comigo, compartilhando minha dor ou, talvez, tentando aliviar o peso que eu carregava.

Quando a noite terminou, duas garrafas de vinho estavam vazias, e as lágrimas deram lugar a sorrisos tímidos e melancólicos. Rimos de lembranças que doíam e aqueciam o coração ao mesmo tempo.

Após a terceira garrafa, elas me levaram para o quarto. Tiraram minhas roupas quentes e ajudaram-me a deitar na cama.

— Obrigada.

— Sempre juntas.

— Até o fim.

Deixei um sorriso amoroso escapar antes que o sono me envolvesse, como sempre acontecia quando bebia.

---

O segundo problema de quando bebo é a ânsia de vômito e a tontura, que sempre estão presentes. Afasto os lençóis do meu corpo e corro até o banheiro. Abaixo-me na privada e não tenho tempo nem de afastar o cabelo, porque em um piscar de olhos, meu rosto já está no vaso, e tudo o que ingeri ou não, está saindo para fora, causando dores horríveis no meu estômago e um mal-estar terrível. Termino de vomitar e me levanto do chão.

Encaro meu rosto no espelho acima do mármore da pia e vejo como realmente estou; quase não reconheço a mulher no espelho, mas, deveria reconhecê-la? Depois de tudo o que aconteceu, era mesmo para eu me reconhecer?

Antes que comece a chorar novamente, lavo a boca e o rosto e saio do banheiro. Levo um susto ao ver as meninas paradas na porta, com um sorriso engraçado estampado no rosto delas.

— Não tem graça.

— Você continua fraca para bebida.

— Não sou fraca. Meu corpo é que não aceita bem.

Elas repetiram comigo, em coro, e cruzei os braços, chateada.

— Parem! Não tem graça.

Elas riram mais ainda, e eu as empurrei de leve. Continuavam as mesmas patetas de sempre.

Sai do banheiro e caminho até a varanda do meu quarto, que me proporciona uma vista maravilhosa da parte de trás da casa. Não sei exatamente em que lugar estamos, mas é incrível poder ter a vista do mar e sentir o cheiro salgado que vem dele. Eu amo minha terra, mas na Rússia, a maior parte do ano é fria e nevada, a ponto de até os lagos congelarem, e ficar perto da água se torna perigoso. O verão lá é curto e não dá para aproveitar muito. Então, poder estar em um lugar onde, ao amanhecer, já está calor e o mar não está coberto de gelo na maior parte do tempo é realmente lindo.

— É lindo.

— Bem-vinda aos Hamptons, minha querida. Bem-vinda a Nova York!

Elas sorriram para mim, e eu fiz o mesmo. Porém, nosso momento de calmaria durou pouco, quando uma melodia, que começou calma, reverberou em sons altos, acompanhados de palavras que não eram russas nem inglesas.

— Que som é esse?

As duas estranharam, mas eu nem fiz movimento brusco. Já faz três anos que estou acostumada com isso.

— Yuna e seus coreanos.

Falei e elas franziram o cenho. Saímos do meu quarto e seguimos o som. A cada passo, o som ficava mais forte. Paramos na parte de fora e não tive nenhuma surpresa ao ver minha menina patinando no enorme e bonito ringue de gelo feito só para ela, ao som da música que ainda é difícil para mim de identificar.

— Yuna cresceu tanto.

— Quando saímos da Rússia, ela era um lindo bebê de pouca idade.

— Agora ela é uma adolescente que tem suas fases boas e complicadas.

Sorri ao vê-la, mas meu sorriso desapareceu ao vê-la fazer um longo salto. Mas não foi isso que fez meu sorriso desaparecer, e sim a lágrima que vi escorrendo de seu rosto e o olhar melancólico que tomou seu semblante.

— Yuna...

Não é a primeira vez que vejo minha menina derramar lágrimas sozinha. Algumas vezes, na Rússia, eu a ouvia chorar no canto do antigo escritório do pai, segurando uma de suas coisas. Outras vezes, ela derramava lágrimas do nada, ao lembrar dos dois, ou quando se animava demais e dizia: "Papai vai ficar tão feliz." Mas logo seu sorriso desaparecia ao lembrar que ele não estava ali para ficar feliz por ela ou para sorrir nas vitórias dela.

— Ela ainda sente saudades do pai, não é?

— Muitas. Tem dias como esse em que ela fica mal-disposta e não sai do quarto. Outros, ela grita com todos e mal consegue estar consigo mesma. Passar pelas fases da adolescência e viver com a saudade e a ausência do pai é muito para ela.

Continuamos observando-a até a música mudar e começar uma que conheço muitíssimo bem, uma que ela ama muito e que a fez ver um filme infantil novamente.

— Yuna tem um verdadeiro talento para isso.

— Talento? Isso é um dom maravilhoso.

As duas entraram em uma pequena discussão para ver quem estava certa, enquanto eu continuei olhando minha filha patinar. Dom ou talento, o que importa é que minha menina ama, e isso é o que mais importa para mim.

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