Segundo capítulo

Cruzo os braços e observo minha filha arrumar as malas com a expressão séria e calma. Os olhos antes brilhantes, curiosos e vivos, agora está mais profundo, uma característica que infelizmente adquiriu com o tempo. Os dentes massacrando os lábios demonstram o conflito interno que ela enfrenta e eu ainda não tenho acesso. Desde que recebeu a notícia, ela tem se comportado assim. Não vejo no rosto dela nenhuma surpresa ou resistência pela mudança. Pelo contrário, quando conversamos, a única coisa que ela disse foi:

— Quando chegar o dia, arrumarei minhas malas.

Após isso, não tocou mais no assunto, nem fez perguntas, tampouco insistiu. Mas ao vê-la terminar de arrumar suas malas e começar a separar o que queria levar das coisas do pai, percebo pelo semblante dela que também precisa de uma mudança, de sair daqui por algum tempo. O país que antes nos dava felicidade, agora só nos proporciona tristeza e melancolia.

Nesses três anos, Yuna deixou de ser a menina de onze anos e se tornou uma pré-adolescente de quatorze. Apesar de calma, ela dá muito trabalho e tem um gênio forte que sempre me lembra o pai, mas até isso tem seu valor.

Perder o pai foi um choque para ela, mas só entendi o impacto disso quando a vi ter um ataque de pânico no escritório de Nikolai, o lugar onde ela brincava e passava a maior parte do tempo. O som de seus soluços e a maneira como se encolheu em um canto, como se o espaço fosse pequeno demais para suportar a dor, me fez perceber que o luto não me abraçou sozinha. Ele também tomou conta dela, afetando corpo e mente de uma forma que eu não esperava. Foi ali que entendi que precisava tomar uma decisão difícil, mas necessária: procurar a ajuda de uma psicóloga.

Ao conversar com a profissional, percebi que eu precisava falar com minha filha e contar a verdade sobre o que aconteceu. A psicóloga me disse que não era errado falar sobre o pai dela, pois isso poderia ajudá-la a lidar com a situação, e que tentar esconder seria pior. Além disso, ela estava tendo que processar muita informação, perder o pai e ver a mãe se perder no processo. Não foi fácil para nenhuma de nós, mas juntas conseguimos superar, e, após três anos, estamos melhores e seguimos superando a cada dia.

— A senhora vai continuar me encarando?

Sou tirada dos meus pensamentos pela voz não mais infantil, e entro no quarto. Sento na cama e observo ela separar as coisas.

— Vai levar só isso?

Pergunto, apontando para os itens que ela separou do pai.

— Sim, as roupas não têm valor para mim, só quero isso mesmo.

Olho para as caixas arrumadas no chão, com o que parece ser as roupas de Nikolai. Finalmente, eu e ela tivemos coragem de pôr tudo em caixas e doar.

— Já está na hora de tirar também, mamãe.

Sigo seu olhar e vejo que ele para na minha aliança. Instintivamente, fecho a mão e a levo até o peito.

— Não estou pronta para isso ainda.

— Está bem.

Ela sorri compreensiva, e vejo quando o sol reflete na aliança de casamento de Nikolai no pescoço dela. Para Yuna, é como se ele estivesse sempre perto.

— Mamãe...

Ouço ela chamar com um tom relutante e ergo uma sobrancelha. Geralmente, ela não fala assim.

— Sim?

— A senhora vai cumprir o que prometeu, não é?

Sorrio e seguro suas mãos.

— Óbvio que sim, não quebro minhas promessas, principalmente com você.

Ela sorri e me abraça com força, fazendo-me sorrir também.

Uma das condições para a mudança é que Yuna possa frequentar uma escola de arte. Ela não é boa em escolas convencionais. Quando tinha treze anos, faltava mais do que frequentava e raramente tinha boas notas. O mais curioso é que ela nunca desviava para outros lugares, não tinha más companhias, e nunca fez nada que me preocupasse. Para não ser injusta, segui-a uma vez e a vi entrar em um ringue de patinação no gelo. Fiquei surpresa, pois minha filha nunca demonstrou interesse por isso antes.

Mas, ao ver o desempenho dela, percebi o quão boa ela é, se esforçando para que cada movimento fosse perfeito e milimetricamente calculado.

Yuna é tão boa na patinação que não tive dúvidas de que era seu dom, e sem dúvida, o que ela queria para a vida inteira. Mas sou mãe, e as preocupações nunca acabam, especialmente ao ver os saltos que ela fazia, que a tiravam do chão e a faziam voar. Quando vi pela primeira vez, fiquei muito assustada e quase desmaiei ao vê-la saltar tão alto. Aquele dia foi horrível para o meu coração.

☆ Passado☆

Observava minha filha voar e meu coração bateu descompassado, errando a batida e quase saindo pela boca, ao vê-la subir ainda mais.

- Meu Deus, ela vai cair!

- Senhora, calma. Yuna é boa nisso, ela não vai cair.

E, dito e feito, ela não caiu. Pelo contrário, aterrissou com uma graciosidade maravilhosa, recebendo aplausos dos presentes.

- Uau!

Admirei, espantada, e vi Yuna perder o foco, olhando para mim com receio no olhar. Ela se aproxima com relutância, cabeça baixa.

- Tem algo para contar?

- Mamãe, eu... eu juro que não queria, mas é que... eu...

Seguro suas mãos e, antes que ela continue, a abraço com força.

- Independentemente de tudo, eu te amo.

Ela começa a soluçar e se esconde em meus braços.

— Por que não me contou?

— Tinha medo que você não aceitasse. Tinha medo de ser proibida de patinar.

— Como assim, filha? Eu nunca impediria você de fazer algo que ama. - Olho nos seus lindos olhos. - Há quanto tempo você faz isso?

— Hum...— morde o lábio e logo sorri. - Desde que tinha nove anos, papai me trouxe aqui pela primeira vez.

É óbvio que o pai dela sabia, eles eram muito ligados, e isso sempre me deixou feliz.

—Você gosta?

— Muito.

— Está bem, você pode patinar sempre que quiser, desde que tenha equilíbrio com a escola.

☆Presente☆

Ela concordou com isso, mas as notas não melhoraram, e isso me preocupou, até que descobri que ela não tem aptidão para essas aulas, mas sim para as de arte, nas quais é muito boa. Suas notas nunca caíram desde que entrou na escola de arte, e ela quer continuar fazendo essas aulas. E ela vai.

- Vamos terminar para ir?

- Sim.

Levanto da cama e saio do quarto. Minhas malas e as de meus pais já estão prontas.

Após alguns minutos, Yuna desce com duas malas, sorri e coloca-as no carro.

Levanto da poltrona, respiro fundo e dou cada passo em direção à porta, me afastando da casa que foi meu lar por dez anos, onde fui imensamente feliz.

Pego a maçaneta e, sem hesitar, abro a porta e saio, fechando-a atrás de mim. Dou alguns passos e me viro para encarar a casa uma última vez, deixando as memórias invadirem minha mente, trazendo consigo a melancolia, felicidade e tristeza.

Fui tão feliz aqui, esta era minha casa dos sonhos, projetada por Nikolai, especialmente para mim, com base nos meus gostos. Minha filha nasceu aqui, meu casamento foi aqui, nossa festa de graduação foi aqui, os aniversários de casamento que celebramos juntos, as festinhas de Yuna quando ela era pequena, tudo aconteceu aqui, toda minha felicidade esteve aqui. Mas agora chegou a hora de ir, pois essa casa já não tem o mesmo significado para mim. O velório do homem que eu amava também foi aqui.

Uma lágrima escorre do meu rosto, e um sorriso triste surge nos meus lábios. Respiro fundo, encaro a casa pela última vez e viro as costas, deixando esse capítulo da minha vida para trás. Preciso, e devo, virar a página dessa tristeza.

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